Antibióticos · Parte 3
Farmacologia · Infectologia

Macrolídeos, Sulfonamidas,
Fluoroquinolonas
& Tetraciclinas

As classes que cobrem as bactérias atípicas — mecanismos diferentes, bacteriostáticos em sua maioria, e contraindicações críticas na gestação e infância.

AzitromicinaClaritromicina SMX-TMPCiprofloxacino LevofloxacinoDoxiciclina Bactérias AtípicasBacteriostático
01 · Conceito Central

Bactericida vs. Bacteriostático

⚡ Distinção cobrada diretamente em prova
Bactericida

Mata a bactéria diretamente. A eliminação do patógeno não depende do sistema imune do hospedeiro.

Exemplos: betalactâmicos, vancomicina, aminoglicosídeos, fluoroquinolonas.

Preferível em imunocomprometidos e infecções graves onde o sistema imune não consegue dar conta sozinho.

Bacteriostático

Apenas interrompe o crescimento bacteriano. A eliminação final fica a cargo do sistema imune do hospedeiro.

Exemplos: macrolídeos, tetraciclinas, sulfonamidas, cloranfenicol.

Em doses altas alguns podem ter efeito bactericida dependente da espécie — mas o efeito predominante é estático.

Implicação clínica direta
Para uma amigdalite estreptocócica, amoxicilina bactericida resolve muito mais rápido do que azitromicina bacteriostática. Usar azitromicina para amigdalite estreptocócica quando não há alergia à penicilina é negligência — o paciente demora 5 dias para melhorar com algo que resolveria em 48 horas com amoxicilina.
02 · Macrolídeos

Azitromicina, Claritromicina e a era pós-eritromicina

Mecanismo de ação — subunidade 50S

Macrolídeos ligam-se irreversivelmente à subunidade ribossomal 50S, inibindo a translocação na síntese de proteínas. A bactéria não consegue produzir suas proteínas essenciais e tem o crescimento interrompido.

São predominantemente bacteriostáticos. Em doses altas, podem exercer efeito bactericida dependendo da espécie, mas esse não é o efeito dominante.

Local de ação — subunidade 50S do ribossomo bacteriano
Subunidade 50S Subunidade 30S Macrolídeo liga 50S → bloqueia Aminoglicos. liga 30S (bactericida) Macrolídeos Tetraciclinas → bacteriostáticos Aminoglicosídeos → bactericidas
Da eritromicina à azitromicina — evolução histórica

Eritromicina foi o protótipo. Meia vida de menos de 2 horas exigia doses a cada 4 horas (até 6 vezes ao dia). Esquemas de 2 em 2 horas existiram. Isso levou ao abandono progressivo.

Azitromicina surgiu de uma modificação química no anel macrolídeo da eritromicina. Resultado: estabilidade em meio ácido muito maior, meia vida exponencialmente mais longa. Uma única dose de 500 mg torna-se suficiente para muitos tratamentos. Cômoda demais, foi abusada em excesso.

Claritromicina: disponível oral e injetável (EV — cuidado com acesso periférico em grande volume, causa flebite grave).

O preço do abuso da azitromicina
A comodidade da dose única levou ao uso indiscriminado. Resultado: a azitromicina hoje mal cobre estreptococos em muitos cenários. Não é que não cubra, é que como é bacteriostática, a seleção natural de resistência foi favorecida pelo uso massivo. Para amigdalite estreptocócica hoje: amoxicilina ou penicilina.
Score de Centor — quando tratar amigdalite com antibiótico?

Ferramenta para estimar probabilidade de amigdalite bacteriana por estreptococo:

+1
Exsudato ou edema amigdaliano
+1
Linfonodomegalia cervical anterior
+1
Ausência de tosse
+1
Idade jovem (adulto jovem)
−1
Idade > 45 anos
−1
Tosse presente

Score ≥ 4: iniciar antibioticoterapia imediatamente (amoxicilina ou penicilina benzatina).
Score 2-3: ponderar, pedir teste rápido se disponível.
Tosse presente = provavelmente viral. Estreptococo não costuma afetar laringe.

Macrolídeo para alergia à penicilina
Quando o paciente tem alergia confirmada a betalactâmicos e não há estrutura para manejo de anafilaxia, o macrolídeo é a alternativa. Estrutura química completamente diferente, sem reatividade cruzada. Azitromicina ou claritromicina para infecções estreptocócicas em alérgicos.
03 · Palavra-Chave dos Macrolídeos

Bactérias atípicas — o domínio dos macrolídeos

Por que se chamam "atípicas"?

