MedCaju · Farmacologia · Manual de bolso

AINEs
a cascata que governa quase tudo

Do salgueiro de 1899 ao Celebra dos anos 2000: a história, o mecanismo, as duas COX, os usos clínicos e as armadilhas que matam paciente no plantão. Em uma página só.

Leitura · ~30 min Nível · clínico Atualizado · 2026 Foco · prova + prática
01 · Por onde começar

Uma única cascata, oitenta por cento das prescrições

Quando bate o joelho na quina, quando tem cólica, quando dá febre, quando coagula, quando o estômago se autodigere, quando o paciente infarta — em todos esses momentos existe uma só cascata bioquímica trabalhando: o ácido araquidônico virando prostaglandinas via cicloxigenase.

Os AINEs (anti-inflamatórios não esteroidais) atuam nessa cascata. Naproxeno, cetoprofeno, ibuprofeno, celecoxibe, nimesulida, paracetamol, dipirona, ácido acetilsalicílico, meloxicam, piroxicam, tenoxicam — todos batem aqui.

Por que isso importa

80% das prescrições de urgência e emergência

Em pronto-socorro, é raro um paciente sair sem algum medicamento que afete essa cascata, direta ou indiretamente. Dominar o mecanismo da COX é dominar boa parte da prescrição clínica do dia a dia — e quase todas as pegadinhas de prova de farmacologia.

02 · A cascata mestre

Do ácido araquidônico à prostaglandina

A membrana celular guarda um fosfolipídio especial. Quando a célula é lesada, ele é liberado e vira o substrato da farmacologia inteira da inflamação.

MEMBRANA · FOSFOLIPÍDEOS · ÁCIDO ARAQUIDÔNICO (amarelo) FOSFOLIPASE A2 lesão / inflamação ÁCIDO ARAQUIDÔNICO COX LOX CICLOXIGENASE COX-1 · COX-2 LIPOXIGENASE LOX PGH2 (intermediário) → PROSTAGLANDINAS DOR · FEBRE EDEMA · MUCO TROMBOXANOS PLAQUETAS ↑ VASOCONSTRIÇÃO PROSTACICLINAS PLAQUETAS ↓ VASODILATAÇÃO LEUCOTRIENOS BRONCOCONSTRIÇÃO ASMA AINEs inibem A ÁRVORE INTEIRA DA INFLAMAÇÃO PARTE DESTE ÚNICO LIPÍDEO
Fig. 1 — Cascata do ácido araquidônico. A fosfolipase A2 libera o substrato; COX e LOX o convertem em prostanoides (PG, TX, PGI) e leucotrienos. Os AINEs inibem a COX.

A sequência em cinco passos

A regra de ouro da farmacologia

Os fármacos não produzem efeitos novos no corpo. Eles só modulam mecanismos que já existem. Ao desligar a COX, o AINE desliga simultaneamente tudo que dependia dela — inclusive funções fisiológicas vitais, como a proteção gástrica e a função plaquetária.

03 · As duas COX

COX-1 e COX-2 — casa e incêndio

A diferença entre as duas isoformas é a base de tudo: efeito terapêutico, efeito adverso, escolha do fármaco para o paciente cardiopata, para o nefropata, para o gastrite crônico.

COX-1 CONSTITUTIVA · "DA CASA" Estômago muco + bicarbonato Plaquetas tromboxano A2 Rim perfusão glomerular COX-2 INDUZIDA · "DO INCÊNDIO" Inflamação dor · edema · calor Febre PGE2 hipotalâmica Endotélio prostaciclina (PGI2) DUAS ISOFORMAS · UMA CASCATA EXCEÇÃO: O ENDOTÉLIO É CONSTITUTIVAMENTE COX-2 — POR ISSO INIBIDORES SELETIVOS DÃO TROMBOSE
Fig. 2 — COX-1 mantém o "estado de paz" do corpo (muco gástrico, agregação plaquetária, perfusão renal). COX-2 é a chama do incêndio inflamatório — mas no endotélio, paradoxalmente, é ela quem protege.

COX-1 — constitutiva

Está ligada o tempo todo. Mantém funções vitais e basais: produção de muco e bicarbonato gástrico, tromboxano plaquetário (coagulação), perfusão glomerular. Inibir COX-1 = úlcera + sangramento + lesão renal.

COX-2 — induzida

Quase ausente em repouso. Ativada por interleucina-1β e IL-6 via NF-κB quando há lesão. Produz as prostaglandinas da dor, febre e edema. Inibir COX-2 = anti-inflamatório, antitérmico, analgésico.

