MedCaju · Farmacologia cirúrgica · Manual de bolso
Anestésicos
locais
Da cocaína da Primeira Guerra à lidocaína do plantão, da química do canal de sódio ao Ronaldo Fenômeno na final de 98 — tudo o que você precisa para anestesiar com segurança, calcular a dose e reconhecer a toxicidade.
Leitura · ~35 min
Nível · clínico cirúrgico
Atualizado · 2026
Foco · prova + plantão
01 · Por onde começar
O que é um anestésico local
Em uma frase: drogas que produzem inibição temporária e reversível da condução do estímulo nervoso. Tudo o que vem depois é detalhe técnico — mas todo o detalhe importa.
Anestésico local é o fármaco mais usado pelo cirurgião na vida prática. Vai tirar unha encravada, drenar abscesso, retirar nevo, queimar verruga, suturar laceração? Anestesia local. Da pequena cirurgia ambulatorial ao bloqueio do neuroeixo (raquianestesia e peridural), são as mesmas drogas — muda só o local de injeção e a indicação.
A definição que organiza tudo
Temporária e reversível — não confunda com analgésico nem com opioide
O anestésico local bloqueia a condução do estímulo nervoso. Se fosse irreversível, bastaria cortar o nervo — mas aí ninguém voltaria a sentir. O fármaco devolve a função em poucas horas. Ele não é analgésico (não age no SNC), não é anti-inflamatório (não toca em COX). É um bloqueador de canal de sódio voltagem-dependente, aplicado na hora e no lugar.
O que o anestésico local bloqueia
Em doses crescentes, o bloqueio é sequencial e seletivo. Esta hierarquia é a base para entender por que a parturiente em peridural "anda" mas não sente dor, e por que o paciente do dentista fica com a boca "troncha":
- Fibras autonômicas — bloqueadas primeiro (mais finas, mielínicas finas)
- Dor e temperatura — bloqueadas em seguida (fibras Aδ e C)
- Tato e pressão — bloqueadas depois (fibras Aβ)
- Propriocepção — bloqueada em doses maiores (fibras Aα)
- Função motora — última a cair, exige a dose mais alta
Aplicação clínica imediata
Em pequeno procedimento com dose baixa de lidocaína, o paciente não sente dor mas pode sentir contração muscular se você usar bisturi elétrico — o calor não passa pelas fibras Aδ/C bloqueadas, mas a corrente elétrica ativa o músculo abaixo (fibra motora exige dose maior). É a hierarquia das fibras em ação.
02 · Mecanismo de ação
O canal de sódio — alvo único, efeito profundo
Todo anestésico local tem um único alvo molecular: o canal de sódio voltagem-dependente do axônio. Bloqueado o canal, não há despolarização. Sem despolarização, não há condução. Sem condução, não há dor.
Gerar dor e conduzir dor — duas coisas diferentes
O anestésico local pode atuar nos dois pontos da via dolorosa:
- Bloqueio da geração — você anestesia no local da incisão. Os receptores nociceptivos cutâneos não conseguem iniciar a despolarização. É o que acontece na anestesia infiltrativa típica (tirar um nevo).
- Bloqueio da condução — você anestesia no trajeto do nervo. O estímulo é gerado normalmente, mas não passa do ponto onde o nervo foi bloqueado. É o que acontece no bloqueio digital (anestesia na base do dedo para operar a unha) e no bloqueio do plexo braquial.
Exemplo cirúrgico clássico
Cirurgia plástica de lábio inferior. Em vez de injetar no lábio (que incha, distorce o tecido, atrapalha a estética e exige muito anestésico), o cirurgião injeta no forame mentoniano, onde sai o nervo mentoniano. O estímulo doloroso é gerado no lábio quando a lâmina corta — mas é interceptado no forame e nunca chega ao córtex. Mesmo princípio do bloqueio do plexo braquial e da raquianestesia.
03 · Estrutura química
Três partes, três funções
Todo anestésico local tem a mesma arquitetura molecular. Cada parte determina uma propriedade clínica — potência, latência, duração. Decora a anatomia da molécula e você decora a farmacologia inteira.
Éster ou amida — a divisão clínica
A cadeia intermediária define duas grandes classes:
Ésteres
Cocaína, procaína, tetracaína, benzocaína. Metabolizados por esterases plasmáticas. Geram PABA como metabólito → maior risco alérgico. Hoje quase não se usa em injeção.
