Bactericida vs. Bacteriostático
Mata a bactéria diretamente. A eliminação do patógeno não depende do sistema imune do hospedeiro.
Exemplos: betalactâmicos, vancomicina, aminoglicosídeos, fluoroquinolonas.
Preferível em imunocomprometidos e infecções graves onde o sistema imune não consegue dar conta sozinho.
Apenas interrompe o crescimento bacteriano. A eliminação final fica a cargo do sistema imune do hospedeiro.
Exemplos: macrolídeos, tetraciclinas, sulfonamidas, cloranfenicol.
Em doses altas alguns podem ter efeito bactericida dependente da espécie — mas o efeito predominante é estático.
Azitromicina, Claritromicina e a era pós-eritromicina
Macrolídeos ligam-se irreversivelmente à subunidade ribossomal 50S, inibindo a translocação na síntese de proteínas. A bactéria não consegue produzir suas proteínas essenciais e tem o crescimento interrompido.
São predominantemente bacteriostáticos. Em doses altas, podem exercer efeito bactericida dependendo da espécie, mas esse não é o efeito dominante.
Eritromicina foi o protótipo. Meia vida de menos de 2 horas exigia doses a cada 4 horas (até 6 vezes ao dia). Esquemas de 2 em 2 horas existiram. Isso levou ao abandono progressivo.
Azitromicina surgiu de uma modificação química no anel macrolídeo da eritromicina. Resultado: estabilidade em meio ácido muito maior, meia vida exponencialmente mais longa. Uma única dose de 500 mg torna-se suficiente para muitos tratamentos. Cômoda demais, foi abusada em excesso.
Claritromicina: disponível oral e injetável (EV — cuidado com acesso periférico em grande volume, causa flebite grave).
Ferramenta para estimar probabilidade de amigdalite bacteriana por estreptococo:
Score ≥ 4: iniciar antibioticoterapia imediatamente (amoxicilina ou penicilina benzatina).
Score 2-3: ponderar, pedir teste rápido se disponível.
Tosse presente = provavelmente viral. Estreptococo não costuma afetar laringe.
Bactérias atípicas — o domínio dos macrolídeos
Bactérias atípicas causam quadros com apresentação clínica diferente do padrão esperado: febre menos alta, evolução mais arrastada, sintomas mais vagos. A pneumonia atípica, por exemplo, cursa de forma subaguda, enquanto a típica (pneumococo, S. aureus) cursa de forma mais aguda e febril.
Algumas, como o Mycoplasma pneumoniae, não têm parede celular. Qualquer betalactâmico é inútil — não há PBP, não há peptidoglicano. Os macrolídeos, que atuam no ribossomo, funcionam.
Pneumonia atípica grave. Associada a torres de resfriamento contaminadas. Claritromicina ou levofloxacino.
Sem parede celular. Pneumonia atípica. Betalactâmico inútil. Macrolídeo ou tetraciclina.
Coqueluche. Tosse paroxística noturna clássica. Azitromicina ou claritromicina. Quase erradicada pelas vacinas.
ISTs atípicas. Também infecções respiratórias. Macrolídeo ou tetraciclina (doxiciclina).
Úlcera péptica. Tríplice: Claritromicina + amoxicilina + IBP por 14 dias.
Febre maculosa, tifo. Doxiciclina é a escolha clássica. Macrolídeo como alternativa.
Sulfametoxazol + Trimetoprima (SMX-TMP)
Bactérias precisam sintetizar seu próprio ácido fólico a partir do PABA (ácido p-aminobenzóico). Humanos obtêm folato da dieta — não sintetizam. Essa diferença é o ponto de seletividade.
Sulfonamidas bloqueiam enzimas da cascata de síntese do folato bacteriano. Sem folato, a bactéria não produz purinas, DNA nem RNA. A trimetoprima inibe outro ponto da mesma cascata.
São quimioterápicos — surgidos antes das penicilinas, produto de síntese química, não de origem biológica.
SMX-TMP foi retirado pelo Ministério da Saúde da primeira escolha para disenteria — a resistência bacteriana nas populações urbanas tornou o tratamento errático.
Uso relevante atual: profilaxia e tratamento da pneumocistose (Pneumocystis jirovecii) em pacientes imunossuprimidos — PVHIV com CD4 baixo, transplantados, em uso prolongado de imunossupressores. Essa ainda é uma indicação sólida e estabelecida.
Ainda funciona em populações ribeirinhas e áreas de menor pressão seletiva, mas não é confiável nos grandes centros.
Ciprofloxacino, Levofloxacino e a DNA girase
Fluoroquinolonas inibem as DNA topoisomerases bacterianas (principalmente DNA girase e topoisomerase IV), enzimas que "desenrolam" o DNA para replicação e transcrição. Com a DNA girase bloqueada, o DNA não se abre, a bactéria não replica nem transcreve. São bactericidas.
A seletividade é de aproximadamente 2.000 vezes maior para a girase bacteriana do que para a girase humana. Isso dá a janela terapêutica — mas a seletividade diminui com aumento de dose e com populações de células em divisão rápida.
Ger.
Ácido nalidíxico — protótipo. Não mais utilizado na terapêutica no Brasil. Histórico.
Ger.
Ciprofloxacino — excretado de forma inalterada em grande proporção na urina. Por isso é muito utilizado para infecções urinárias e diverticulites. Ação fraca contra pneumococos — não é a primeira escolha para pneumonia.
