MedCaju · Clínica cirúrgica · Revisão para prova

Revisão
cirúrgica

Resposta metabólica ao trauma, cicatrização, queimaduras e lesões elétricas — os quatro pilares da fisiopatologia cirúrgica, organizados para a prova do Prof. Arnóbio. Do TNF ao Parkland, do queloide à regra dos 9.

Leitura · ~40 min Nível · clínica cirúrgica I Temas · 4 blocos Foco · prova
01 · Resposta metabólica ao trauma

O corpo em guerra contra a própria lesão

Trauma, infecção e inflamação grave deflagram uma mudança metabólica brutal: o organismo mobiliza gordura e proteína para sobreviver. Entender essa resposta é entender o doente cirúrgico grave.

Após um trauma, o corpo redireciona todo o seu metabolismo para um único objetivo: sobreviver ao insulto e reparar a lesão. Para isso, mobiliza os dois grandes reservatórios energéticos — o lipídico (tecido adiposo) e o proteico (músculo esquelético).

A ideia central

Hipercatabolismo: quebrar para sobreviver

A resposta ao trauma é, na essência, catabólica: o corpo quebra estoques de energia para alimentar funções vitais — órgãos viscerais, sistema imune e reparo tecidual. Gordura vira ácido graxo; músculo vira aminoácido. Esses aminoácidos servem para síntese de proteínas de fase aguda, reconstrução tecidual e como precursores da gliconeogênese.

O preço dessa mobilização é alto: a degradação proteica do músculo esquelético pode comprometer a função locomotora e a musculatura da caixa torácica, prolongando a convalescença. Se a resposta metabólica não dá conta das demandas, o paciente sucumbe. Se supera, entra em convalescença anabólica — restauração da massa magra e dos estoques de gordura.

Fatores que amplificam a resposta

Eventos concomitantes prolongam e intensificam o hipercatabolismo: imobilização, jejum, drogas anestésicas, reposição maciça de hemoderivados, isquemia regional e hipoperfusão tecidual global. Por isso o controle desses fatores (analgesia, nutrição precoce, perfusão adequada) atenua a resposta.

Resposta neuroendócrina × resposta inflamatória

O trauma dispara duas vias paralelas que convergem no mesmo resultado metabólico:

Neuroendócrina

Catecolaminas (adrenalina), ↑ Cortisol, ↑ Glucagon. Mobilizam glicose, gordura e proteína. O SNC inicia a resposta; o SN periférico transmite os sinais aferentes.

Inflamatória

Citocinas (TNF, IL-1, IL-6), ↑ metabólitos do ácido araquidônico, ↑ proteínas hepáticas de fase aguda, ↑ agentes oxidantes.

O resultado nos órgãos-alvo: tecido adiposo faz lipólise (↑ ácidos graxos), fígado faz glicogenólise + gliconeogênese + síntese de ureia, e músculo faz proteólise (libera alanina, aminoácidos, lactato). Coração e cérebro consomem o substrato (glicose, cetonas).

02 · A escada da gravidade

SIRS → sepse → choque séptico

Os sinais cardinais da inflamação são os mesmos desde a Roma antiga. Mas a definição que cai na prova é a escada de gravidade — saber subir cada degrau é diferenciar um doente estável de um moribundo.

INFLA- MAÇÃO DOR EDEMA CALOR RUBOR Functio laesaperda de função
Fig. 1 — Os cinco sinais cardinais da inflamação: dor (dolor), calor (calor), rubor (rubor), edema (tumor) e perda de função (functio laesa).
Critério de prova — decore

SIRS: pelo menos 2 dos 4 critérios

Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica = paciente com ≥ 2 entre:

FC > 90 bpm · FR > 20 irpm · Temp > 38°C ou < 36°C · Leucócitos > 12.000, < 4.000 ou > 10% bastões

1
SIRS + foco

Sepse

SIRS + foco infeccioso comprovado (cultura positiva). A inflamação sistêmica agora tem um culpado identificado.