A pegadinha do endotélio

Por que inibidor seletivo de COX-2 causa infarto

Existe uma exceção crucial: no endotélio vascular, quem é constitutiva é a COX-2, não a COX-1. O endotélio usa COX-2 para produzir prostaciclina (PGI2), que é anticoagulante e vasodilatadora. Quando a Pfizer lançou o celecoxibe (Celebra), inibidor seletivo de COX-2, desligou junto a proteção endotelial. Pacientes cardiopatas começaram a infartar e a ter AVC. O rofecoxibe (Vioxx) foi retirado do mercado em 2004 por essa razão.

Mnemônico MedCaju

COX-1 é Casa, COX-2 é Combate

1Casa — Constitutiva, Constante, Cuida do estômago, Coagulação, Cardioproteção. 2Combate — induzida na inflamação, Cólica, Calor, Cefaleia. Mas no endotélio também é Constitutiva — a pegadinha que matou pacientes do Vioxx.
04 · Linha do tempo

Do salgueiro ao celecoxibe

A história dos AINEs é a história de cada classe tentando consertar o erro da anterior. Acidez → ulcera → tromboxano → infarto → e o ciclo recomeça.

Lateral — o Citotec / misoprostol

Para tentar resolver o problema gástrico dos AINEs sem mexer no mercado da Aspirina, a Pfizer criou um análogo sintético da PGE2 — o misoprostol, vendido como Citotec. Seria tomado junto ao AINE para "repor" a prostaglandina protetora. Funcionou. Mas a PGE2 também contrai o útero gravídico, e o medicamento virou sinônimo de aborto. No Brasil, o uso é hospitalar e regulamentado — Citotec contrabandeado do Paraguai virou problema de saúde pública nos anos 90.

05 · Mecanismo de ação

Como o AINE realmente alivia a dor

Existe uma confusão clássica entre alunos: "AINE é analgésico". Tecnicamente, não. AINE é um dessensibilizador do nervo da dor. A diferença muda a forma de pensar o medicamento.

SEM AINE · COM PROSTAGLANDINA PG toque leve → DOR alodinia Limiar de excitabilidade ↓ prostaglandinas abrem canais de Na⁺ COM AINE · SEM PROSTAGLANDINA toque leve → sem dor Limiar de excitabilidade normal nervo precisa de estímulo real para disparar
Fig. 3 — A prostaglandina não causa dor diretamente. Ela sensibiliza o nervo: reduz o limiar de excitabilidade. Removida a prostaglandina (com AINE), o nervo volta ao normal — e a dor inflamatória cessa.

O que a prostaglandina faz no nervo

A prostaglandina liga-se a receptores prostanoides no neurônio sensitivo. Isso ativa proteína Gs → aumenta AMPc → fosforila e facilita a abertura de canais de sódio voltagem-independentes. Resultado: o limiar de despolarização cai. Um estímulo que normalmente não doeria — um toque, um vento, o próprio edema comprimindo o tecido — agora dispara dor. Esse fenômeno chama-se alodinia.

A grande distinção conceitual

AINE não é analgésico de verdade — é dessensibilizador

Se você tomar uma dose altíssima de AINE e enfiar uma agulha no dedo, vai doer igual. O AINE não muda a dinâmica do neurônio da dor. O que ele faz é remover o agente sensibilizante (a prostaglandina). Em dor sem inflamação, o efeito é mínimo. Em dor inflamatória (joelho batido, cólica, dente), o efeito é dramático.

O analgésico real é o opioide: abre canais de potássio no neurônio, hiperpolariza a célula, e o nervo simplesmente não consegue mais responder ao estímulo. Mecanismo diferente, resultado diferente.

Recall ativo
Por que o AINE alivia a dor da cólica menstrual, mas não alivia a dor de uma fratura óssea exposta?
Toque para revelar
A cólica menstrual é dor inflamatória pura — endométrio liberando prostaglandinas que sensibilizam o nervo uterino. Remover a prostaglandina remove a dor. Já a fratura óssea exposta gera dor por estímulo mecânico direto — o nervo está sendo lesado e disparando. Mesmo sem prostaglandinas, o estímulo é forte o suficiente para gerar potencial de ação. AINE pouco resolve. Aqui é opioide.
06 · Febre — caso especial

Por que a febre existe e por que tratar

A febre é mecanismo imunológico ancestral. Mas, na medicina moderna, o porto-e-porto diz: o ganho clínico não compensa o desconforto. Tratamos.

LPS · IL-1β · IL-6 pirógenos HIPOTÁLAMO área pré-óptica COX-3 · PGE2 set point ↑ 39 °C tremores · vasoconstrição piloereção · TSH ↑ AINE / dipirona inibe COX-3 PIRÓGENOS → COX-3 HIPOTALÂMICA → PGE2 → SET POINT TÉRMICO ELEVADO
Fig. 4 — Mecanismo da febre. Pirógenos (LPS bacteriano, IL-1β, IL-6) atingem a área pré-óptica do hipotálamo, ativam uma COX especial ("COX-3") que produz PGE2, elevando o set point térmico. Paracetamol e dipirona atuam preferencialmente aqui.

