Farmacologia · Endocrinologia

Tireoide,
T3, T4 e
seus fármacos

Da fisiologia do eixo hipotálamo-hipófise-tireoide ao tratamento do hiper e hipotireoidismo, com o que a professora destacou para a prova.

T3 · T4 · TSH Levotiroxina PTU · Metimazol Iodo Radioativo Propranolol Hipotireoidismo Hipertireoidismo

O eixo hipotálamo-hipófise-tireoide

Os três hormônios da tireoide

A tireoide secreta T4 (tiroxina), T3 (tri-iodotironina) e calcitonina. Quando a professora fala "hormônio tireoidiano", está se referindo a T3 e T4. A calcitonina entra em outro contexto.

A síntese de T3 e T4 depende da absorção de iodeto do plasma pelas células foliculares da tireoide. O iodeto entra com ajuda de um cotransportador chamado NIS (proteína transportadora) e é levado até a luz do folículo pela pendrina.

Regulação do eixo
Hipotálamo · TRH
estimula ↓
Hipófise Anterior · TSH
estimula ↓
Tireoide · T3 e T4
← feedback negativo do T3 inibe hipófise e hipotálamo

Frio extremo, trauma e estresse também estimulam o hipotálamo, aumentando a produção.

Regulação negativa extra
Além do T3, dois outros fatores inibem a tireoide: excesso de iodeto e os gliconatos (substâncias que bloqueiam a síntese). Importante para entender o mecanismo de alguns medicamentos.
Por que pedir TSH junto com T3 e T4?
Porque a avaliação completa exige ver o eixo. TSH baixo + T4 alto = hipertireoidismo. TSH alto + T4 baixo = hipotireoidismo. Avaliar só T3/T4 sem o TSH deixa a análise incompleta.
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Questões de eixo hipotálamo-hipófise-tireoide
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T3 e T4 — diferenças que caem na prova

⚡ Comparação direta cai na prova
Característica T4 (Tiroxina) T3 (Tri-iodotironina)
Atividade Pró-hormônio (reserva) 5x mais ativo que o T4
Concentração Alta no sangue Baixa no sangue
Meia vida Longa (3-4 dias; 9-10 dias no hipo) Curta (decai rapidamente)
Ligação a TBG Forte — protege e prolonga meia vida Fraca
Perfil plasmático Platô — curva sustentada Pico rápido e queda
Uso clínico 1ª linha hipotireoidismo Reservado p/ emergência
Por que repor T4 e não T3?

O T4 age como pró-hormônio sistêmico. Após absorção, o fígado e os rins convertem T4 em T3 (mais ativo) de forma gradual. Isso gera um perfil em platô, com resposta mais estável, segura e controlada.

O T3 sintético faz um pico rápido e cai. Em farmacologia, platô é sempre preferível a pico quando se quer segurança terapêutica. Por isso o T3 é reservado para coma mixedematoso (emergência grave) em dose EV.

O que é a TBG?

TBG é a Thyroxine-Binding Globulin, a proteína de transporte dos hormônios tireoidianos. O T4 se liga fortemente a ela. Essa ligação protege o hormônio de ser eliminado precocemente e explica a meia vida longa do T4.

O hormônio precisa estar livre para agir. Enquanto ligado à TBG, ele circula mas não atua, o que contribui para a ação mais gradual e sustentada.

Ação principal dos hormônios tireoidianos
T3 e T4 atuam em receptores nucleares, alterando a transcrição gênica e acelerando o metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas. Aumentam consumo de O₂ e produção de calor. Modulam outros hormônios: insulina, glucagon, catecolaminas, GH. São essenciais para crescimento, maturação do SNC e desenvolvimento ósseo.

Hipotireoidismo e Hipertireoidismo

Hipotireoidismo
mixedema · atividade reduzida
Etiologia principalTireoidite de Hashimoto
Bradicardia
Ganho de peso
Letargia
Intolerância ao frio
Voz rouca✓ (edema)
PeleEspessamento (mixedema)
Congênito1 : 3.000-4.000 nascidos
Tto principalLevotiroxina (T4)
Hipertireoidismo
tireotoxicose · atividade elevada
Etiologia principalDoença de Graves
Taquicardia / FA
Perda de peso
Sudorese / calor
Apetite elevado
Exoftalmia✓ (Graves)
Bócio tóxico nodular2ª causa
Tto principalTioureias (PTU/Metimazol)
Mnemônico fácil da professora
Tireotoxicose = hiper (tira de tireoide + toxicose = tóxico/elevado). Mixedema = hipo (espessamento da pele por depósito de mucopolissacarídeos).
Bócio e iodo
O bócio simples pode ocorrer por deficiência de iodo. A tireoide aumenta de tamanho tentando compensar a falta de matéria-prima para sintetizar hormônios. Por isso o sal de cozinha no Brasil é iodado, é política pública de saúde para prevenir bócio endêmico.
Hipotireoidismo congênito
Afeta crescimento e desenvolvimento do SNC se não tratado precocemente. O diagnóstico é feito na triagem neonatal (teste do pezinho). Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o prognóstico neurológico.
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Questões de hipotireoidismo e hipertireoidismo
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Levotiroxina (T4 sintético)