2
Sepse + choque

Sepse grave

Sepse + choque circulatório (hipotensão, hipoperfusão, disfunção orgânica). O organismo começa a falhar.

3
Refratário ao volume

Choque séptico

Instabilidade hemodinâmica que não reverte com volume e exige droga vasoativa. É o degrau mais grave da escada.

Nota sobre as definições

Esta classificação (SIRS → sepse → sepse grave → choque séptico) é a usada na aula do Prof. Arnóbio e é o que cai na prova. Vale saber que o consenso internacional Sepsis-3 (2016) reformulou esses conceitos usando o escore SOFA, mas para esta prova siga a sequência apresentada em aula.

Recall ativo
Qual o divisor de águas entre "sepse grave" e "choque séptico"?
Toque para revelar
A resposta ao volume. Na sepse grave há choque circulatório, mas se a instabilidade hemodinâmica reverte com reposição volêmica, ainda não é choque séptico. Quando o paciente permanece instável apesar do volume e passa a depender de droga vasoativa (noradrenalina), aí sim é choque séptico. O critério prático: precisou de vasopressor = choque séptico.

03 · Iniciadores e propagadores

Quem liga e quem mantém a resposta

A resposta metabólica tem um gatilho (iniciadores) e um motor que a mantém acesa por dias (propagadores). As citocinas pró-inflamatórias são as estrelas — e a dose faz toda a diferença.

Iniciadores

O estresse do trauma ativa cortisol e adrenalina. O tipo (físico ou emocional) e a intensidade modulam a resposta. O sistema nervoso simpático é ativado, preparando o corpo para reagir.

Propagadores

A cascata inflamatória (citocinas e mediadores) mantém e amplifica a resposta. Efeitos: ↑ gliconeogênese, ↑ lipólise, ↑ catabolismo proteico. Modulada por sistema endócrino e nervoso.

As citocinas que importam — TNF e IL-1

TNF-α (caquexina) — o grande vilão

Infusão de TNF em hospedeiros causa anorexia, ativa o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e aumenta catabolismo proteico, lipólise e gliconeogênese. Em altas doses → disfunção de múltiplos órgãos e óbito. O nome "caquexina" vem justamente da caquexia que provoca.

IL-1 — depende da concentração

Em baixas concentrações, estimula o sistema imune de forma benéfica. Em altas, produz febre, hipotensão e proteólise. Em associação com TNF tem efeito sinérgico. Estimula a produção hepática de proteínas de fase aguda. Encontrada em altas concentrações em politraumatizados e na pancreatite aguda grave (marcador de gravidade e mortalidade).

TNF (dose)Resposta do hospedeiroCorrelação clínica
Baixa↓ estoques de ferro, mialgia, cefaleia, anorexiaInfecções subclínicas, influenza
ModeradaFebre, taquicardia, hormônios contrarreguladores, proteínas de fase agudaApendicite aguda, abscessos intra-abdominais
AltaRetenção líquida, linfopenia, hipotensãoGrande queimado
Muito alta↓ consciência, hipotensão grave, edema pulmonar, oligúriaSepse grave, pancreatite necrosante, grande queimado séptico
Mnemônico MedCaju

Hormônios contrarreguladores — "CAGE"

CCortisol — proteólise e gliconeogênese AAdrenalina (catecolaminas) — lipólise e glicogenólise GGlucagon — ↑ glicemia e glicogenólise GHHormônio do crescimento — capta glicose / resistência insulínica

O eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, disparado por hipovolemia, estresse, dor, anestésicos e hipoglicemia, libera ACTH (→ corticosteroides → proteólise), aldosterona (→ retenção de sódio e água) e ADH (→ retenção hídrica). A insulina cai no início — o que favorece o catabolismo.

04 · Substratos energéticos

Glicose, gordura e proteína em sequência

O corpo gasta seus combustíveis numa ordem lógica: primeiro o que é rápido, depois o que é sustentável, e por último o que dói perder — o músculo.

