MedCaju · Farmacologia cirúrgica · Manual de bolso

Anestésicos
locais

Da cocaína da Primeira Guerra à lidocaína do plantão, da química do canal de sódio ao Ronaldo Fenômeno na final de 98 — tudo o que você precisa para anestesiar com segurança, calcular a dose e reconhecer a toxicidade.

Leitura · ~35 min Nível · clínico cirúrgico Atualizado · 2026 Foco · prova + plantão
01 · Por onde começar

O que é um anestésico local

Em uma frase: drogas que produzem inibição temporária e reversível da condução do estímulo nervoso. Tudo o que vem depois é detalhe técnico — mas todo o detalhe importa.

Anestésico local é o fármaco mais usado pelo cirurgião na vida prática. Vai tirar unha encravada, drenar abscesso, retirar nevo, queimar verruga, suturar laceração? Anestesia local. Da pequena cirurgia ambulatorial ao bloqueio do neuroeixo (raquianestesia e peridural), são as mesmas drogas — muda só o local de injeção e a indicação.

A definição que organiza tudo

Temporária e reversível — não confunda com analgésico nem com opioide

O anestésico local bloqueia a condução do estímulo nervoso. Se fosse irreversível, bastaria cortar o nervo — mas aí ninguém voltaria a sentir. O fármaco devolve a função em poucas horas. Ele não é analgésico (não age no SNC), não é anti-inflamatório (não toca em COX). É um bloqueador de canal de sódio voltagem-dependente, aplicado na hora e no lugar.

O que o anestésico local bloqueia

Em doses crescentes, o bloqueio é sequencial e seletivo. Esta hierarquia é a base para entender por que a parturiente em peridural "anda" mas não sente dor, e por que o paciente do dentista fica com a boca "troncha":

Aplicação clínica imediata

Em pequeno procedimento com dose baixa de lidocaína, o paciente não sente dor mas pode sentir contração muscular se você usar bisturi elétrico — o calor não passa pelas fibras Aδ/C bloqueadas, mas a corrente elétrica ativa o músculo abaixo (fibra motora exige dose maior). É a hierarquia das fibras em ação.

02 · Mecanismo de ação

O canal de sódio — alvo único, efeito profundo

Todo anestésico local tem um único alvo molecular: o canal de sódio voltagem-dependente do axônio. Bloqueado o canal, não há despolarização. Sem despolarização, não há condução. Sem condução, não há dor.

SEM ANESTÉSICO · CANAL ABRE AXÔNIO Na⁺ despolariza DOR PASSA estímulo conduzido até o córtex COM ANESTÉSICO · CANAL BLOQUEADO AXÔNIO AL Na⁺ DOR PARA estímulo não chega ao cérebro UM ÚNICO ALVO · UM ÚNICO EFEITO · UM ÚNICO MECANISMO
Fig. 1 — O anestésico local liga-se à face interna do canal de sódio voltagem-dependente, no axônio. Sem influxo de Na⁺, não há despolarização. Sem despolarização, não há potencial de ação. Sem potencial de ação, a dor não passa.

Gerar dor e conduzir dor — duas coisas diferentes

O anestésico local pode atuar nos dois pontos da via dolorosa:

Exemplo cirúrgico clássico

Cirurgia plástica de lábio inferior. Em vez de injetar no lábio (que incha, distorce o tecido, atrapalha a estética e exige muito anestésico), o cirurgião injeta no forame mentoniano, onde sai o nervo mentoniano. O estímulo doloroso é gerado no lábio quando a lâmina corta — mas é interceptado no forame e nunca chega ao córtex. Mesmo princípio do bloqueio do plexo braquial e da raquianestesia.

03 · Estrutura química

Três partes, três funções

Todo anestésico local tem a mesma arquitetura molecular. Cada parte determina uma propriedade clínica — potência, latência, duração. Decora a anatomia da molécula e você decora a farmacologia inteira.