Amidas (uso atual)
Lidocaína, bupivacaína, ropivacaína, prilocaína, mepivacaína, articaína. Metabolização hepática (CYP). Baixo risco alérgico. Todas têm dois "i" no nome.
Mnemônico MedCaju
Conte os "i" — é como diferenciar amida de éster
2iAmidas têm dois "i" no nome: lidocaina, bupivacaina, ropivacaina. Metabolismo hepático, seguras, modernas.
1iÉsteres têm apenas um "i": procaina, tetracaina, benzocaina, cocaina. Metabolismo plasmático, mais alergênicas, em desuso.
04 · Linha do tempo
Da cocaína à ropivacaína
Cada droga corrigiu o defeito da anterior. O nome "caína" no final é a herança genealógica — todos derivam, em última instância, da molécula da cocaína.
- 1884 — Cocaína Karl Koller usa cocaína como anestésico oftálmico em Viena. Primeira droga da história a abolir a dor cirúrgica localmente. Logo se vê o problema: dependência, toxicidade cardiovascular e SNC.
- 1905 — Procaína (Novocaína) Primeiro anestésico sintético da família. Éster. Faz sucesso na Primeira Guerra Mundial — permite suturar feridos no campo de batalha sem morfina. Curta duração, alergias frequentes pelo PABA.
- 1943 — Lidocaína (Xilocaína) Primeira amida. Sintetizada por Löfgren e Lundqvist na Suécia. Usada largamente na Segunda Guerra Mundial e até hoje é o padrão para anestesia infiltrativa.
- 1957 — Bupivacaína (Marcaína) Aumento da potência e da duração. Cardiotoxicidade significativa em altas doses — a droga matou pacientes em obstetrícia nos anos 80, levando à busca por um substituto mais seguro.
- 1996 — Ropivacaína (Naropin) Enantiômero S puro da bupivacaína. Potência semelhante, duração quase igual, mas cardiotoxicidade muito menor. Causa menos bloqueio motor — ideal para analgesia obstétrica.
Por que todos terminam em "caína"
O sufixo "-caína" é genealógico. Toda a família — lidocaína, bupivacaína, ropivacaína, procaína, tetracaína, articaína — descende da estrutura química básica da cocaína. A indústria foi sintetizando análogos que preservassem o efeito anestésico local mas eliminassem dependência, toxicidade cardiovascular e estímulo do SNC.
05 · Os quatro que importam
Lidocaína, bupivacaína, ropivacaína — e a procaína de museu
A maioria dos plantões resolve com três fármacos. Saber quando trocar lidocaína por bupivacaína e quando preferir ropivacaína à bupivacaína é o que separa o cirurgião do ambulatório do cirurgião do centro cirúrgico.
| Fármaco | Latência | Duração | Potência | Uso clínico |
| Procaína | 2-5 min | 30-60 min | Baixa (1×) | Praticamente em desuso. Histórico. |
| Lidocaína | ~30 segundos | 1-2 h (c/ vaso: 3-4 h) | Moderada (4×) | Padrão da pequena cirurgia ambulatorial. |
| Bupivacaína | 5-10 min | 4-8 h (c/ vaso) | Alta (16×) | Bloqueios prolongados, raquianestesia. Cardiotóxica. |
| Ropivacaína | 5-10 min | 3-6 h (c/ vaso) | Alta (14×) | Analgesia de parto, peridural. Menor cardiotoxicidade e menor bloqueio motor. |
Duração comparativa do efeito anestésico
Quando escolher cada uma
Lidocaína
Pequena cirurgia ambulatorial — nevo, cisto, unha encravada, abscesso, sutura. Latência praticamente imediata (~30 segundos). Segura — até estudante pode usar com supervisão. Disponível em concentrações de 0,5%, 1% e 2% (a mais comum). Pode sair do centro cirúrgico.
Bupivacaína
Cirurgia prolongada, raquianestesia, peridural, bloqueios periféricos longos. Mais potente — você usa menor volume para mesmo efeito. Restrita ao centro cirúrgico. Cardiotóxica em superdose — não circula em ambulatório.