Bioquímica da 1ª fase

Por que o lactato sobe sem necessariamente haver hipóxia

A 1ª fase é de hipercatabolismo, hiperglicemia e hiperlactatemia. Em doentes críticos, o lactato pode subir sem hipóxia: a glicólise acentuada (captação de glicose + quebra de glicogênio) gera excesso de piruvato, que é degradado em lactato + hidrogênio → acidose láctica. Ou seja: nem todo lactato alto significa hipoperfusão — embora a hipoperfusão também o eleve.

A glutamina e a alanina — irmãs do glutamato

Ambas derivam do glutamato, mas têm destinos opostos no trauma:

Glutamina ↓

Aminoácido mais reduzido no estresse — degradação aumentada + produção diminuída. Em doentes críticos, cai 80-90% no músculo. É fonte de energia primária do trato GI e do sistema imune. Por isso é suplementada.

Alanina ↑

Precursora da glicose via gliconeogênese (ciclo glicose-alanina). Quanto mais alanina, menos glutamina — competem pelo mesmo precursor.

Por que isso importa na prática

A queda dramática da glutamina explica por que o intestino e a imunidade sofrem no doente crítico — eles dependem dela como combustível. É a base racional para imunonutrição com glutamina no pós-operatório de grandes cirurgias e no queimado.

05 · As três fases

Catabólica → anabólica inicial → anabólica tardia

A resposta metabólica tem um arco narrativo: primeiro o corpo destrói para sobreviver, depois reconstrói. Saber em que fase o paciente está orienta a nutrição e o prognóstico.

1
Fase catabólica inicial · "ebb / flow"

Catabólica

Predomina o glucagon → maior gliconeogênese hepática. Hipercatabolismo, hiperglicemia, hiperlactatemia. Balanço nitrogenado negativo (perde proteína). Mobilização simultânea de gordura e glicose. ↑ catecolaminas, cortisol; ↓ insulina.

2
Anabólica inicial · viragem

Anabólica inicial

Queda dos corticosteroides circulantes, diurese do líquido retido, recuperação do apetite. ↓ gliconeogênese. Síntese proteica redirecionada para recuperação muscular. Balanço nitrogenado torna-se positivo — ganho de massa magra (até ~100 g/dia).

3
Anabólica tardia · restauração

Anabólica tardia

Restauração dos estoques de gordura. Consome mais calorias, acontece de forma mais lenta. Balanço nitrogenado ainda positivo, ritmo de ganho de peso aproxima-se do normal.

Controle da dor e jejum — duas implicações de prova

A dor amplifica o catabolismo

A dor mantém catecolaminas elevadas, compromete a ventilação e aumenta o consumo de O₂. A analgesia faz parte do controle metabólico. O bloqueio aferente por anestésicos no espaço peridural controla a dor sem os efeitos sedativos dos narcóticos, permite mobilização precoce, reduz uso de AINH e atenua a liberação de hormônios contrarreguladores — reduzindo a resistência à insulina e o balanço nitrogenado negativo.

Limite do jejum no doente crítico

3 a 4 dias — não mais que isso

Indivíduos sadios toleram vários dias de jejum, mas o doente crítico não. O jejum deve ser limitado a no máximo 3 a 4 dias, com suporte nutricional introduzido o mais precocemente possível. Não é só o jejum do pós-operatório: o jejum para exames e procedimentos também limita o aporte de substrato.

Hipermetabolismo tem teto

O aumento da taxa metabólica basal varia: trauma ortopédico eleva 10-30%, sepse 30-60%, e grande queimado pode chegar a 100%. Mas existe um limite fisiológico — a reserva do indivíduo. Condições extremas levam à exaustão dos sistemas fisiológicos e à morte.

06 · Cicatrização

Três fases, uma orquestra celular

Cicatrizar é restaurar a integridade do tecido por neoformação de conjuntivo ou regeneração. Três fases que se sobrepõem — inflamatória, proliferativa e de maturação — cada uma com suas células protagonistas.