ANEL LIPOFÍLICO → POTÊNCIA éster / amida CADEIA METABOLISMO → CLASSE N amino HIDROFÍLICO → LATÊNCIA (pKa) ANEL LIPOFÍLICO + CADEIA + GRUPO AMINO HIDROFÍLICO
Fig. 2 — Arquitetura universal do anestésico local. Anel aromático lipofílico → potência. Cadeia intermediária (éster ou amida) → metabolização. Grupo amino terciário hidrofílico → equilíbrio iônico (pKa) → latência.

Éster ou amida — a divisão clínica

A cadeia intermediária define duas grandes classes:

Ésteres

Cocaína, procaína, tetracaína, benzocaína. Metabolizados por esterases plasmáticas. Geram PABA como metabólito → maior risco alérgico. Hoje quase não se usa em injeção.

Amidas (uso atual)

Lidocaína, bupivacaína, ropivacaína, prilocaína, mepivacaína, articaína. Metabolização hepática (CYP). Baixo risco alérgico. Todas têm dois "i" no nome.

Mnemônico MedCaju

Conte os "i" — é como diferenciar amida de éster

2iAmidas têm dois "i" no nome: lidocaina, bupivacaina, ropivacaina. Metabolismo hepático, seguras, modernas. 1iÉsteres têm apenas um "i": procaina, tetracaina, benzocaina, cocaina. Metabolismo plasmático, mais alergênicas, em desuso.
04 · Linha do tempo

Da cocaína à ropivacaína

Cada droga corrigiu o defeito da anterior. O nome "caína" no final é a herança genealógica — todos derivam, em última instância, da molécula da cocaína.

Por que todos terminam em "caína"

O sufixo "-caína" é genealógico. Toda a família — lidocaína, bupivacaína, ropivacaína, procaína, tetracaína, articaína — descende da estrutura química básica da cocaína. A indústria foi sintetizando análogos que preservassem o efeito anestésico local mas eliminassem dependência, toxicidade cardiovascular e estímulo do SNC.

05 · Os quatro que importam

Lidocaína, bupivacaína, ropivacaína — e a procaína de museu

A maioria dos plantões resolve com três fármacos. Saber quando trocar lidocaína por bupivacaína e quando preferir ropivacaína à bupivacaína é o que separa o cirurgião do ambulatório do cirurgião do centro cirúrgico.

FármacoLatênciaDuraçãoPotênciaUso clínico
Procaína2-5 min30-60 minBaixa (1×)Praticamente em desuso. Histórico.
Lidocaína~30 segundos1-2 h (c/ vaso: 3-4 h)Moderada (4×)Padrão da pequena cirurgia ambulatorial.
Bupivacaína5-10 min4-8 h (c/ vaso)Alta (16×)Bloqueios prolongados, raquianestesia. Cardiotóxica.
Ropivacaína5-10 min3-6 h (c/ vaso)Alta (14×)Analgesia de parto, peridural. Menor cardiotoxicidade e menor bloqueio motor.

Duração comparativa do efeito anestésico

Procaína
30-60 min
Lidocaína
1-2 h
Ropivacaína
3-6 h
Bupivacaína
4-8 h

Quando escolher cada uma

Lidocaína

Pequena cirurgia ambulatorial — nevo, cisto, unha encravada, abscesso, sutura. Latência praticamente imediata (~30 segundos). Segura — até estudante pode usar com supervisão. Disponível em concentrações de 0,5%, 1% e 2% (a mais comum). Pode sair do centro cirúrgico.

Bupivacaína

Cirurgia prolongada, raquianestesia, peridural, bloqueios periféricos longos. Mais potente — você usa menor volume para mesmo efeito. Restrita ao centro cirúrgico. Cardiotóxica em superdose — não circula em ambulatório.

Ropivacaína

Quando o paciente é cardiopata e você precisa do tempo de duração da bupivacaína. Padrão para analgesia de parto — alivia a dor mas a parturiente continua "fazendo força" porque o bloqueio motor é menor.

Procaína

Quase em desuso. Curtíssima duração, alergia frequente (PABA). Citada por valor histórico — sucesso da Primeira Guerra Mundial.