Bactérias atípicas causam quadros com apresentação clínica diferente do padrão esperado: febre menos alta, evolução mais arrastada, sintomas mais vagos. A pneumonia atípica, por exemplo, cursa de forma subaguda, enquanto a típica (pneumococo, S. aureus) cursa de forma mais aguda e febril.

Algumas, como o Mycoplasma pneumoniae, não têm parede celular. Qualquer betalactâmico é inútil — não há PBP, não há peptidoglicano. Os macrolídeos, que atuam no ribossomo, funcionam.

Legionella pneumophila

Pneumonia atípica grave. Associada a torres de resfriamento contaminadas. Claritromicina ou levofloxacino.

Mycoplasma pneumoniae

Sem parede celular. Pneumonia atípica. Betalactâmico inútil. Macrolídeo ou tetraciclina.

Bordetella pertussis

Coqueluche. Tosse paroxística noturna clássica. Azitromicina ou claritromicina. Quase erradicada pelas vacinas.

Chlamydia spp.

ISTs atípicas. Também infecções respiratórias. Macrolídeo ou tetraciclina (doxiciclina).

Helicobacter pylori

Úlcera péptica. Tríplice: Claritromicina + amoxicilina + IBP por 14 dias.

Rickettsias

Febre maculosa, tifo. Doxiciclina é a escolha clássica. Macrolídeo como alternativa.

Pneumonia típica vs. atípica — diferença no espectro de cobertura
Pneumonia Típica S. pneumoniae, S. aureus Febre alta · Início agudo Consolidação lobar Betalactâmico ✓ Pneumonia Atípica Legionella, Mycoplasma Febre baixa · Subagudo Sintomas erráticos Macrolídeo / Quinolona ✓
MedCaju · Banco de Questões
Questões sobre macrolídeos e bactérias atípicas
Amigdalite, pneumonia atípica, coqueluche e H. pylori com casos comentados.
Resolver no MedCaju
04 · Sulfonamidas

Sulfametoxazol + Trimetoprima (SMX-TMP)

Mecanismo — antimetabólito do folato bacteriano

Bactérias precisam sintetizar seu próprio ácido fólico a partir do PABA (ácido p-aminobenzóico). Humanos obtêm folato da dieta — não sintetizam. Essa diferença é o ponto de seletividade.

Sulfonamidas bloqueiam enzimas da cascata de síntese do folato bacteriano. Sem folato, a bactéria não produz purinas, DNA nem RNA. A trimetoprima inibe outro ponto da mesma cascata.

São quimioterápicos — surgidos antes das penicilinas, produto de síntese química, não de origem biológica.

Cascata do folato bacteriano — pontos de bloqueio duplo
PABA Dihidropteroato sintase Sulfa ✕ Dihidrofolato Dihidrofolato redutase TMP ✕ Sem Tetrahidrofolato → Sem DNA/RNA → bactéria não cresce Para resistir, a bactéria precisa mutar as DUAS enzimas simultaneamente
Por que usar os dois juntos?
Sulfa e trimetoprima inibem pontos diferentes da mesma cascata. Para resistir, a bactéria precisaria sofrer duas mutações favoráveis ao mesmo tempo — como ganhar a megasena duas vezes seguidas na mesma semana. Isso cria uma barreira à resistência. Apesar disso, com o uso prolongado e disseminado, a resistência já se estabeleceu em muitas populações.
Uso atual — o que restou

SMX-TMP foi retirado pelo Ministério da Saúde da primeira escolha para disenteria — a resistência bacteriana nas populações urbanas tornou o tratamento errático.

Uso relevante atual: profilaxia e tratamento da pneumocistose (Pneumocystis jirovecii) em pacientes imunossuprimidos — PVHIV com CD4 baixo, transplantados, em uso prolongado de imunossupressores. Essa ainda é uma indicação sólida e estabelecida.

Ainda funciona em populações ribeirinhas e áreas de menor pressão seletiva, mas não é confiável nos grandes centros.

Restrição na gestação
SMX-TMP pode inibir enzimas do folato humano em doses altas. Evitar no 1º trimestre (risco de malformação do tubo neural, que depende de ácido fólico) e no 3º trimestre (risco de icterícia neonatal e kernicterus por competição com bilirrubina). Pode ser usado com cautela no 2º trimestre quando não há alternativa.
05 · Fluoroquinolonas

Ciprofloxacino, Levofloxacino e a DNA girase

Mecanismo — inibição da DNA girase

Fluoroquinolonas inibem as DNA topoisomerases bacterianas (principalmente DNA girase e topoisomerase IV), enzimas que "desenrolam" o DNA para replicação e transcrição. Com a DNA girase bloqueada, o DNA não se abre, a bactéria não replica nem transcreve. São bactericidas.

