MedCaju · Farmacologia clínica · Manual de bolso

Opioides
o 80/20 que você nunca pode errar

Da papoula de 3.400 a.C. ao fentanil de 100× a morfina: tudo o que importa de história, mecanismo, prescrição, pegadinhas de prova e armadilhas de plantão — em uma página só.

Leitura · ~25 min Nível · clínico Atualizado · 2026 Foco · prova + prática
01 · Do mito à molécula

A papoula que dorme há 5 mil anos

Antes de existir farmacologia, existia o ópio. A história dos opioides é a história de uma planta — Papaver somniferum — que dominou imperíros, financiou guerras e inventou, sozinha, o conceito moderno de analgesia.

CÁPSULA · LÁTEX → ÓPIO PAPAVER SOMNIFERUM
Fig. 1 — A papoula-do-ópio. O látex leitoso da cápsula imatura contém ~10% de morfina, 0,5% de codeína e tebaína (precursora da oxicodona).
3.400 a.C.
Suméria — a "planta da alegria"

Tabuletas cuneiformes descrevem o cultivo de Hul Gil na Mesopotâmia. O ópio já era usado para dor, diarreia e tosse — exatamente os três usos clínicos que sobrevivem até hoje.

1525
Paracelso e o láudano

Tintura alcoólica de ópio que virou panaceia europeia. Prescrita para crianças, parturientes, deprimidos e moribundos. Revolução analgésica e desastre de saúde pública simultâneos.

1804
Friedrich Sertürner isola a morfina

Aos 21 anos, o farmacêutico alemão purifica o primeiro alcaloide da história e o batiza em homenagem a Morfeu, deus dos sonhos. Nasce a farmacologia moderna.

1853
A seringa hipodérmica

Alexander Wood inventa a injeção. A morfina ganha veia. A Guerra Civil Americana cria a primeira epidemia de dependência iatrogênica — chamada na época de "doença do soldado".

1898
Bayer lança a heroína

Sintetizada por acetilação da morfina, foi vendida sem receita como antitussígeno e — ironia trágica — como tratamento para dependência de morfina. Mais lipofílica, atravessa a barreira hematoencefálica em segundos.

1973
Pert e Snyder identificam o receptor opioide

Pela primeira vez se entende onde a morfina age. Em 1975, descobrem-se as encefalinas — opioides endógenos. A dor finalmente tem uma biologia.

1996
OxyContin e a crise dos opioides

A Purdue Pharma lança a oxicodona de liberação prolongada com a alegação fraudulenta de "baixo potencial de dependência". Em 2017, mais de 47 mil norte-americanos morrem de overdose por opioides em um único ano.

Hoje
Era do fentanil ilícito

Sintético, 100× mais potente que a morfina, barato de produzir e adulterado em pó branco vendido nas ruas. É a principal causa de morte por overdose nos EUA atualmente. A história fechou um ciclo: voltamos ao perigo da dose imprevisível.

Por que isso cai em prova?

Sertürner (1804), morfina, Morfeu e a Guerra Civil Americana são pegadinhas clássicas em provas de história da medicina e farmacologia. Decore o nome e o ano — só isso.

02 · Vocabulário

Ópio, opiáceo, opioide — não é a mesma coisa

A confusão começa no nome. Em prova, errar essa distinção é cair na primeira armadilha. Decore agora e nunca mais.

TermoDefinição estritaExemplos
Ópio Látex bruto da cápsula imatura da Papaver somniferum. Mistura natural com >40 alcaloides. Goma de ópio, láudano
Opiáceo Substância natural derivada diretamente do ópio. Morfina, codeína, tebaína, papaverina
Opioide Termo amplo: qualquer substância (natural, semi ou totalmente sintética) que atua nos receptores opioides. Tudo: morfina, fentanil, tramadol, endorfinas
Endorfina Opioide endógeno produzido pelo próprio corpo. β-endorfina, encefalinas, dinorfinas
Narcótico Termo jurídico/policial, não farmacológico. Inclui opioides, mas também cocaína, maconha. Evite em contexto clínico.
Pegadinha #1

"Heroína é um opiáceo." Errado. Heroína (diacetilmorfina) é semissintética — derivada da morfina por acetilação química. Logo é opioide, mas não opiáceo puro. O mesmo vale para oxicodona, hidromorfona e buprenorfina.

03 · Mecanismo de ação

Os três receptores que governam a dor

Todo opioide do mundo, do mais arcaico ao mais sintético, faz uma coisa só: acopla a um receptor metabotrópico ligado à proteína Gi/Go. O resto da história é localização anatômica e seletividade.