⚡ Ponto mais cobrado da aula — saber de cor
Por que a levotiroxina é padrão-ouro?

É o T4 sintético. Age como pró-hormônio, é convertida em T3 no fígado e nos rins de forma gradual, gerando um perfil em platô no plasma. Isso garante estabilidade, sem os picos e quedas do T3.

É barata, disponível no SUS e na forma sintética (molécula química, não biotecnológica). Dose inicial comum em torno de 50 mcg, com ajuste para 75-100 mcg conforme exames de seguimento.

O monitoramento é feito com TSH + T3 + T4 nos retornos.

Ponto crítico — jejum na tomada
A absorção da levotiroxina cai mais da metade se tomada junto com alimento. O paciente precisa tomar o medicamento e esperar no mínimo 30 a 60 minutos antes de se alimentar. Esse é o motivo mais comum de "refratariedade" ao tratamento, quando o paciente está tomando mas o exame ainda vem alterado.
Como perguntar sobre a tomada correta
Em vez de "a senhora tá tomando direitinho?", perguntar "como você toma esse medicamento, me descreve o que faz de manhã". Pacientes que tomam e já comem logo em seguida entendem que estão fazendo jejum, mas não estão. O feedback de confirmação é essencial.
Hipotireoidismo na gestação
O hipotireoidismo subclínico é frequente na gravidez. O tratamento com levotiroxina é indicado. Após o parto, muitas pacientes podem suspender e fazer nova avaliação, já que a disfunção pode ser transitória (relacionada às mudanças hormonais da gestação).
E o T3 sintético (liotironina)?

Reservado para coma mixedematoso em ambiente de emergência, via EV. Faz pico plasmático rápido, o que é útil na urgência, mas inviável para uso crônico.

Na prática de ambulatório, internato, UBS: levotiroxina (T4) em 100% dos casos de hipotireoidismo crônico.

Tioureias, iodo e adjuvantes

PTU
propiltiouracil · tioureia
MecanismoInibe TPO + inibe conversão T4→T3
IndicaçãoHipertireoidismo (Graves)
PreferênciaGestação (1º trimestre)
ViaOral
Metimazol
carbimazol · tioureia
MecanismoInibe TPO (bloqueio enzimático)
IndicaçãoHipertireoidismo (Graves)
ObservaçãoMais usado no Brasil
ViaOral
Iodo de Lugol
iodeto em excesso
MecanismoInibe liberação hormonal (excesso modula ↓)
IndicaçãoPré-operatório de tireoidectomia
Efeito cirúrgicoReduz vascularização e tamanho da glândula
ExtraCrise tireotóxica
Iodo Radioativo (¹³¹I)
radioiodoterapia
MecanismoDestruição das células foliculares
Indicação1ª linha nos EUA / câncer de tireoide no Brasil
RiscoHipotireoidismo pós-tratamento
CaptaçãoPelas células foliculares da tireoide
Propranolol
betabloqueador · adjuvante
MecanismoBloqueio beta-adrenérgico
FunçãoControle sintomático (NÃO é antitiroidiano)
ControlaTaquicardia, sudorese, tremor
ClassificaçãoAdjuvante
Glicocorticoide
adjuvante · Graves
FunçãoAntiinflamatório para exoftalmia grave
IndicaçãoProtusão ocular anômala (doença de Graves)
ClassificaçãoAdjuvante
O que é o principal e o que é adjuvante
Principais: PTU e Metimazol (tioureias). São eles que tratam o hipertireoidismo de fato. Adjuvantes: Propranolol (controla sintomas cardiovasculares) e Glicocorticoide (controla exoftalmia). Não alteram a produção hormonal.
Iodo Radioativo no Brasil vs. EUA
Nos EUA é a terapia de primeira linha para hipertireoidismo. No Brasil, o padrão são as tioureias (PTU/Metimazol). O iodo radioativo no Brasil é mais usado para diagnóstico e tratamento de câncer de tireoide.
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Questões sobre fármacos tireoidianos
Mecanismos de ação, indicações e interações. Questões comentadas com raciocínio clínico detalhado.
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Como cada fármaco age na célula folicular

⚡ Mecanismo das tioureias cai muito em prova
PTU e Metimazol — inibição da TPO

A TPO (tireoperoxidase) é uma enzima que catalisa a oxidação do iodeto e sua incorporação nas moléculas precursoras de T3 e T4. Sem a TPO funcionando, o iodo não entra na rota de síntese hormonal.