A seletividade é de aproximadamente 2.000 vezes maior para a girase bacteriana do que para a girase humana. Isso dá a janela terapêutica — mas a seletividade diminui com aumento de dose e com populações de células em divisão rápida.

Fluoroquinolona — bloqueio da DNA girase bacteriana
DNA enrolado DNA girase (bacteriana) DNA aberto → replica/transcreve Quinolona ✕ DNA não abre ✕
⚡ Gerações e representantes cobrados em prova

Ger.

Ácido nalidíxico — protótipo. Não mais utilizado na terapêutica no Brasil. Histórico.


Ger.

Ciprofloxacino — excretado de forma inalterada em grande proporção na urina. Por isso é muito utilizado para infecções urinárias e diverticulites. Ação fraca contra pneumococos — não é a primeira escolha para pneumonia.


Ger.

Levofloxacino — chamado de "quinolona respiratória". Excelente cobertura de Streptococcus pneumoniae. Indicado para pneumonias adquiridas na comunidade quando há suspeita de atípicas ou resistência. Oral e injetável.


Ger.

Moxifloxacino — maior seletividade, melhor distribuição em tecidos moles. Nível hospitalar terciário. Injetável.

Teratogenicidade — contraindicadas na gestação
O embrião/feto está em divisão celular intensa, com o DNA em constante replicação. Fluoroquinolonas podem interagir com a DNA girase fetal, inibindo a replicação e causando efeito teratogênico ou abortivo. No passado, o norfloxacino foi usado inadvertidamente como abortivo. Contraindicadas em grávidas e crianças com epífises ainda abertas. Risco existe mesmo nas gerações mais recentes — diretriz: evitar ao máximo, usar apenas em risco-benefício muito favorável quando não há alternativa.
MedCaju · ENAMED e Residência
Questões de fluoroquinolonas, ITU e contraindicações na gestação
Casos clínicos com raciocínio de escolha e contraindicações comentados.
Praticar no MedCaju
06 · Tetraciclinas

Doxiciclina e a afinidade letal pelo cálcio

Mecanismo — subunidade ribossomal 30S

Assim como os aminoglicosídeos, tetraciclinas atuam na subunidade 30S, inibindo a síntese proteica. Porém, ao contrário dos aminoglicosídeos, são estritamente bacteriostáticas. Não matam — interrompem o crescimento.

Não associar tetraciclinas com penicilinas: a interação entre elas compromete a efetividade dos dois. Incompatibilidade clínica estabelecida.

Da tetraciclina à doxiciclina

Tetraciclina: o protótipo. Biodisponibilidade oral inconsistente.

Doxiciclina: modificação que gerou meia vida muito mais favorável e biodisponibilidade oral melhor. Tornou-se o principal representante da classe. Porém, causa intolerância gastrointestinal significativa — pacientes reclamam muito.

Oxitetraciclina: não disponível para uso humano no Brasil hoje. Usada em ração animal (frangos, suínos). A adição de oxitetraciclina como substrato padrão da ração gerou seleção de resistência em escala industrial.

Tetraciclina + cálcio = sal insolúvel não absorvível
Tetraciclina (ativa) Ca²⁺ (laticínios) liga Sal insolúvel não absorvido → sem efeito Nunca tomar com leite, queijo, iogurte ou suplementos de cálcio
Afinidade pelo cálcio — risco em ossos e dentes
As tetraciclinas se depositam em tecidos calcificados: discos epifisários dos ossos em crescimento e esmalte dentário em desenvolvimento. Isso causa malformações ósseas e alteração permanente da cor dos dentes (escurecimento) em crianças. Histórico consolidado de 20+ anos na literatura. Contraindicadas em grávidas e crianças com epífises não fechadas ou dentes definitivos não estabelecidos.
Uso atual — onde ainda se aplicam

Restaram nos cenários de bactérias atípicas resistentes às outras classes e doenças raras ou específicas:

Doxiciclina: Clamídia (ISTs), brucelose, riquétsias, febre maculosa, febre das Montanhas Rochosas. Tratamentos longos: 7 a 21 dias (bacteriostático exige tempo).

Antes eram usadas para gonorreia — hoje substituídas por fluoroquinolonas ou ceftriaxona em dose única, muito mais cômodas. Perderam espaço pela intolerância GI e pelo desenvolvimento de classes mais eficazes.