Recall ativo
Por que a ropivacaína é preferida à bupivacaína para analgesia de parto?
Toque para revelar
Por duas razões: (1) menor cardiotoxicidade em caso de injeção intravascular inadvertida — crítico em obstetrícia, onde se usa cateter peridural por horas; e (2) menor bloqueio motor proporcional ao bloqueio sensitivo — a parturiente perde a dor mas mantém força muscular pélvica suficiente para "puxar" o bebê. A bupivacaína bloqueia motor demais para esse fim. Por isso ropivacaína é a queridinha da obstetrícia moderna.
06 · As três propriedades

pKa, lipossolubilidade e ligação proteica

Três propriedades físico-químicas determinam tudo o que o anestésico local faz na clínica. Decora cada uma com a função que ela controla — e você nunca mais precisa decorar tabela.

pKa próximo de 7,4 LATÊNCIA início de ação LIPO- SOLUBILIDADE anel aromático POTÊNCIA dose necessária LIGAÇÃO PROTEICA % ligado DURAÇÃO tempo de ação TRÊS PROPRIEDADES · TRÊS EFEITOS CLÍNICOS
Fig. 3 — A trinca farmacológica do anestésico local. Cada propriedade físico-química governa um único efeito clínico — uma correspondência direta, sem sobreposição.

pKa → latência (tempo de início)

O pKa é o pH em que metade da droga está na forma ionizada (não atravessa membrana) e metade na forma neutra (atravessa). Quanto mais próximo o pKa estiver do pH do tecido (7,4), mais fração neutra disponível e mais rápido o efeito.

Lipossolubilidade → potência (dose)

Quanto mais lipossolúvel o anel aromático, mais facilmente a droga penetra na bicamada lipídica do neurônio. Resultado: menor dose consegue o mesmo efeito.

É por isso que bupivacaína a 0,25% tem efeito equivalente a lidocaína a 2% — a bupi é 4-8 vezes mais lipossolúvel, portanto mais potente, e exige menor concentração.

Ligação proteica → duração

O anestésico ligado à proteína do canal de sódio permanece grudado mais tempo. Quanto maior a fração ligada às proteínas, maior a duração do efeito.

A regra-mestra

Memorize a correspondência, não os números

Você nunca precisa decorar o pKa exato da bupivacaína. Você precisa saber que pKa controla latência, lipossolubilidade controla potência e ligação proteica controla duração. Com essas três frases, qualquer questão de prova sobre propriedades físico-químicas dos AL é resolvida por raciocínio.

Recall ativo
Você é farmacêutico industrial e precisa criar um anestésico local que dure 24 horas. Qual propriedade físico-química você vai modificar?
Toque para revelar
Você precisa aumentar a ligação proteica. Lipossolubilidade aumentada deixaria a droga mais potente (menor dose, não maior duração). pKa próximo de 7,4 daria latência rápida (não duração longa). Só a ligação proteica determina por quanto tempo a molécula permanece ancorada ao canal de sódio — e portanto por quanto tempo o paciente fica anestesiado.
07 · O pH local

Por que o anestésico falha no abscesso

"Aqui a gente não anestesia abscesso, não adianta." Quem fala isso faltou a aula. Existem três estratégias para anestesiar tecido inflamado — e todas são farmacologia aplicada.

TECIDO NORMAL · pH 7,4 N N N N I⁺ muita forma neutra (N) atravessa membrana → anestesia FUNCIONA ABSCESSO · pH 5-6 ÁCIDO I⁺ I⁺ I⁺ I⁺ I⁺ N muita forma ionizada (I⁺) não atravessa membrana → não age FALHA
Fig. 4 — O anestésico local é base fraca. Em pH ácido (abscesso), a fração ionizada (I⁺) domina — ela não atravessa a membrana do neurônio. A fração neutra (N) some, e o efeito anestésico falha. Solução: alcalinizar o meio, anestesiar à distância ou esperar mais tempo.