A cascata, em 5 passos

PRÉ-SINÁPTICO GLUT/SP PÓS-SINÁPTICO μ opioide Gi ↓ AMPc K⁺ SAI ↑ Ca²⁺ FECHA ↓ neurotransmissor → ↓ DOR HIPERPOLARIZAÇÃO + INIBIÇÃO PRÉ-SINÁPTICA
Fig. 2 — Sinapse opioide. O agonista μ ativa proteína Gi → ↓ AMPc, abre canais de K⁺ (saída → hiperpolarização) e fecha canais de Ca²⁺ (↓ liberação de glutamato/substância P). Resultado: a dor não passa.

Os três receptores: μ, κ, δ

São codificados por genes distintos (OPRM1, OPRK1, OPRD1), mas compartilham a mesma maquinaria intracelular. A diferença está na localização e nos efeitos colaterais.

μ (mu)
SNC · medula · trato GI
  • Analgesia supraespinhal
  • Euforia
  • Depressão respiratória
  • Miose
  • Constipação
  • Dependência física
κ (kappa)
medula · estriado · hipotálamo
  • Analgesia espinhal
  • Disforia (oposto da euforia)
  • Sedação
  • Miose discreta
  • Diurese
  • Pouca depressão respiratória
δ (delta)
SNC difuso · sistema límbico
  • Modulação da dor crônica
  • Modulação afetiva
  • Pode causar convulsão em altas doses
  • Ainda pouco explorado clinicamente
Mnemônico MedCaju

"MED·KAS·DEL" — qual faz o quê?

Mμ = Morfina-padrão, Miose, Música boa (euforia), Motilidade ↓ (constipa), Morte respiratória. Kκ = Kaiporismo (disforia), eKspinhal (analgesia espinhal), Katurin (diurese ↑). Dδ = Dor crônica + Depressão (modulação afetiva). Pouco usado no dia a dia.

A grande maioria dos opioides clínicos é agonista μ. Quando você decora morfina, decora 80% da farmacologia.

04 · Taxonomia funcional

As quatro classes que organizam tudo

Não é por estrutura química, é por como interage com o receptor. Esta é a classificação que cai em prova e que você usa no plantão.

Agonistas puros

Ligam-se ao μ e ativam totalmente. Sem teto analgésico — mais dose, mais efeito (e mais risco). Morfina, fentanil, oxicodona, codeína, tramadol, metadona.

Agonistas parciais

Ligam-se ao μ mas ativam só parcialmente. Têm teto analgésico — chega num platô. Útil em manejo de dependência. Buprenorfina.

Agonistas-antagonistas mistos

Agonistas em κ, antagonistas (ou agonistas parciais) em μ. Causam disforia, têm teto. Nalbufina, butorfanol, pentazocina.

Antagonistas puros

Bloqueiam o receptor sem ativar. Salvam vidas em overdose. Naloxona (IV/IM, ação rápida) e naltrexona (VO, ação prolongada — para dependência).

Cuidado clínico

Nunca administre naloxona em paciente cronicamente dependente de opioide sem necessidade absoluta — você precipita uma síndrome de abstinência aguda e dramática. Em overdose, titule pequenas doses (0,04-0,4 mg) até reverter a depressão respiratória, não a consciência.

05 · Os opioides que você precisa conhecer

Os sete que respondem 90% das provas

Existem mais de 30 opioides em uso clínico. Você não precisa de todos. Domine estes sete e as bordas se preenchem sozinhas.

FármacoPotência (vs morfina IV)Início / DuraçãoParticularidades
Morfina (referência) 15-30 min / 3-4 h Padrão-ouro. Metabólito ativo M6G acumula em IRC. Libera histamina (prurido, hipotensão).
Codeína 0,1× ("morfina fraca") 30-60 min / 4-6 h Pró-fármaco — só vira morfina via CYP2D6. 10% da população é "metabolizador lento" e não sente analgesia. Antitussígeno clássico.
Tramadol 0,1× (fraco) 30-60 min / 4-6 h Atípico: agonista μ + inibidor da recaptação de serotonina/noradrenalina. Risco de convulsão e síndrome serotoninérgica com ISRS.
Oxicodona 1,5× 10-30 min / 4-6 h (LP: 12 h) VO potente. Sem M6G. Versão LP (OxyContin) foi o estopim da crise dos opioides.
Metadona variável (~3-4× em uso crônico) 30 min / 15-60 h Meia-vida longa e imprevisível. Risco de acúmulo. Prolonga QT. Antagonista NMDA — útil em dor neuropática e desmame.
Fentanil 100× 1-2 min IV / 30-60 min Lipofílico extremo — atravessa BHE rápido. Adesivo dura 72 h. Tórax rígido em bólus rápido. Sem liberação histamínica → bom em hemodinâmico instável.
Naloxona antagonista puro 1-2 min IV / 30-90 min Salva-vidas em overdose. Meia-vida mais curta que a maioria dos opioides → o paciente pode "re-narcotizar". Sempre observar 4-6 h após reversão.
Regra de bolso

10 mg morfina IV ≈ 100 mg morfina VO ≈ 100 µg fentanil IV ≈ 7 mg oxicodona VO ≈ 100 mg tramadol IV. Decore essa linha — é a base da equianalgesia.