Ropivacaína
Quando o paciente é cardiopata e você precisa do tempo de duração da bupivacaína. Padrão para analgesia de parto — alivia a dor mas a parturiente continua "fazendo força" porque o bloqueio motor é menor.
Procaína
Quase em desuso. Curtíssima duração, alergia frequente (PABA). Citada por valor histórico — sucesso da Primeira Guerra Mundial.
Recall ativo
Por que a ropivacaína é preferida à bupivacaína para analgesia de parto?
Toque para revelar
Por duas razões: (1) menor cardiotoxicidade em caso de injeção intravascular inadvertida — crítico em obstetrícia, onde se usa cateter peridural por horas; e (2) menor bloqueio motor proporcional ao bloqueio sensitivo — a parturiente perde a dor mas mantém força muscular pélvica suficiente para "puxar" o bebê. A bupivacaína bloqueia motor demais para esse fim. Por isso ropivacaína é a queridinha da obstetrícia moderna.
06 · As três propriedades
pKa, lipossolubilidade e ligação proteica
Três propriedades físico-químicas determinam tudo o que o anestésico local faz na clínica. Decora cada uma com a função que ela controla — e você nunca mais precisa decorar tabela.
pKa → latência (tempo de início)
O pKa é o pH em que metade da droga está na forma ionizada (não atravessa membrana) e metade na forma neutra (atravessa). Quanto mais próximo o pKa estiver do pH do tecido (7,4), mais fração neutra disponível e mais rápido o efeito.
- Lidocaína — pKa ≈ 7,9 → latência rápida (~30 s a 2 min).
- Bupivacaína — pKa ≈ 8,1 → latência mais lenta (5-10 min).
- Ropivacaína — pKa ≈ 8,1 → latência semelhante à bupivacaína.
- Procaína — pKa ≈ 8,9 → latência longa, por isso saiu de uso.
Lipossolubilidade → potência (dose)
Quanto mais lipossolúvel o anel aromático, mais facilmente a droga penetra na bicamada lipídica do neurônio. Resultado: menor dose consegue o mesmo efeito.
É por isso que bupivacaína a 0,25% tem efeito equivalente a lidocaína a 2% — a bupi é 4-8 vezes mais lipossolúvel, portanto mais potente, e exige menor concentração.
Ligação proteica → duração
O anestésico ligado à proteína do canal de sódio permanece grudado mais tempo. Quanto maior a fração ligada às proteínas, maior a duração do efeito.
- Lidocaína — 65% ligada → 1-2 h de duração
- Ropivacaína — 94% ligada → 3-6 h
- Bupivacaína — 95% ligada → 4-8 h
A regra-mestra
Memorize a correspondência, não os números
Você nunca precisa decorar o pKa exato da bupivacaína. Você precisa saber que pKa controla latência, lipossolubilidade controla potência e ligação proteica controla duração. Com essas três frases, qualquer questão de prova sobre propriedades físico-químicas dos AL é resolvida por raciocínio.
Recall ativo
Você é farmacêutico industrial e precisa criar um anestésico local que dure 24 horas. Qual propriedade físico-química você vai modificar?
Toque para revelar
Você precisa aumentar a ligação proteica. Lipossolubilidade aumentada deixaria a droga mais potente (menor dose, não maior duração). pKa próximo de 7,4 daria latência rápida (não duração longa). Só a ligação proteica determina por quanto tempo a molécula permanece ancorada ao canal de sódio — e portanto por quanto tempo o paciente fica anestesiado.
07 · O pH local
Por que o anestésico falha no abscesso
"Aqui a gente não anestesia abscesso, não adianta." Quem fala isso faltou a aula. Existem três estratégias para anestesiar tecido inflamado — e todas são farmacologia aplicada.
As três estratégias para anestesiar tecido inflamado
- Alcalinizar a solução com bicarbonato Misture bicarbonato de sódio ao anestésico antes de injetar. Eleva o pH local, desloca o equilíbrio para a forma neutra, restaura o efeito. Funciona, mas exige você ter bicarbonato disponível e saber a proporção (~1 mL de bicarbonato 8,4% para cada 10 mL de lidocaína).
- Bloqueio à distância Anestesie fora da área inflamada, no trajeto do nervo entre o abscesso e a medula. O estímulo doloroso é gerado no abscesso quando você incisa, mas é bloqueado no caminho — onde o tecido tem pH normal e o anestésico funciona.