DIAS APÓS A LESÃO CONCENTRAÇÃO INFLAMATÓRIA PROLIFERATIVA MATURAÇÃO 048 121620+ Plaquetas Neutrófilos Macrófagos Fibroblastos Colágeno I / força
Fig. 2 — Cinética celular da cicatrização. Plaquetas e neutrófilos dominam cedo (inflamação); macrófagos e fibroblastos sustentam a proliferação; o colágeno tipo I e a força tênsil crescem por semanas (maturação).
1
Dia 1 a 4 · células: plaquetas + neutrófilos

Fase inflamatória

Caracterizada por exsudato. Ocorre ativação da coagulação e liberação de mediadores químicos — edema, vermelhidão e dor. Eventos-chave: ativação plaquetária, cascata de coagulação (hemostasia) e aumento da permeabilidade vascular para promover quimiotaxia.

2
Dia 5 a 20 · células: fibroblastos + endoteliais

Fase proliferativa

A fase da regeneração. Proliferação de fibroblastosfibroplasia. Células endoteliais proliferam → rica vascularização + infiltração de macrófagos = tecido de granulação. Inclui epitelização, angiogênese e contração da ferida.

3
Semanas a meses · célula: miofibroblasto / colágeno

Fase de maturação (remodelamento)

Densidade celular e vascularização diminuem. Fibras de colágeno realinhadas para aumentar resistência. Troca de colágeno III por colágeno I. A cicatriz muda de cor — do vermelho escuro ao rosa claro.

Mnemônico MedCaju

As 3 fases — "I Proliferei Maduro"

IInflamatória (1-4 dias) — hemostasia, exsudato, neutrófilos PProliferativa (5-20 dias) — fibroblasto, granulação, angiogênese MMaturação (meses) — remodelamento, colágeno I, força tênsil

Fatores de crescimento — quem chama quem

FatorOrigem principalFunção-chave
PDGFPlaquetas, macrófagosAtiva macrófagos/neutrófilos; prolifera fibroblastos e músculo liso
TGF-βPlaquetas, macrófagosMetabolismo do colágeno, ↑ força tênsil, angiogênese, quimiotaxia
VEGFCélulas epidérmicas, macrófagosProliferação endotelial, ↑ permeabilidade vascular (angiogênese)
FGFMacrófagos, endoteliaisAngiogênese, proliferação de fibroblastos, contração
EGFPlaquetas, macrófagosProliferação de queratinócitos, fibroblastos, endoteliais

O macrófago é a célula-orquestra: aparece em quase todas as origens. Sem macrófago, a cicatrização trava na transição inflamação→proliferação.

07 · Tipos de cicatrização e cicatriz

Primeira, segunda e terceira intenção

O modo como a ferida fecha define o tipo de cicatrização. E o resultado final — a cicatriz — pode ser perfeito ou problemático. Diferenciar queloide de hipertrófica é pegadinha clássica.

1ª intenção

Bordas aproximadas (suturadas). Perda mínima de tecido, sem infecção, mínimo edema. Granulação não visível. Ex: ferida cirúrgica suturada.

2ª intenção

Perda excessiva de tecido, com ou sem infecção. Bordas não aproximáveis. Ferida aberta fecha por contração + epitelização. Ex: úlcera, ferida infectada.

3ª intenção

Fechamento tardio: trata aberto primeiro (geralmente por infecção), depois sutura. Também chamada de fechamento primário tardio.

Os cinco tipos de cicatriz

Hipertrófica × Queloide a pegadinha clássica

As duas têm colágeno em excesso e pele protuberante. A diferença está no limite da lesão original:

Hipertrófica — fica dentro dos limites da ferida. Tende a regredir com o tempo.

Queloideultrapassa os limites da ferida, invade pele sã. Não regride, recidiva após excisão, tem base genética (mais comum em fototipos altos).