Pegadinhas farmacocinéticas que reprovam

06 · Efeitos clínicos

Um efeito desejado, nove indesejados

A analgesia opioide é robusta — mas vem acompanhada. Saber prever o efeito adverso é mais útil que saber tratá-lo.

O que o opioide faz de bom

Os efeitos adversos — todos previsíveis

SistemaEfeitoO que fazer
RespiratórioDepressão respiratória (↓ resposta ao CO₂)Causa #1 de morte. Monitorar FR. Naloxona em emergência.
SNCSedação, mioclonias, deliriumReduzir dose, rotacionar opioide.
OlhoMiose puntiformeSinal cardinal de uso. Não desenvolve tolerância.
GIConstipação (quase 100%)Profilaxia desde o dia 1: laxante osmótico + estimulante. Sem tolerância.
GINáusea / vômito (30-50% inicial)Antiemético nos primeiros dias. Tolerância em 1 semana.
UrinárioRetenção urináriaCuidado em HPB e pós-operatório.
CardiovascularHipotensão, bradicardia (vasodilatação)Morfina libera histamina; fentanil é mais "limpo".
PelePrurido (especialmente neuroaxial)Não é alergia — é liberação de histamina. Anti-histamínico ajuda.
Endócrino↓ GnRH → hipogonadismo, ↓ libidoSubdiagnosticado em uso crônico.
ImuneImunossupressão leve em uso crônicoRelevante em oncologia.
Mnemônico clássico

Tríade do opioide: M·D·D

MMiose puntiforme — pupila do tamanho de cabeça de alfinete. DDepressão respiratória — FR < 12, padrão Cheyne-Stokes. DDiminuição do nível de consciência — sonolência, coma.
Tolerância seletiva

Desenvolve-se tolerância rápida a: analgesia, euforia, sedação, depressão respiratória, náusea. Não desenvolve tolerância a: miose e constipação. Por isso o paciente crônico tem pupilas pequenas e intestino preso para sempre — mas precisa de doses cada vez maiores para a mesma analgesia.

07 · Como prescrever

A escala da dor da OMS — o seu mapa

Criada nos anos 80 para câncer, hoje é o esqueleto de qualquer prescrição racional de analgésicos. Três degraus, uma lógica.

DEGRAU 1 DOR LEVE EVA 1-3 DEGRAU 2 DOR MODERADA EVA 4-6 + opioide fraco codeína · tramadol DEGRAU 3 DOR INTENSA EVA 7-10 + opioide forte morfina · fentanil oxicodona · metadona BASE EM TODOS OS DEGRAUS: AINE / paracetamol + adjuvantes (antidepressivo, anticonvulsivante, corticoide) SUBIR DEGRAU SE FALHA
Fig. 3 — Escada analgésica da OMS. Sobe-se um degrau quando o anterior não controla a dor. AINE/paracetamol e adjuvantes são mantidos em todos os níveis.

Princípios da prescrição racional

Dor neuropática — a exceção

Opioides funcionam mal em dor neuropática pura (queimação, parestesia, choque). Aqui o melhor é começar por antidepressivo tricíclico (amitriptilina), duais (duloxetina) ou gabapentinoides (gabapentina, pregabalina). Se precisar de opioide, prefira metadona (antagonismo NMDA) ou tramadol (efeito monoaminérgico).

Cuidados paliativos

Em paciente terminal com dispneia, baixas doses de morfina (2-5 mg VO) aliviam a sensação de falta de ar sem encurtar a vida — o oposto do que se ensinava antes. É medicina baseada em evidência, não eutanásia disfarçada.

08 · Conversão entre opioides

Equianalgesia — a tabela de conversão

Quando você troca um opioide por outro (rotação) ou muda a via, precisa converter. Eis a tabela mínima para sobreviver à prova e ao plantão.