- Aguardar mais tempo Injete normalmente, e espere 10-15 minutos. A fração de droga neutra disponível é menor, mas suficiente para anestesiar se você der tempo. Latência prolongada, mas eficácia preservada.
O mito do plantão
"Aqui não dá anestesia em abscesso." Quem diz isso está farmacologicamente errado. O que muda é a estratégia: alcaliniza, bloqueia à distância ou espera. Drenar abscesso sem anestesia, com paciente gritando, não é tradição — é desconhecimento de farmacologia básica.
08 · Com ou sem vaso
A pergunta da enfermeira
"Doutor, vai usar com ou sem vaso?" Por trás dessa pergunta cotidiana mora a farmacologia da adrenalina associada ao anestésico — três vantagens e uma proibição que pode salvar o dedo do seu paciente.
As três vantagens de associar adrenalina
- Menos sangramento A vasoconstrição local reduz a perfusão do tecido — útil em couro cabeludo, face, lábio, mucosas (regiões muito vascularizadas).
- Maior duração do anestésico A vasoconstrição mantém o anestésico no local por mais tempo. Lidocaína sem vaso dura 1-2 h; com adrenalina dura 3-4 h. Bupivacaína passa de 4-5 h para 6-8 h.
- Menor risco de toxicidade sistêmica Como a absorção é mais lenta, o pico plasmático é menor — o que permite usar dose máxima maior com o mesmo perfil de segurança.
A contraindicação que mata extremidade regra das pontas
Nunca use vasoconstritor em região de circulação terminal: dedo (mão e pé), pênis, orelha, ponta do nariz. A circulação dessas regiões é do tipo terminal — uma única artéria, sem colaterais robustas. Vasoconstrição prolongada pode causar isquemia e necrose, especialmente em diabéticos, vasculopatas e idosos com aterosclerose.
Em cirurgia de unha encravada, dedo, pênis, orelha: lidocaína pura, sem adrenalina.
Detalhe que ninguém ensina
A lidocaína isolada tem efeito vasodilatador (parece contraditório, mas é farmacologia conhecida). Quando você associa adrenalina, a vasoconstrição da adrenalina supera a vasodilatação da lidocaína — mas leva cerca de 2 minutos para o efeito hemostático ficar evidente. Se está fazendo cirurgia em couro cabeludo e quer aproveitar o efeito hemostático: anestesie, espere 2 minutos, depois corte.
Doses máximas — com e sem vasoconstritor
| Fármaco | Sem vaso | Com vaso (adrenalina) |
| Lidocaína | 4,5 mg/kg (máx 300 mg) | 7 mg/kg (máx 500 mg) |
| Bupivacaína | 2 mg/kg (máx 175 mg) | 3 mg/kg (máx 225 mg) |
| Ropivacaína | 3 mg/kg (máx 200-225 mg) | — (adrenalina não muda muito) |
Mnemônico MedCaju
Lidocaína — "5 sem, 7 com"
5Sem vaso: 5 mg/kg (alguns autores usam 4,5 — arredonde para 5 no plantão).
7Com vaso: 7 mg/kg.
2/3Bupivacaína: 2 sem, 3 com.
09 · O cálculo
Quantos mL você pode injetar
Errar a dose máxima é a causa #1 de toxicidade sistêmica. Decora o cálculo e nunca mais reza para o paciente sair vivo do procedimento.
A regra fundamental
O que significa "lidocaína 2%"
Concentração em porcentagem significa gramas por 100 mL. Logo:
Lidocaína 2% = 2 g em 100 mL = 2000 mg em 100 mL = 20 mg/mL
Essa é a regra de conversão que você precisa de memória: multiplica a concentração por 10 e você tem mg/mL. Lidocaína 1% = 10 mg/mL. Bupivacaína 0,5% = 5 mg/mL. Bupivacaína 0,25% = 2,5 mg/mL.
Caso clínico — exatamente como cai em prova
Paciente de 70 kg vai retirar nevo no 3º quirodáctilo direito. Lidocaína 2% sem vaso. Qual o volume máximo?