As três estratégias para anestesiar tecido inflamado

O mito do plantão

"Aqui não dá anestesia em abscesso." Quem diz isso está farmacologicamente errado. O que muda é a estratégia: alcaliniza, bloqueia à distância ou espera. Drenar abscesso sem anestesia, com paciente gritando, não é tradição — é desconhecimento de farmacologia básica.

08 · Com ou sem vaso

A pergunta da enfermeira

"Doutor, vai usar com ou sem vaso?" Por trás dessa pergunta cotidiana mora a farmacologia da adrenalina associada ao anestésico — três vantagens e uma proibição que pode salvar o dedo do seu paciente.

As três vantagens de associar adrenalina

A contraindicação que mata extremidade regra das pontas

Nunca use vasoconstritor em região de circulação terminal: dedo (mão e pé), pênis, orelha, ponta do nariz. A circulação dessas regiões é do tipo terminal — uma única artéria, sem colaterais robustas. Vasoconstrição prolongada pode causar isquemia e necrose, especialmente em diabéticos, vasculopatas e idosos com aterosclerose.

Em cirurgia de unha encravada, dedo, pênis, orelha: lidocaína pura, sem adrenalina.
Detalhe que ninguém ensina

A lidocaína isolada tem efeito vasodilatador (parece contraditório, mas é farmacologia conhecida). Quando você associa adrenalina, a vasoconstrição da adrenalina supera a vasodilatação da lidocaína — mas leva cerca de 2 minutos para o efeito hemostático ficar evidente. Se está fazendo cirurgia em couro cabeludo e quer aproveitar o efeito hemostático: anestesie, espere 2 minutos, depois corte.

Doses máximas — com e sem vasoconstritor

FármacoSem vasoCom vaso (adrenalina)
Lidocaína4,5 mg/kg (máx 300 mg)7 mg/kg (máx 500 mg)
Bupivacaína2 mg/kg (máx 175 mg)3 mg/kg (máx 225 mg)
Ropivacaína3 mg/kg (máx 200-225 mg)(adrenalina não muda muito)
Mnemônico MedCaju

Lidocaína — "5 sem, 7 com"

5Sem vaso: 5 mg/kg (alguns autores usam 4,5 — arredonde para 5 no plantão). 7Com vaso: 7 mg/kg. 2/3Bupivacaína: 2 sem, 3 com.
09 · O cálculo

Quantos mL você pode injetar

Errar a dose máxima é a causa #1 de toxicidade sistêmica. Decora o cálculo e nunca mais reza para o paciente sair vivo do procedimento.

A regra fundamental

O que significa "lidocaína 2%"

Concentração em porcentagem significa gramas por 100 mL. Logo:

Lidocaína 2% = 2 g em 100 mL = 2000 mg em 100 mL = 20 mg/mL

Essa é a regra de conversão que você precisa de memória: multiplica a concentração por 10 e você tem mg/mL. Lidocaína 1% = 10 mg/mL. Bupivacaína 0,5% = 5 mg/mL. Bupivacaína 0,25% = 2,5 mg/mL.

Caso clínico — exatamente como cai em prova

Paciente de 70 kg vai retirar nevo no 3º quirodáctilo direito. Lidocaína 2% sem vaso. Qual o volume máximo?

1. Dose máx: 5 mg/kg × 70 kg = 350 mg
2. Lido 2%: 2 g/100 mL = 2000 mg/100 mL = 20 mg/mL
3. Volume: 350 mg ÷ 20 mg/mL = 17,5 mL
VOLUME MÁXIMO SEGURO 17,5 mL

Na prática, para tirar um nevo bastam 2-3 mL. O cálculo importa em procedimentos maiores — sutura de laceração extensa, drenagem de abscesso grande, cirurgia de hérnia inguinal com anestesia local. Anote a dose acumulada durante o procedimento, especialmente se precisar reanestesiar.

