O eixo hipotálamo-hipófise-tireoide
A tireoide secreta T4 (tiroxina), T3 (tri-iodotironina) e calcitonina. Quando a professora fala "hormônio tireoidiano", está se referindo a T3 e T4. A calcitonina entra em outro contexto.
A síntese de T3 e T4 depende da absorção de iodeto do plasma pelas células foliculares da tireoide. O iodeto entra com ajuda de um cotransportador chamado NIS (proteína transportadora) e é levado até a luz do folículo pela pendrina.
Frio extremo, trauma e estresse também estimulam o hipotálamo, aumentando a produção.
T3 e T4 — diferenças que caem na prova
| Característica | T4 (Tiroxina) | T3 (Tri-iodotironina) |
|---|---|---|
| Atividade | Pró-hormônio (reserva) | 5x mais ativo que o T4 |
| Concentração | Alta no sangue | Baixa no sangue |
| Meia vida | Longa (3-4 dias; 9-10 dias no hipo) | Curta (decai rapidamente) |
| Ligação a TBG | Forte — protege e prolonga meia vida | Fraca |
| Perfil plasmático | Platô — curva sustentada | Pico rápido e queda |
| Uso clínico | 1ª linha hipotireoidismo | Reservado p/ emergência |
O T4 age como pró-hormônio sistêmico. Após absorção, o fígado e os rins convertem T4 em T3 (mais ativo) de forma gradual. Isso gera um perfil em platô, com resposta mais estável, segura e controlada.
O T3 sintético faz um pico rápido e cai. Em farmacologia, platô é sempre preferível a pico quando se quer segurança terapêutica. Por isso o T3 é reservado para coma mixedematoso (emergência grave) em dose EV.
TBG é a Thyroxine-Binding Globulin, a proteína de transporte dos hormônios tireoidianos. O T4 se liga fortemente a ela. Essa ligação protege o hormônio de ser eliminado precocemente e explica a meia vida longa do T4.
O hormônio precisa estar livre para agir. Enquanto ligado à TBG, ele circula mas não atua, o que contribui para a ação mais gradual e sustentada.
Hipotireoidismo e Hipertireoidismo
Levotiroxina (T4 sintético)
É o T4 sintético. Age como pró-hormônio, é convertida em T3 no fígado e nos rins de forma gradual, gerando um perfil em platô no plasma. Isso garante estabilidade, sem os picos e quedas do T3.
É barata, disponível no SUS e na forma sintética (molécula química, não biotecnológica). Dose inicial comum em torno de 50 mcg, com ajuste para 75-100 mcg conforme exames de seguimento.
O monitoramento é feito com TSH + T3 + T4 nos retornos.
Reservado para coma mixedematoso em ambiente de emergência, via EV. Faz pico plasmático rápido, o que é útil na urgência, mas inviável para uso crônico.
Na prática de ambulatório, internato, UBS: levotiroxina (T4) em 100% dos casos de hipotireoidismo crônico.
Tioureias, iodo e adjuvantes
Como cada fármaco age na célula folicular
A TPO (tireoperoxidase) é uma enzima que catalisa a oxidação do iodeto e sua incorporação nas moléculas precursoras de T3 e T4. Sem a TPO funcionando, o iodo não entra na rota de síntese hormonal.
PTU e Metimazol atuam como inibidores competitivos da TPO: ocupam o sítio ativo da enzima no lugar do substrato fisiológico, bloqueando a catálise e consequentemente a síntese de novos hormônios.
O PTU também bloqueia a conversão periférica de T4 em T3, o que o diferencia do Metimazol.
O iodo radioativo (¹³¹I) é captado pelas células foliculares da tireoide pelo mesmo mecanismo do iodo comum (via NIS). Uma vez dentro da célula, emite radiação beta que destrói essas células.
Resultado: redução permanente da glândula e da produção hormonal. O risco é evoluir para hipotireoidismo após o tratamento, o que pode exigir reposição com levotiroxina.
Paradoxo do iodo: em doses fisiológicas, o iodeto é necessário para síntese de T3/T4. Em excesso farmacológico, ocorre o oposto: a tireoide é modulada negativamente e reduz a liberação hormonal (efeito Wolff-Chaikoff).
No pré-operatório de tireoidectomia, esse efeito é utilizado para firmar a glândula e reduzir a vascularização, diminuindo o risco hemorrágico cirúrgico.
O propranolol não age na tireoide. Ele aparece porque o hipertireoidismo hiperativa o sistema adrenérgico, gerando taquicardia, sudorese, tremor e agitação.
O bloqueio beta-adrenérgico do propranolol controla esses sintomas enquanto as tioureias reduzem a produção hormonal. Adjuvante, não antitiroidiano.
O que a professora quer na prova
- Etiologia mais comum: Tireoidite de Hashimoto
- Tratamento 1ª linha: levotiroxina (T4 sintético)
- T4 é pró-hormônio, convertido em T3 no fígado/rins
- Perfil em platô — mais seguro que pico do T3
- Jejum: tomar o medicamento e esperar 30-60 min para comer
- T3 EV apenas para coma mixedematoso (emergência)
- Monitoramento: TSH + T3 + T4 nos retornos
- Causa mais comum: Doença de Graves (autoimune)
- Tratamento 1ª linha no Brasil: PTU ou Metimazol (tioureias)
- Mecanismo das tioureias: inibição competitiva da TPO
- PTU também inibe conversão periférica T4 → T3
- Propranolol: adjuvante para sintomas cardiovasculares
- Glicocorticoide: adjuvante para exoftalmia grave (Graves)
- Iodo Radioativo: 1ª linha nos EUA; no Brasil, câncer de tireoide
- Iodo de Lugol: pré-operatório de tireoidectomia
- Tireotoxicose = hipertireoidismo (tóxico/elevado)
- Mixedema = hipotireoidismo (espessamento da pele)
- T4 = reserva / pró-hormônio (platô)
- T3 = ativo, mas meia vida curta (pico e queda)
- Repor T4, não T3, no hipotireoidismo crônico
| Fármaco | Indicação | Mecanismo |
|---|---|---|
| Levotiroxina | Hipo · 1ª linha | Reposição de T4 (convertido em T3) |
| PTU | Hiper · gestação | Inibe TPO + inibe conversão T4→T3 |
| Metimazol | Hiper · padrão BR | Inibe TPO (inibição competitiva) |
| Iodo de Lugol | Pré-op · crise | Excesso de iodo inibe liberação hormonal |
| Iodo Radioativo | Hiper (EUA) · câncer | Destrói células foliculares por radiação |
| Propranolol | Adjuvante (Hiper) | Bloqueia sintomas adrenérgicos |
| Glicocorticoide | Adjuvante (Graves) | Antiinflamatório para exoftalmia |
| T3 EV (liotironina) | Coma mixedematoso | Reposição direta do hormônio ativo |