1. Dose máx: 5 mg/kg × 70 kg = 350 mg
2. Lido 2%: 2 g/100 mL = 2000 mg/100 mL = 20 mg/mL
3. Volume: 350 mg ÷ 20 mg/mL = 17,5 mL
VOLUME MÁXIMO SEGURO
17,5 mL
Na prática, para tirar um nevo bastam 2-3 mL. O cálculo importa em procedimentos maiores — sutura de laceração extensa, drenagem de abscesso grande, cirurgia de hérnia inguinal com anestesia local. Anote a dose acumulada durante o procedimento, especialmente se precisar reanestesiar.
Regra de três para qualquer peso
Se um paciente de 70 kg pode receber 17,5 mL de lido 2% sem vaso, um paciente de 35 kg recebe a metade (8,75 mL), um de 85 kg recebe ~21 mL. Memorize o "padrão 70 kg = 17,5 mL" e ajuste por regra de três — é mais rápido que refazer o cálculo todo na hora.
Doses máximas de referência por peso
| Peso | Lido 2% s/ vaso | Lido 2% c/ vaso | Bupi 0,5% s/ vaso |
| 50 kg | 12,5 mL | 17,5 mL | 20 mL |
| 60 kg | 15 mL | 21 mL | 24 mL |
| 70 kg | 17,5 mL | 24,5 mL | 28 mL |
| 80 kg | 20 mL | 28 mL | 32 mL |
| 90 kg | 22,5 mL | 31,5 mL | 35 mL (máx 35) |
10 · LAST — toxicidade sistêmica
Por que o Ronaldo convulsionou na final de 98
Toxicidade sistêmica de anestésico local — LAST, Local Anesthetic Systemic Toxicity — é raríssima na anestesia infiltrativa, mas devastadora quando acontece. A causa quase sempre é uma de duas: dose alta demais ou injeção intravascular inadvertida.
O caso clínico mais famoso do mundo
Final da Copa do Mundo de 1998, Brasil × França. Algumas horas antes do jogo, Ronaldo "Fenômeno" tem uma convulsão nos vestiários. A versão oficial fala em "nervosismo". A versão farmacológica é outra: Ronaldo jogava com o joelho danificado e era rotineiro infiltrar anestésico local no joelho antes das partidas para anestesiar a dor. Provavelmente houve injeção intravascular acidental ou dose acima do permitido, gerando toxicidade sistêmica neurológica. Ronaldo nunca mais teve outra convulsão — não era epilepsia. Era LAST.
Os sinais clínicos — em ordem de gravidade
- Pródromos sutis Dormência da língua, gosto metálico na boca, zumbido, tontura, visão turva. Pulga atrás da orelha — pare a injeção e reavalie.
- Disartria Paciente tenta falar e embola a língua. Confusão mental leve, agitação.
- Sintomas excitatórios Tremores, fasciculações, evolução para convulsão tônico-clônica.
- Sintomas depressivos do SNC Rebaixamento de consciência, coma. O anestésico que excitou agora deprime.
- Toxicidade cardiovascular Bradicardia, bloqueios de condução, arritmia ventricular refratária, parada cardíaca. Bupivacaína é a mais cardiotóxica.
O paradoxo da lidocaína
O melhor exemplo de "a diferença entre remédio e veneno é a dose"
A lidocaína em dose baixa é antiarrítmico — usada em arritmias ventriculares (classe IB de Vaughan-Williams). Em dose alta, a mesma lidocaína causa arritmia ventricular grave, de difícil reversão, que pode matar o paciente. É o paradoxo farmacológico perfeito. A molécula é a mesma. O que muda é a concentração plasmática.
Prevenção — em duas linhas
- Calcule a dose antes de injetar. Para um adulto de 70 kg, lidocaína 2% sem vaso, o limite é 17,5 mL. Anote, não confie em memória.
- Aspire o êmbolo antes de cada injeção. Em todas as posições da agulha. Se vier sangue, recue, reposicione, aspire de novo. Aqui é "sempre" mesmo — sem exceções.
Tratamento da LAST
- Suporte das vias aéreas Oxigênio suplementar, considerar IOT se rebaixamento.
- Monitorização cardíaca contínua ECG, PA, oximetria. Anote arritmias.
- Controle das convulsões Benzodiazepínicos (diazepam ou midazolam IV). Não use propofol em altas doses — agrava depressão miocárdica.