Regra de três para qualquer peso

Se um paciente de 70 kg pode receber 17,5 mL de lido 2% sem vaso, um paciente de 35 kg recebe a metade (8,75 mL), um de 85 kg recebe ~21 mL. Memorize o "padrão 70 kg = 17,5 mL" e ajuste por regra de três — é mais rápido que refazer o cálculo todo na hora.

Doses máximas de referência por peso

PesoLido 2% s/ vasoLido 2% c/ vasoBupi 0,5% s/ vaso
50 kg12,5 mL17,5 mL20 mL
60 kg15 mL21 mL24 mL
70 kg17,5 mL24,5 mL28 mL
80 kg20 mL28 mL32 mL
90 kg22,5 mL31,5 mL35 mL (máx 35)
10 · LAST — toxicidade sistêmica

Por que o Ronaldo convulsionou na final de 98

Toxicidade sistêmica de anestésico local — LAST, Local Anesthetic Systemic Toxicity — é raríssima na anestesia infiltrativa, mas devastadora quando acontece. A causa quase sempre é uma de duas: dose alta demais ou injeção intravascular inadvertida.

O caso clínico mais famoso do mundo

Final da Copa do Mundo de 1998, Brasil × França. Algumas horas antes do jogo, Ronaldo "Fenômeno" tem uma convulsão nos vestiários. A versão oficial fala em "nervosismo". A versão farmacológica é outra: Ronaldo jogava com o joelho danificado e era rotineiro infiltrar anestésico local no joelho antes das partidas para anestesiar a dor. Provavelmente houve injeção intravascular acidental ou dose acima do permitido, gerando toxicidade sistêmica neurológica. Ronaldo nunca mais teve outra convulsão — não era epilepsia. Era LAST.

Os sinais clínicos — em ordem de gravidade

O paradoxo da lidocaína

O melhor exemplo de "a diferença entre remédio e veneno é a dose"

A lidocaína em dose baixa é antiarrítmico — usada em arritmias ventriculares (classe IB de Vaughan-Williams). Em dose alta, a mesma lidocaína causa arritmia ventricular grave, de difícil reversão, que pode matar o paciente. É o paradoxo farmacológico perfeito. A molécula é a mesma. O que muda é a concentração plasmática.

Prevenção — em duas linhas

Tratamento da LAST

Recall ativo
Qual o antídoto específico da toxicidade sistêmica por anestésico local, e qual seu mecanismo?
Toque para revelar
A emulsão lipídica a 20% (Intralipid) — solução de nutrição parenteral usada off-label como antídoto. Mecanismo: cria um compartimento lipídico no plasma que sequestra moléculas lipofílicas (como o anestésico) da fração livre. Funciona como "lixeira lipídica" ou "lipid sink". Bolus inicial: 1,5 mL/kg em 1 minuto, seguido de infusão contínua a 0,25 mL/kg/min. Pode repetir bolus se persistir instabilidade. É o tratamento que reverteu desfechos historicamente fatais.
11 · A técnica

Como infiltrar bem

Pequenos detalhes técnicos determinam se o paciente sai dizendo "nem senti" ou "doutor, doeu muito". A diferença entre o anestesista de elite e o anestesista do corredor está nesses minutos.

Estratégias para não arder

A solução de anestésico local é ácida (pH ~5), por isso arde ao injetar. Quatro técnicas para minimizar:

EMLA — quando vale a pena

Crianças, procedimentos em mucosas, biópsias em pele sensível (glande, mama, face), pacientes ansiosos. O EMLA é creme tópico de lidocaína + prilocaína a 2,5% cada. Aplicar 30-60 minutos antes, com filme oclusivo. Anestesia a pele em ~5 mm de profundidade. Você ainda pode precisar de infiltração para procedimento mais profundo, mas a picada inicial passa a ser indolor.

Bloqueio digital — o exemplo clássico

Cirurgia de unha encravada não se anestesia no local da unha. O subcutâneo da ponta do dedo é firme — o anestésico não se distribui bem, dói para injetar e o efeito é mau. Anestesia-se a base do dedo:

12 · Anestesia tópica

Quando a agulha nem precisa entrar

Existem situações em que o anestésico age sem injeção. Mucosas absorvem bem; pele íntegra absorve mal — mas há truques.