FármacoDose IV/SCDose VORazão VO:IV
Morfina10 mg30 mg3 : 1
Codeína200 mg
Tramadol100 mg120 mg1,2 : 1
Oxicodona20 mg
Hidromorfona1,5 mg7,5 mg5 : 1
Metadonavariável (consultar tabela específica)
Fentanil0,1 mg (100 µg)
Fentanil TD25 µg/h ≈ 60 mg morfina VO/dia
Regra dos 25%

Ao rotacionar opioides, calcule a dose equianalgésica e reduza 25-50% — porque há tolerância cruzada incompleta. Depois titule. Esquecer essa redução é a forma mais clássica de causar superdosagem iatrogênica.

Exemplo prático

Paciente em morfina 60 mg VO/dia com efeitos colaterais. Quero rotacionar para oxicodona VO.

  1. 60 mg morfina VO = 40 mg oxicodona VO (proporção 30:20).
  2. Reduzo 30%: 40 × 0,7 = 28 mg/dia.
  3. Divido em 2 doses (LP): 15 mg de 12/12 h.
  4. Mantenho dose de resgate (10-15% da diária total) com morfina VO simples.
09 · Emergência

Intoxicação aguda — a tríade que salva vidas

Você está no plantão. Paciente jovem, encontrado caído na rua. O que fazer nos primeiros 30 segundos define se ele vai para casa ou para o necrotério.

Sinais cardinais

1. Miose puntiforme bilateral.
2. Depressão respiratória (FR < 12, apneia).
3. Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow ↓).

Conduta — em 5 passos

1. ABCD — vias aéreas, ventilação com bolsa-máscara.
2. Naloxona 0,04-0,4 mg IV/IM, repetir a cada 2-3 min.
3. Reverter FR, não consciência.
4. Observar 4-6 h (renarcotização).
5. Investigar coingestão (álcool, BZD).

Não erre isto

A naloxona tem meia-vida curta (30-90 min), enquanto a maioria dos opioides — especialmente metadona, fentanil em adesivo e LP — duram muito mais. O paciente acorda, parece bem, e volta a parar de respirar 1 hora depois. Sempre observar 4-6 horas mínimas após reversão. Em intoxicação por metadona, considere infusão contínua.

Diagnóstico diferencial da pupila puntiforme

Miose extrema acontece em: opioides, organofosforados, clonidina, hemorragia pontina, pilocarpina (colírio). A presença concomitante de depressão respiratória e bradicardia direciona para opioide; sialorreia, broncorreia e fasciculações apontam para organofosforado.

10 · O outro lado

Abstinência — o oposto exato

Toda síndrome de abstinência opioide é, anatomicamente, o espelho da intoxicação. Onde a intoxicação inibe, a abstinência hiperestimula.

Intoxicação

Miose · Depressão respiratória · Sonolência · Hipotensão · Constipação · Pele seca · Bradicardia · Euforia

Abstinência

Midríase · Bocejos · Insônia · Hipertensão · Diarreia · Sudorese · Taquicardia · Disforia · Lacrimejamento · Rinorreia · Piloereção · Mialgia · Cólica

Cronologia

Diferentemente da abstinência alcoólica ou de benzodiazepínicos, a abstinência opioide raramente é letal por si só em adulto saudável — é horrivelmente desconfortável, mas não mata. Em recém-nascido (síndrome de abstinência neonatal), a história é outra: pode ser fatal.

Tratamento

11 · Armadilhas

10 pegadinhas que reprovam aluno bom

Fora dos compêndios e dos protocolos, existem detalhes traiçoeiros que matam questões boas. Estes são os mais frequentes.

#1 — Codeína em criança NUNCA

A FDA contraindica codeína em < 12 anos e na amamentação por causa do CYP2D6: metabolizadores ultrarrápidos convertem codeína em morfina em quantidade que pode ser letal para o bebê.

Em pediatria: paracetamol, ibuprofeno, dipirona. Se opioide for necessário, morfina titulada.
#2 — Tramadol não é "opioide leve e seguro" SUBESTIMADO

Causa convulsão (especialmente em IR, epilépticos e altas doses) e síndrome serotoninérgica com ISRS, IMAO ou triptanos. Tem dose-teto e potencial de dependência.

Não combine com ISRS sem necessidade. Cuidado em idosos e nefropatas.
#3 — Meperidina foi banida por bons motivos EVITAR

Metabólito normeperidina é neurotóxico e proconvulsivante. Acumula em IR e idoso. Foi um dos opioides mais usados — hoje, retirado de praticamente todos os protocolos modernos.

Não prescreva. Período. Use morfina ou fentanil no lugar.
#4 — Metadona prolonga QT ECG ANTES E DURANTE

É um dos opioides mais úteis em dor crônica e no manejo da dependência, mas exige ECG basal e seguimento. Combinação com macrolídeos, antifúngicos azólicos ou hipocalemia → risco de Torsades.