Se "passou da linha" da ferida = queloide. Se "respeitou a linha" = hipertrófica.
Recall ativo
Ferida cirúrgica limpa e suturada, sem infecção, com bordas justas — qual o tipo de cicatrização e por quê não se vê granulação?
Toque para revelar
Primeira intenção. Como as bordas estão aproximadas e a perda tecidual é mínima, o espaço a ser preenchido é pequeno. O tecido de granulação (que preenche grandes defeitos na 2ª intenção) praticamente não se forma — a aposição direta das bordas permite epitelização rápida sobre um leito mínimo. Por isso a cicatriz é fina e a granulação não é clinicamente visível.
08 · Fatores que afetam a cura

O que atrasa e o que acelera

Cicatrização é metabolicamente cara. Qualquer coisa que comprometa perfusão, oxigenação ou nutrição atrasa a cura — e a ferida crônica é o resultado de um ciclo inflamatório que não fecha.

Atrasam

Isquemia, baixa oxigenação, infecção, diabetes e doenças crônicas, idade avançada, imunossupressão, má nutrição, compressão local, má perfusão tecidual, corpos estranhos, trauma repetido, carga bacteriana elevada.

Favorecem

Bom estado nutricional, glutamina (proliferação celular), arginina (proteínas, vasodilatação, imunidade), vitaminas A, C e K, minerais (cobre, zinco, cálcio).

Esteroides — favorecem ou atrapalham? cuidado com a aula

O slide do Prof. Arnóbio lista "esteroides" entre os fatores que favorecem, mas atenção ao contexto: corticosteroides em uso crônico ATRASAM a cicatrização (inibem inflamação, fibroblastos e síntese de colágeno) — e seu efeito pode ser parcialmente revertido pela vitamina A. Os esteroides "favoráveis" referem-se a anabolizantes/contexto específico de reposição. Na prova: se a questão falar de corticoide crônico (prednisona), a resposta é que ele prejudica a cicatrização.

Corticoide crônico atrasa a cicatrização; vitamina A ajuda a reverter esse efeito.
Ferida crônica — o ciclo vicioso

Por que algumas feridas não fecham

Corpos estranhos, trauma repetido, isquemia local e carga bacteriana elevada perpetuam a inflamação prolongada. Macrófagos e neutrófilos ficam estacionados no leito liberando citocinas, que aumentam MMPs (metaloproteinases que degradam a matriz) e diminuem TIMPs (seus inibidores). A matriz extracelular é degradada e os fatores de crescimento ficam aprisionados — a ferida nunca sai da fase inflamatória.

09 · Queimaduras — profundidade

1º, 2º e 3º grau

A pele é o maior órgão do corpo. A profundidade da queimadura determina a camada atingida, a clínica e a conduta. Saber em que camada parou a lesão é o primeiro passo.

A pele em números

Maior órgão do corpo — de 0,25 m² no RN a 1,8 m² no adulto. Duas camadas: epiderme (barreira, células externas mortas, renovação a cada ~2 semanas) e derme/cório (tecido conjuntivo fibroso, contém vasos, nervos, glândulas sudoríparas e terminações nervosas da dor). A pele previne perda de líquidos/calor, regula temperatura e sintetiza vitamina D.

Epiderme Derme Hipoderme (gordura) 1º GRAU 2º GRAU superficial / profundo 3º GRAU A PROFUNDIDADE DEFINE O GRAU
Fig. 3 — Profundidade das queimaduras. 1º grau atinge só a epiderme; 2º grau atinge a derme (superficial ou profundo); 3º grau atravessa toda a pele até a hipoderme/gordura.
GrauCamadaClínicaDor
1º grauEpidermeEritema, sem bolhas (ex: solar)Dolorosa
2º superficialDerme superficialBolhas, leito róseo úmido, enchimento capilar +Muito dolorosa
2º profundoDerme profundaBolhas, leito mais pálido, enchimento lentoMenos dolorosa
3º grauToda a pele + hipodermeEscara branca/marrom/carbonizada, seca, coriáceaIndolor (destruiu nervos)
Pegadinha da dor

Contraintuitivo, mas cai sempre: a queimadura de 3º grau é indolor no centro porque destrói as terminações nervosas da derme. A 2ª grau superficial é a mais dolorosa de todas — os nervos estão expostos e irritados, não destruídos. Não confunda "mais grave" com "mais dolorosa".