PTU e Metimazol atuam como inibidores competitivos da TPO: ocupam o sítio ativo da enzima no lugar do substrato fisiológico, bloqueando a catálise e consequentemente a síntese de novos hormônios.

Cascata da síntese hormonal e ponto de bloqueio
Iodeto (plasma)
→ NIS →
Célula folicular
TPO
T3 + T4
PTU / Metimazol
bloqueiam ↑
TPO
T3 + T4 ↓

O PTU também bloqueia a conversão periférica de T4 em T3, o que o diferencia do Metimazol.

Iodo Radioativo — destruição tecidual seletiva

O iodo radioativo (¹³¹I) é captado pelas células foliculares da tireoide pelo mesmo mecanismo do iodo comum (via NIS). Uma vez dentro da célula, emite radiação beta que destrói essas células.

Resultado: redução permanente da glândula e da produção hormonal. O risco é evoluir para hipotireoidismo após o tratamento, o que pode exigir reposição com levotiroxina.

Iodo de Lugol — excesso inibe a tireoide

Paradoxo do iodo: em doses fisiológicas, o iodeto é necessário para síntese de T3/T4. Em excesso farmacológico, ocorre o oposto: a tireoide é modulada negativamente e reduz a liberação hormonal (efeito Wolff-Chaikoff).

No pré-operatório de tireoidectomia, esse efeito é utilizado para firmar a glândula e reduzir a vascularização, diminuindo o risco hemorrágico cirúrgico.

Propranolol — por que aparece no tratamento da tireoide?

O propranolol não age na tireoide. Ele aparece porque o hipertireoidismo hiperativa o sistema adrenérgico, gerando taquicardia, sudorese, tremor e agitação.

O bloqueio beta-adrenérgico do propranolol controla esses sintomas enquanto as tioureias reduzem a produção hormonal. Adjuvante, não antitiroidiano.

O que a professora quer na prova

Hipotireoidismo — pontos obrigatórios
  • Etiologia mais comum: Tireoidite de Hashimoto
  • Tratamento 1ª linha: levotiroxina (T4 sintético)
  • T4 é pró-hormônio, convertido em T3 no fígado/rins
  • Perfil em platô — mais seguro que pico do T3
  • Jejum: tomar o medicamento e esperar 30-60 min para comer
  • T3 EV apenas para coma mixedematoso (emergência)
  • Monitoramento: TSH + T3 + T4 nos retornos
Hipertireoidismo — pontos obrigatórios
  • Causa mais comum: Doença de Graves (autoimune)
  • Tratamento 1ª linha no Brasil: PTU ou Metimazol (tioureias)
  • Mecanismo das tioureias: inibição competitiva da TPO
  • PTU também inibe conversão periférica T4 → T3
  • Propranolol: adjuvante para sintomas cardiovasculares
  • Glicocorticoide: adjuvante para exoftalmia grave (Graves)
  • Iodo Radioativo: 1ª linha nos EUA; no Brasil, câncer de tireoide
  • Iodo de Lugol: pré-operatório de tireoidectomia
Mnemônicos da professora
  • Tireotoxicose = hipertireoidismo (tóxico/elevado)
  • Mixedema = hipotireoidismo (espessamento da pele)
  • T4 = reserva / pró-hormônio (platô)
  • T3 = ativo, mas meia vida curta (pico e queda)
  • Repor T4, não T3, no hipotireoidismo crônico
⚡ Tabela resumo para colagem no caderno
Fármaco Indicação Mecanismo
Levotiroxina Hipo · 1ª linha Reposição de T4 (convertido em T3)
PTU Hiper · gestação Inibe TPO + inibe conversão T4→T3
Metimazol Hiper · padrão BR Inibe TPO (inibição competitiva)
Iodo de Lugol Pré-op · crise Excesso de iodo inibe liberação hormonal
Iodo Radioativo Hiper (EUA) · câncer Destrói células foliculares por radiação
Propranolol Adjuvante (Hiper) Bloqueia sintomas adrenérgicos
Glicocorticoide Adjuvante (Graves) Antiinflamatório para exoftalmia
T3 EV (liotironina) Coma mixedematoso Reposição direta do hormônio ativo
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