- Emulsão lipídica a 20% (Intralipid). É o antídoto. Bolus de 1,5 mL/kg + infusão contínua. A emulsão funciona como "lixeira lipídica" — sequestra o anestésico do plasma, reduzindo a concentração livre.
- RCP prolongada se PCR A reanimação na LAST pode demorar muito — relatos de RCP de 60-90 minutos com bom desfecho. Não desista cedo.
Recall ativo
Qual o antídoto específico da toxicidade sistêmica por anestésico local, e qual seu mecanismo?
Toque para revelar
A emulsão lipídica a 20% (Intralipid) — solução de nutrição parenteral usada off-label como antídoto. Mecanismo: cria um compartimento lipídico no plasma que sequestra moléculas lipofílicas (como o anestésico) da fração livre. Funciona como "lixeira lipídica" ou "lipid sink". Bolus inicial: 1,5 mL/kg em 1 minuto, seguido de infusão contínua a 0,25 mL/kg/min. Pode repetir bolus se persistir instabilidade. É o tratamento que reverteu desfechos historicamente fatais.
11 · A técnica
Como infiltrar bem
Pequenos detalhes técnicos determinam se o paciente sai dizendo "nem senti" ou "doutor, doeu muito". A diferença entre o anestesista de elite e o anestesista do corredor está nesses minutos.
- Antissepsia do local Clorexidina ou PVPI. Aguarde secar.
- Agulha de pequeno calibre 25G ou 27G (insulina, quando possível). Quanto mais fina, menos dor à punção.
- Aspiração antes da injeção Puxe o êmbolo. Se vier sangue, recue e reposicione. Se vier ar (vácuo), pode injetar.
- Injeção lenta Volume grande de uma vez = dor intensa. Devagar dói menos e o anestésico já começa a agir no início, anestesiando o trajeto seguinte.
- Anestesia em leque Sem retirar a agulha, mude a direção dentro do tecido — anestesie para um lado, depois para o outro. Evita múltiplas picadas.
- Reposicione na zona já anestesiada Quando precisar tirar a agulha e furar de novo, entre em borda já anestesiada. O paciente não sente a nova picada.
- Aspirar de novo em cada nova posição Toda vez que mudar a direção dentro do tecido, repita a aspiração antes de injetar.
Estratégias para não arder
A solução de anestésico local é ácida (pH ~5), por isso arde ao injetar. Quatro técnicas para minimizar:
- Agulha fina — 27G ou 30G. A picada em si dói menos.
- Injeção lenta — dilui a sensação ácida no tempo.
- Adicionar bicarbonato — alcaliniza a solução, reduz a ardência. Bônus: acelera o início de ação.
- Anestésico tópico antes — EMLA (lidocaína + prilocaína em creme). Aplicar 60 minutos antes do procedimento sob curativo oclusivo. Anestesia a pele, e a picada da agulha não dói.
EMLA — quando vale a pena
Crianças, procedimentos em mucosas, biópsias em pele sensível (glande, mama, face), pacientes ansiosos. O EMLA é creme tópico de lidocaína + prilocaína a 2,5% cada. Aplicar 30-60 minutos antes, com filme oclusivo. Anestesia a pele em ~5 mm de profundidade. Você ainda pode precisar de infiltração para procedimento mais profundo, mas a picada inicial passa a ser indolor.
Bloqueio digital — o exemplo clássico
Cirurgia de unha encravada não se anestesia no local da unha. O subcutâneo da ponta do dedo é firme — o anestésico não se distribui bem, dói para injetar e o efeito é mau. Anestesia-se a base do dedo:
- Identifique os dois nervos digitais — um medial, outro lateral, correndo ao lado das falanges.
- Punção lateral profunda Insira a agulha lateralmente na base do dedo, na altura da articulação metacarpofalangeana. Aspire, injete 1-2 mL.
- Punção medial profunda Repita do outro lado.
- Infiltração superficial em anel Pequeno volume circundando o dedo para pegar fibras dorsais e palmares acessórias.
- Sem vasoconstritor! Lidocaína pura. A regra das extremidades.
12 · Anestesia tópica
Quando a agulha nem precisa entrar
Existem situações em que o anestésico age sem injeção. Mucosas absorvem bem; pele íntegra absorve mal — mas há truques.
Apresentações tópicas
- Lidocaína gel 2% Mucosas — uretra (passagem de sonda vesical), nariz (sonda nasogástrica), boca, faringe. Tem dupla função: anestesia + lubrificação.