10 · Extensão e gravidade

A regra dos nove

Estimar a superfície corporal queimada (SCQ) define a gravidade e a reposição volêmica. A regra dos 9 é a ferramenta de cabeceira — e muda entre adulto e criança por causa da cabeça.

Regra dos 9 — adulto

Cada região vale 9% (ou múltiplo)

Cabeça = 9% · Cada braço = 9% (4,5 ant + 4,5 post) · Tronco anterior = 18% · Tronco posterior = 18% · Cada perna = 18% · Genitália/períneo = 1%. Soma = 9+9+9+18+18+18+18+1 = 100%.

Notas do Prof. Arnóbio (anotações da prova)

Da anotação à mão no slide: face = 4,5%A (anterior), tórax e abdome anterior = 18%A, membro superior = 9%A. Conta exemplo: 4,5 + 18 + 9 + ... montando a SCQ por somatório regional. Em criança, a cabeça pesa mais (até 18% no lactente: 9% ant + 9% post) e as pernas pesam menos — porque a cabeça é proporcionalmente maior.

Regra da palma da mão

Para queimaduras pequenas ou esparsas: a palma da mão do paciente (com os dedos) ≈ 1% da SCQ. Útil para somar áreas irregulares.

Classificação de gravidade (American Burn Association)

Gravidade2º grau (adulto)2º grau (criança)3º grau
Significativa> 25%> 20%> 10%
Moderada15-25%10-20%< 10%
Menor< 15%< 10%< 2%

Também classificam como significativa: queimaduras de mãos, face, olhos, orelhas, pés ou períneo, lesão por inalação, lesão elétrica, queimadura agravada por outro trauma, e pacientes de alto risco.

11 · Reposição volêmica

A fórmula de Parkland

O grande queimado perde volume maciço pela superfície lesada. Parkland calcula quanto repor nas primeiras 24 horas — e é conta de prova garantida.

Fórmula de Parkland

2 a 4 mL × peso (kg) × %SCQ

Volume de Ringer lactato nas primeiras 24h:

Volume = (2 a 4) × Peso(kg) × %SCQ

Da anotação do professor: usa-se 4 mL para queimadura elétrica, 2 mL para adulto e 3 mL para criança (< 14 anos). Metade do volume é infundida nas primeiras 8 horas (contadas do momento da queimadura, não da admissão); a outra metade nas 16h seguintes.

Caso clínico — anotação do próprio slide

Paciente de 70 kg, 60% de superfície corporal queimada. Quanto repor por Parkland (adulto, 2 mL)?

Fórmula: 2 mL × peso × %SCQ
Cálculo: 2 × 70 × 60 = 8.400 mL em 24h
1ªs 8h: metade = 4.200 mL (≈ 525 mL/h)
16h seguintes: 4.200 mL (≈ 262 mL/h)
VOLUME TOTAL EM 24 HORAS 8.400 mL
Detalhes que caem na prova

Use Ringer lactato (cristaloide). Só conta a área de 2º e 3º grau (1º grau não entra no cálculo). O melhor parâmetro de adequação da reposição é o débito urinário: 0,5-1 mL/kg/h no adulto, 1 mL/kg/h na criança. Ajuste a infusão pela diurese, não pela fórmula isolada — Parkland é ponto de partida, não regra rígida.