07 · Contraindicações

Gestação e infância — o que nunca usar

⚡ Contraindicações na gestação — ponto crítico de prova
Classificação de risco na gestação (FDA A→X)

A Estudos controlados não mostraram risco. B Estudos em animais sem risco, sem estudos adequados em humanos. C Estudos em animais revelaram risco, sem estudos em humanos — usar só se o benefício justificar. D Evidência positiva de risco fetal em humanos, mas benefício pode justificar em situações graves. X Risco claramente supera qualquer benefício — absolutamente contraindicado (ex.: talidomida, misoprostol em gestação desejada, isotretinoína).

Fluoroquinolonas

Contraindicadas na gestação por risco teratogênico (inibição da DNA girase fetal). Contraindicadas em crianças com epífises abertas. Evitar mesmo nas gerações mais recentes — diretriz conservadora.

Tetraciclinas

Contraindicadas na gestação e em crianças menores de 8 anos. Depósito em esmalte dentário e discos epifisários — malformações ósseas e escurecimento permanente dos dentes.

SMX-TMP

Evitar no 1º trimestre (tubo neural) e no 3º trimestre (kernicterus neonatal). Pode ser usado no 2º trimestre com cautela, como última opção.

Aminoglicosídeos

Ototoxicidade fetal — a hemolinfa coclear do recém-nascido é especialmente sensível. Comunidades com surdez por gentamicina em gestantes existem documentadas no Maranhão.

Antibióticos seguros na gestação — os que sobram

Para ITU em gestantes, protocolo do DF como referência: Nitrofurantoína (1ª escolha, exceto no 3º trimestre), Amoxicilina, Amoxicilina + Clavulanato, Cefalexina.

SMX-TMP: apenas no 2º trimestre quando não há alternativa.

Betalactâmicos são os mais seguros — humanos não têm PBP, sem risco inerente ao mecanismo. Quanto mais sintética a molécula, maior a cautela, mas a base é segura.

Macrolídeos (azitromicina): usados com segurança razoável na gestação, especialmente para cobrir atípicas quando necessário.

08 · Síntese Final

O que o professor quer na prova

Macrolídeos
  • Mecanismo: subunidade 50S — bacteriostático (predominante)
  • Palavra-chave: atipias — Legionella, Mycoplasma, Bordetella, Chlamydia, H. pylori
  • Eritromicina (histórico) → Azitromicina (dose única, abusada) → resistência estreptocócica
  • Amigdalite estreptocócica: amoxicilina ou penicilina, nunca azitromicina de primeira intenção
  • Alergia a betalactâmico: macrolídeo é a alternativa segura
  • H. pylori: claritromicina + amoxicilina + IBP por 14 dias
Sulfonamidas (SMX-TMP)
  • Mecanismo: antimetabólito — bloqueia síntese do folato bacteriano em dois pontos
  • Duplo bloqueio = dupla barreira à resistência
  • Saiu da 1ª escolha para disenteria (Ministério da Saúde)
  • Uso atual sólido: profilaxia/tratamento de pneumocistose em imunossuprimidos (HIV CD4 baixo)
  • Evitar no 1º e 3º trimestres da gestação
Fluoroquinolonas
  • Mecanismo: inibe DNA girase — bactericida
  • Cipro: excreção urinária alta → ITU e diverticulite
  • Levo: "quinolona respiratória" → pneumonia com cobertura de pneumococo
  • Moxifloxacino: tecidos moles, hospitalar
  • Contraindicada na gestação (teratogênica — risco para DNA fetal) e em crianças com epífises abertas
Tetraciclinas
  • Mecanismo: subunidade 30S — estritamente bacteriostática
  • Doxiciclina: melhor meia vida, mais usada
  • Nunca com laticínios ou cálcio: forma sal insolúvel e não absorve
  • Atipias raras: Clamídia, brucelose, febre maculosa, riquétsia, peste bubônica
  • Contraindicada em grávidas e crianças: depósito em epífises e dentes → malformação e escurecimento permanente
  • Não associar com penicilinas (incompatibilidade clínica)
Lição central do professor
Saber fazer o básico bem feito resolve 99% da clínica. Amigdalite estreptocócica = amoxicilina. Pneumonia atípica = macrolídeo ou quinolona respiratória. Grávida = fugir de quinolona, tetraciclina, aminoglicosídeo. Bacteriostático depende do sistema imune — em imunodeprimido grave, preferir bactericida quando possível.
MedCaju · ENAMED e Residência
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Do básico ao hospitalar. Casos de amigdalite, pneumonia atípica, ITU na gestação e infecções raras com gabarito detalhado.
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