- Lidocaína spray 10% Orofaringe (intubação acordada, endoscopia, broncoscopia).
- EMLA creme (lidocaína 2,5% + prilocaína 2,5%) Pele íntegra. Absorção lenta — exige 60 minutos sob filme oclusivo. Anestesia até 5 mm de profundidade.
- Solução de lidocaína viscosa Bochecho para anestesia oral antes de procedimentos dentários ou endoscopia.
Cuidado com a área de aplicação
EMLA em grandes áreas (extremidades inteiras, dorso) pode causar absorção sistêmica significativa e toxicidade — especialmente em crianças. Use em áreas pequenas (até ~600 cm²) e respeite o tempo máximo de oclusão (60-90 min para adultos, menos para crianças).
EMLA e meta-hemoglobinemia prilocaína em criança pequena
A prilocaína (componente do EMLA) tem um metabólito — a o-toluidina — que oxida a hemoglobina e pode causar meta-hemoglobinemia. Em recém-nascidos, lactentes e em pacientes com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), o risco é maior. Cianose central com SpO₂ baixa que não melhora com O₂ → suspeitar.
Tratamento: azul de metileno 1-2 mg/kg IV. Em criança pequena, use EMLA com parcimônia e em área restrita.
13 · Memorial
O suprassumo — 15 mandamentos
Se você esquecer tudo o resto, leve estes quinze. É a destilação do que separa o aluno bom do médico bom no uso de anestésico local.
Os 15 pontos que não podem falhar
- Anestésico local bloqueia canal de sódio voltagem-dependente. Sem despolarização, não há condução. Sem condução, não há dor.
- Hierarquia de fibras: autonômica → dor/temperatura → tato/pressão → propriocepção → motora. Dose pequena bloqueia só dor; dose alta bloqueia tudo.
- Três partes da molécula: anel aromático (lipofílico, dá potência) + cadeia (éster ou amida) + grupo amino (hidrofílico, dá latência).
- Amidas têm dois "i" no nome (lidocaína, bupivacaína, ropivacaína) — metabolismo hepático, seguras. Ésteres têm um só "i" — quase em desuso.
- pKa controla latência, lipossolubilidade controla potência, ligação proteica controla duração. A regra-mestra.
- Lidocaína — padrão do ambulatório. Latência ~30s, duração 1-2h (3-4h com vaso). Pode ser usada por estudante.
- Bupivacaína — bloqueios prolongados, raquianestesia. Cardiotóxica. Apenas centro cirúrgico.
- Ropivacaína — substituto seguro da bupivacaína. Padrão da analgesia de parto: menos cardiotoxicidade, menos bloqueio motor.
- Em abscesso, anestésico falha — pH ácido aumenta forma ionizada. Solução: bicarbonato, bloqueio à distância, ou esperar mais tempo.
- Vasoconstritor (adrenalina) traz 3 vantagens: menos sangramento, maior duração, menor toxicidade. Mas nunca em extremidade (dedo, pênis, orelha, nariz).
- Lidocaína "5 sem, 7 com": 5 mg/kg sem vaso; 7 mg/kg com vaso. Bupivacaína: 2 sem, 3 com.
- Conversão de %: multiplique a porcentagem por 10 e tem mg/mL. Lido 2% = 20 mg/mL.
- Para 70 kg, lido 2% sem vaso = 17,5 mL máx. Memorize esse padrão e ajuste por regra de três.
- Toxicidade sistêmica (LAST): dormência de língua + gosto metálico + zumbido = pare. Pode evoluir para convulsão e arritmia ventricular. Lidocaína mata por arritmia em superdose, e trata arritmia em dose baixa.
- Antídoto da LAST: emulsão lipídica 20% (Intralipid), bolus 1,5 mL/kg + infusão. Aspirar antes de cada injeção previne a maioria dos casos.
A diferença entre remédio e veneno é a dose. Em anestésico local, a mesma molécula trata arritmia e mata por arritmia. O cirurgião sábio respeita os miligramas — porque a química, na cabeceira do paciente, é implacável.
Quer mais como este?
Esse guia faz parte da biblioteca do MedCaju — questões comentadas, simuladores cirúrgicos e mapas mentais de farmacologia clínica.
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