Recall ativo
A partir de que momento você conta as "primeiras 8 horas" de Parkland: da admissão hospitalar ou da queimadura?
Toque para revelar
Da queimadura, não da admissão. Se o paciente chegou ao hospital 2 horas após o acidente, você só tem 6 horas restantes para infundir a primeira metade do volume — e precisa correr para repor o que "atrasou". Esse é um erro clássico que leva a sub-reposição. Sempre pergunte a hora do acidente.
12 · Cuidados da ferida de queimadura

Prata, desbridamento e função

A sepse de ferida ainda é o grande inimigo do queimado. O manejo moderno combina antimicrobiano tópico, fechamento cirúrgico precoce e preservação do movimento.

Agentes tópicos antibacterianos

Método exposição

Sem curativo após o agente (aplicado 2-3×/dia). Usado em face e cabeça. Desvantagens: mais dor, perda de calor, maior contaminação cruzada.

Método fechado (preferido)

Curativo oclusivo sobre o agente, trocado 2×/dia. Vantagens: menos dor, menos perda de calor, menos contaminação. Preferido na maioria das vezes.

Hidroterapia e desbridamento

A imersão em banheira caiu em desuso — aumenta infecção por inoculação generalizada. Prefere-se prancha inclinada/ducha. O desbridamento operatório precoce (primeiros dias, sem esperar a queda da escara) e o fechamento rápido reduzem nitidamente sepse e mortalidade. A excisão tangencial preserva tecido viável e prepara base vascular para enxerto.

Por que cobrir a ferida rápido importa

Inflamação da queimadura perpetua o hipercatabolismo

Mesmo sem infecção, a inflamação da ferida de queimadura pode causar disfunção de múltiplos órgãos e manter o estado catabólico hipermetabólico (lembra do bloco 1?). Fechar a ferida cedo interrompe esse motor inflamatório — por isso o manejo cirúrgico moderno é agressivo. Conecta diretamente com a resposta metabólica ao trauma.

Lesão respiratória e intoxicação por CO

Carboxi-HbGravidadeSintomas
< 20%LeveCefaleia, dispneia leve, alterações visuais, confusão
20-40%ModeradaIrritabilidade, ↓ julgamento, visão turva, náusea, fadiga
40-60%SeveraAlucinações, confusão, ataxia, colapso, coma
> 60%FatalÓbito

Fumaça libera CO, aldeídos (acroleína), fosgênio, cianeto de hidrogênio (de poliuretano/acrilonitrila). Suspeite de lesão inalatória em queimadura de face, vibrissas chamuscadas, escarro carbonáceo, espaço confinado. Tratamento da intoxicação por CO: O₂ a 100% (reduz a meia-vida da carboxi-Hb).

Manutenção da função

A contração da ferida — normal na cicatrização — pode virar contratura ao redor de articulações. A imobilização gera rigidez. Previne-se com imobilizadores em posição funcional, elevação, mobilização precoce e enxerto o quanto antes. Vestuário de compressão (até ~12 meses) reduz cicatriz hipertrófica e queloide; protetor solar e hidratantes (lanolina, vitaminas A e D) são essenciais na pele cicatrizada.

13 · Lesões elétricas

O dano que se esconde

A queimadura elétrica é traiçoeira: a lesão visível na pele é a ponta do iceberg. O verdadeiro estrago corre por dentro — músculo, vaso, nervo — no trajeto da corrente.

Corrente elétrica

Dano oculto pela passagem da corrente pelo corpo. A pele pode parecer pouco afetada enquanto há necrose muscular profunda.

Arco elétrico

Altas temperaturas (até 2.500°C). Queima por calor radiante intenso.

Chama

Ignição de roupas pela faísca. Frequentemente graves.

Mecanismo — por que mata

A gravidade depende do trajeto da corrente e da resistência dos tecidos. Trajetos críticos passam por coração (arritmia, FV) e tronco encefálico. A corrente alternada (AC) é especialmente perigosa: provoca contração muscular tetânica que "gruda" a vítima ao condutor (não consegue soltar) e pode levar à parada cardíaca.

Mioglobinúria e rabdomiólise a complicação que mata o rim

A corrente destrói grande massa muscular profunda → libera mioglobina na circulação → urina escura ("cor de coca-cola"). A mioglobina precipita nos túbulos renais e causa insuficiência renal aguda.