Ger.
Levofloxacino — chamado de "quinolona respiratória". Excelente cobertura de Streptococcus pneumoniae. Indicado para pneumonias adquiridas na comunidade quando há suspeita de atípicas ou resistência. Oral e injetável.
Ger.
Moxifloxacino — maior seletividade, melhor distribuição em tecidos moles. Nível hospitalar terciário. Injetável.
Doxiciclina e a afinidade letal pelo cálcio
Assim como os aminoglicosídeos, tetraciclinas atuam na subunidade 30S, inibindo a síntese proteica. Porém, ao contrário dos aminoglicosídeos, são estritamente bacteriostáticas. Não matam — interrompem o crescimento.
Não associar tetraciclinas com penicilinas: a interação entre elas compromete a efetividade dos dois. Incompatibilidade clínica estabelecida.
Tetraciclina: o protótipo. Biodisponibilidade oral inconsistente.
Doxiciclina: modificação que gerou meia vida muito mais favorável e biodisponibilidade oral melhor. Tornou-se o principal representante da classe. Porém, causa intolerância gastrointestinal significativa — pacientes reclamam muito.
Oxitetraciclina: não disponível para uso humano no Brasil hoje. Usada em ração animal (frangos, suínos). A adição de oxitetraciclina como substrato padrão da ração gerou seleção de resistência em escala industrial.
Restaram nos cenários de bactérias atípicas resistentes às outras classes e doenças raras ou específicas:
Doxiciclina: Clamídia (ISTs), brucelose, riquétsias, febre maculosa, febre das Montanhas Rochosas. Tratamentos longos: 7 a 21 dias (bacteriostático exige tempo).
Antes eram usadas para gonorreia — hoje substituídas por fluoroquinolonas ou ceftriaxona em dose única, muito mais cômodas. Perderam espaço pela intolerância GI e pelo desenvolvimento de classes mais eficazes.
Gestação e infância — o que nunca usar
A Estudos controlados não mostraram risco. B Estudos em animais sem risco, sem estudos adequados em humanos. C Estudos em animais revelaram risco, sem estudos em humanos — usar só se o benefício justificar. D Evidência positiva de risco fetal em humanos, mas benefício pode justificar em situações graves. X Risco claramente supera qualquer benefício — absolutamente contraindicado (ex.: talidomida, misoprostol em gestação desejada, isotretinoína).
Contraindicadas na gestação por risco teratogênico (inibição da DNA girase fetal). Contraindicadas em crianças com epífises abertas. Evitar mesmo nas gerações mais recentes — diretriz conservadora.
Contraindicadas na gestação e em crianças menores de 8 anos. Depósito em esmalte dentário e discos epifisários — malformações ósseas e escurecimento permanente dos dentes.
Evitar no 1º trimestre (tubo neural) e no 3º trimestre (kernicterus neonatal). Pode ser usado no 2º trimestre com cautela, como última opção.
Ototoxicidade fetal — a hemolinfa coclear do recém-nascido é especialmente sensível. Comunidades com surdez por gentamicina em gestantes existem documentadas no Maranhão.
Para ITU em gestantes, protocolo do DF como referência: Nitrofurantoína (1ª escolha, exceto no 3º trimestre), Amoxicilina, Amoxicilina + Clavulanato, Cefalexina.
SMX-TMP: apenas no 2º trimestre quando não há alternativa.
Betalactâmicos são os mais seguros — humanos não têm PBP, sem risco inerente ao mecanismo. Quanto mais sintética a molécula, maior a cautela, mas a base é segura.
Macrolídeos (azitromicina): usados com segurança razoável na gestação, especialmente para cobrir atípicas quando necessário.
O que o professor quer na prova
- Mecanismo: subunidade 50S — bacteriostático (predominante)
- Palavra-chave: atipias — Legionella, Mycoplasma, Bordetella, Chlamydia, H. pylori
- Eritromicina (histórico) → Azitromicina (dose única, abusada) → resistência estreptocócica
- Amigdalite estreptocócica: amoxicilina ou penicilina, nunca azitromicina de primeira intenção
- Alergia a betalactâmico: macrolídeo é a alternativa segura
- H. pylori: claritromicina + amoxicilina + IBP por 14 dias
- Mecanismo: antimetabólito — bloqueia síntese do folato bacteriano em dois pontos
- Duplo bloqueio = dupla barreira à resistência
- Saiu da 1ª escolha para disenteria (Ministério da Saúde)
- Uso atual sólido: profilaxia/tratamento de pneumocistose em imunossuprimidos (HIV CD4 baixo)
- Evitar no 1º e 3º trimestres da gestação
- Mecanismo: inibe DNA girase — bactericida
- Cipro: excreção urinária alta → ITU e diverticulite
- Levo: "quinolona respiratória" → pneumonia com cobertura de pneumococo
- Moxifloxacino: tecidos moles, hospitalar
- Contraindicada na gestação (teratogênica — risco para DNA fetal) e em crianças com epífises abertas
- Mecanismo: subunidade 30S — estritamente bacteriostática
- Doxiciclina: melhor meia vida, mais usada
- Nunca com laticínios ou cálcio: forma sal insolúvel e não absorve
- Atipias raras: Clamídia, brucelose, febre maculosa, riquétsia, peste bubônica
- Contraindicada em grávidas e crianças: depósito em epífises e dentes → malformação e escurecimento permanente
- Não associar com penicilinas (incompatibilidade clínica)