Apresentações tópicas

Cuidado com a área de aplicação

EMLA em grandes áreas (extremidades inteiras, dorso) pode causar absorção sistêmica significativa e toxicidade — especialmente em crianças. Use em áreas pequenas (até ~600 cm²) e respeite o tempo máximo de oclusão (60-90 min para adultos, menos para crianças).

EMLA e meta-hemoglobinemia prilocaína em criança pequena

A prilocaína (componente do EMLA) tem um metabólito — a o-toluidina — que oxida a hemoglobina e pode causar meta-hemoglobinemia. Em recém-nascidos, lactentes e em pacientes com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), o risco é maior. Cianose central com SpO₂ baixa que não melhora com O₂ → suspeitar.

Tratamento: azul de metileno 1-2 mg/kg IV. Em criança pequena, use EMLA com parcimônia e em área restrita.
13 · Memorial

O suprassumo — 15 mandamentos

Se você esquecer tudo o resto, leve estes quinze. É a destilação do que separa o aluno bom do médico bom no uso de anestésico local.

Os 15 pontos que não podem falhar

  1. Anestésico local bloqueia canal de sódio voltagem-dependente. Sem despolarização, não há condução. Sem condução, não há dor.
  2. Hierarquia de fibras: autonômica → dor/temperatura → tato/pressão → propriocepção → motora. Dose pequena bloqueia só dor; dose alta bloqueia tudo.
  3. Três partes da molécula: anel aromático (lipofílico, dá potência) + cadeia (éster ou amida) + grupo amino (hidrofílico, dá latência).
  4. Amidas têm dois "i" no nome (lidocaína, bupivacaína, ropivacaína) — metabolismo hepático, seguras. Ésteres têm um só "i" — quase em desuso.
  5. pKa controla latência, lipossolubilidade controla potência, ligação proteica controla duração. A regra-mestra.
  6. Lidocaína — padrão do ambulatório. Latência ~30s, duração 1-2h (3-4h com vaso). Pode ser usada por estudante.
  7. Bupivacaína — bloqueios prolongados, raquianestesia. Cardiotóxica. Apenas centro cirúrgico.
  8. Ropivacaína — substituto seguro da bupivacaína. Padrão da analgesia de parto: menos cardiotoxicidade, menos bloqueio motor.
  9. Em abscesso, anestésico falha — pH ácido aumenta forma ionizada. Solução: bicarbonato, bloqueio à distância, ou esperar mais tempo.
  10. Vasoconstritor (adrenalina) traz 3 vantagens: menos sangramento, maior duração, menor toxicidade. Mas nunca em extremidade (dedo, pênis, orelha, nariz).
  11. Lidocaína "5 sem, 7 com": 5 mg/kg sem vaso; 7 mg/kg com vaso. Bupivacaína: 2 sem, 3 com.
  12. Conversão de %: multiplique a porcentagem por 10 e tem mg/mL. Lido 2% = 20 mg/mL.
  13. Para 70 kg, lido 2% sem vaso = 17,5 mL máx. Memorize esse padrão e ajuste por regra de três.
  14. Toxicidade sistêmica (LAST): dormência de língua + gosto metálico + zumbido = pare. Pode evoluir para convulsão e arritmia ventricular. Lidocaína mata por arritmia em superdose, e trata arritmia em dose baixa.
  15. Antídoto da LAST: emulsão lipídica 20% (Intralipid), bolus 1,5 mL/kg + infusão. Aspirar antes de cada injeção previne a maioria dos casos.
A diferença entre remédio e veneno é a dose. Em anestésico local, a mesma molécula trata arritmia e mata por arritmia. O cirurgião sábio respeita os miligramas — porque a química, na cabeceira do paciente, é implacável.

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Esse guia faz parte da biblioteca do MedCaju — questões comentadas, simuladores cirúrgicos e mapas mentais de farmacologia clínica.

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