Conduta: hidratação intensiva + diuréticos (manter débito urinário alto para "lavar" os túbulos). Lesões de alta voltagem podem exigir fasciotomia (síndrome compartimental pela necrose/edema muscular). Desbridamento de necrose é fundamental — amputações ainda são comuns.

Urina escura no eletrocutado = rabdomiólise → hidratar agressivamente para proteger o rim.
Regra de ouro do trauma elétrico

A área de superfície queimada subestima grosseiramente a lesão real. Use 4 mL/kg/%SCQ em Parkland (não 2), monitorize ritmo cardíaco (ECG/telemetria pelo risco de arritmia), e tenha baixo limiar para fasciotomia. Encaminhe a centro especializado.

14 · Memorial

O suprassumo da revisão

Os pontos de maior rendimento de prova, destilados. Se a véspera for curta, leia só isto.

Resposta metabólica ao trauma

  1. 3 fases: catabólica inicial (glucagon, balanço N negativo) → anabólica inicial (diurese, balanço N positivo) → anabólica tardia (repõe gordura, mais lenta).
  2. Hormônios contrarreguladores (CAGE): Cortisol, Adrenalina, Glucagon, GH. Insulina cai no início.
  3. TNF (caquexina): anorexia, catabolismo, em alta dose → DMOS e óbito. IL-1: baixa dose ajuda imunidade, alta dá febre/hipotensão/proteólise; sinergismo com TNF.
  4. Glutamina cai 80-90% no doente crítico — combustível do intestino e da imunidade. Alanina sobe (precursora de glicose).
  5. Jejum no crítico: máximo 3-4 dias. Nutrição precoce. Analgesia peridural reduz a resposta catabólica.

SIRS / sepse

  1. SIRS = ≥2 de 4: FC>90, FR>20, T>38 ou <36, leucócitos >12mil/<4mil/>10% bastões.
  2. Escada: SIRS + foco (cultura) = sepse → + choque = sepse grave → refratário a volume / precisa de vasoativa = choque séptico.

Cicatrização

  1. 3 fases (I-P-M): Inflamatória (1-4d, plaquetas/neutrófilos) → Proliferativa (5-20d, fibroblasto/granulação/angiogênese) → Maturação (meses, colágeno III→I, força tênsil).
  2. Macrófago = célula-orquestra. Sem ele, a cura trava.
  3. Intenção: 1ª (suturada, sem granulação visível), 2ª (aberta, contração+epitelização), 3ª (fecha tardio após infecção).
  4. Queloide ultrapassa os limites da lesão; hipertrófica respeita os limites.
  5. Favorecem: glutamina, arginina, vitaminas A/C/K, Cu/Zn/Ca. Corticoide crônico atrasa (revertido por vit. A).

Queimaduras

  1. Profundidade: 1º (epiderme), 2º (derme, sup/profundo), 3º (toda pele, indolor, escara).
  2. Regra dos 9 (adulto): cabeça 9, cada braço 9, cada perna 18, tronco ant 18, post 18, genital 1. Palma ≈ 1%.
  3. Parkland: (2-4) × peso × %SCQ de Ringer lactato; metade nas 1ªs 8h da queimadura. Guie pela diurese. Elétrica usa 4 mL.
  4. Sulfadiazina de prata: escolha tópica, leucopenia transitória. Método fechado preferido. Desbridamento precoce salva.
  5. CO: trata com O₂ 100%. Elétrica: mioglobinúria → IRA → hidratar; fasciotomia; amputações comuns.
O doente cirúrgico grave conta a mesma história em quatro capítulos: o trauma acende o metabolismo, a inflamação o mantém aceso, a cicatrização tenta consertar e a queimadura é o extremo de tudo isso somado. Quem entende o fio que liga os quatro, não decora — compreende.

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Esse guia faz parte da biblioteca do MedCaju — questões comentadas, simuladores e mapas mentais de clínica cirúrgica.

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