Sempre avalie QTc antes de iniciar e após titulação.
#5 — Morfina libera histamina NÃO É ALERGIA

Prurido pós-morfina IV é farmacológico, não imunológico. Não significa alergia — significa histamina. Trate com anti-histamínico ou rotacione para fentanil (não libera histamina).

"Alergia à morfina" no prontuário é raríssima de verdade. Investigue antes de aceitar.
#6 — Fentanil em bólus rápido = tórax rígido EMERGÊNCIA

Doses altas IV em segundos podem causar rigidez muscular torácica que impede a ventilação. Acontece especialmente em indução anestésica. Tratamento: bloqueador neuromuscular + IOT.

Sempre administrar fentanil em ≥ 30 segundos.
#7 — Tolerância ≠ dependência ≠ vício VOCABULÁRIO

Tolerância: precisa de mais dose para mesmo efeito. Dependência física: tem abstinência se interromper. Vício (transtorno por uso): comportamento compulsivo apesar do dano. Os dois primeiros são esperados em uso crônico — não significam que o paciente é "viciado".

Paciente oncológico em morfina há 6 meses tem tolerância e dependência física, e isso é normal.
#8 — Adesivo de fentanil não é dor aguda NUNCA

Demora 12-24 h para atingir nível analgésico e mais 12 h para zerar após retirada. Só usar em paciente com dor crônica estável e já tolerante a opioide.

Pós-operatório imediato com adesivo é receita de overdose.
#9 — Naloxona pode renarcotizar OBSERVAR 4-6 h

Já dito acima e vai cair de novo: meia-vida da naloxona < meia-vida do opioide na maioria dos casos. Paciente "acordou bem" e foi para casa = paciente que pode parar de respirar em casa.

Observação mínima de 4-6 h após reversão. Em metadona/fentanil LP, internação.
#10 — Constipação não desenvolve tolerância PROFILAXIA SEMPRE

Você fica imune ao prurido, à náusea, à sedação — mas não à constipação. Paciente em opioide crônico que não recebe laxante terá fecaloma. Prescrição: laxante osmótico (lactulose, PEG) + estimulante (bisacodil, sene).

Em paciente refratário, considere metilnaltrexona ou naloxegol (antagonistas periféricos).
12 · Memorial

O suprassumo — 15 mandamentos

Se você esquecer tudo o resto deste guia, leve estes quinze. É a destilação final, a régua que separa o aluno bom do médico bom.

  1. Opióide é o termo amplo; opiáceo só os naturais. Heroína é semissintética, não opiácea.
  2. Todos os opioides clínicos atuam no receptor μ (Gi/Go) → ↑ K⁺ sai, ↓ Ca²⁺ entra → ↓ glutamato/SP.
  3. Tríade da intoxicação: miose + depressão respiratória + rebaixamento. Pupila puntiforme + FR < 12 = naloxona.
  4. Naloxona reverte, mas dura menos. Sempre observe 4-6 h. Em metadona/fentanil LP, mais.
  5. Profilaxia de constipação desde o dia 1. Não desenvolve tolerância. Não há exceção.
  6. Codeína precisa de CYP2D6. 10% da população não metaboliza → não sente analgesia. Crianças e amamentação: nunca.
  7. Morfina em IRC = perigo. Acumula M6G/M3G. Use fentanil ou metadona.
  8. Tramadol convulsiona e serotoniniza. Cuidado com ISRS, IMAO, dose alta, IR.
  9. Metadona prolonga QT. ECG basal sempre. Meia-vida imprevisível, longa.
  10. Fentanil em bólus rápido → tórax rígido. Administrar em ≥ 30 s.
  11. Adesivo de fentanil só em dor crônica estável e tolerante. Nunca em dor aguda.
  12. Tolerância seletiva: some no efeito; permanece em miose e constipação.
  13. Equianalgesia básica: 10 mg morfina IV = 30 mg morfina VO = 100 µg fentanil = 7 mg oxicodona VO.
  14. Ao rotacionar opioides: calcular equianalgésico e reduzir 25-50% (tolerância cruzada incompleta).
  15. Abstinência opioide é o oposto da intoxicação: midríase, hipertensão, diarreia, sudorese. Desconfortável, mas raramente letal em adulto.
A diferença entre um veneno e um remédio é a dose. Em opioides, é também a hora de prescrever, o paciente certo, e a paciência de titular. Tudo o resto é detalhe.

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Esse guia faz parte da biblioteca clínica do MedCaju — questões comentadas, simuladores, mapas mentais e materiais de bolso pensados para residência.

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