A "COX-3" controversa

O paracetamol e a dipirona têm uma peculiaridade: são ótimos antitérmicos, mas péssimos anti-inflamatórios. Por quê? Porque atuam preferencialmente numa isoforma da cicloxigenase encontrada no hipotálamo — algumas literaturas chamam de COX-3. Ela é, na verdade, uma variante por splicing alternativo da COX-1, restrita ao SNC. A ciência ainda não bateu o martelo sobre o nome, mas o efeito clínico é claro:

A vantagem da dipirona — analgesia central

Paracetamol e dipirona têm equivalência antitérmica. Mas a dipirona é superior contra febre como sintoma — mialgia, cefaleia, artralgia que acompanham a febre — porque possui um efeito analgésico central próprio, atuando também em receptores opioidérgicos e canabinoides. Por isso o paciente diz "tomei dipirona e me senti melhor inteiro", não só sem febre.

Para o trabalho de casa

Os livros americanos clássicos (Goodman & Gilman, Katzung) não falam de dipirona — ela é banida nos EUA por risco de agranulocitose, mas é amplamente usada no Brasil. Pesquise para a próxima aula: dipirona, paracetamol, agranulocitose, hepatotoxicidade, N-acetilcisteína. Você vai prescrever dipirona a vida inteira. Conheça-a.

07 · O caso especial do AAS

Por que a aspirina fica sete dias

Todos os AINEs inibem a COX de forma reversível — exceto um. O AAS acetila quimicamente a enzima, inutilizando-a para sempre. Como a plaqueta não tem núcleo, não pode produzir nova COX. Resultado: efeito antiplaquetário de uma única dose dura uma semana inteira.

PLAQUETA · ANUCLEADA COX-1 ACETILADA Ac sem núcleo · não produz nova enzima vida útil = 7 DIAS vida média da plaqueta = duração do efeito UMA DOSE DE AAS BLOQUEIA A FUNÇÃO PLAQUETÁRIA POR 7 DIAS
Fig. 5 — O AAS acetila irreversivelmente a COX-1 da plaqueta. Como a plaqueta não tem núcleo, não há síntese proteica nova. O efeito antiagregante só passa quando o paciente repõe toda a sua massa plaquetária — cerca de 7 dias.
08 · Eixo de seletividade

Onde cada AINE se posiciona

A escolha do AINE para o seu paciente depende do perfil dele. Mais COX-1 = mais cardio-protetor e mais gastro-lesivo. Mais COX-2 = menos gástrico, mais cardio-agressivo.

Espectro de seletividade — do mais COX-1 ao mais COX-2
AASCOX-1 puro
Naproxenopredomina COX-1
Ibuprofenobalanceado
Diclofenacotende COX-2
CelecoxibeCOX-2 seletivo

Decidindo na clínica

Paciente cardiopata

Evitar coxibes (celecoxibe, etoricoxibe) e diclofenaco em uso crônico. Preferir naproxeno — é o de menor risco cardiovascular entre os AINEs não-seletivos. AAS em dose baixa pode ser mantido.

Paciente gastrite / HDA prévia

Evitar AAS e indometacina. Se AINE for indispensável, preferir coxib + inibidor de bomba de prótons. Cetoprofeno e diclofenaco são intermediários.

Paciente com dengue / arbovirose

Apenas paracetamol ou dipirona. AAS e demais AINEs estão proibidos — comprometem a função plaquetária e a perfusão renal, agravando complicações hemorrágicas e LRA.

Paciente nefropata

Idealmente, evitar AINEs. Eles reduzem a prostaciclina da arteríola aferente → vasoconstrição → cai TFG. Uso crônico contribui para LRA aguda e DRC. Se imprescindível: menor dose, menor tempo.

A lógica que resume o eixo

"Cardio-protetor e gastro-lesivo" ou "gastro-poupador e cardio-agressivo"

Não existe AINE perfeito. Inibir COX-1 protege o coração (antiagregação) mas agride o estômago. Inibir COX-2 poupa o estômago, mas tira a proteção endotelial e aumenta risco trombótico. É trade-off farmacológico permanente — escolha sempre baseada no paciente, não em moda terapêutica.

Recall ativo
Por que o cetorolaco (Toragesic) é considerado um vilão renal mesmo em poucos dias de uso?
Toque para revelar
O cetorolaco é um AINE não-seletivo extremamente potente — uma dose IV equivale a 6-12 mg de morfina em analgesia. Mas inibe agressivamente a COX-1 da arteríula aferente glomerular → vasoconstrição → queda dramática da perfusão renal. Em idosos, hipovolêmicos ou nefropatas, pode precipitar lesão renal aguda em 24-48 horas. Por isso o FDA limita uso a 5 dias. Eficácia analgésica brutal, mas perfil nefrotóxico que exige cautela.
09 · Efeitos adversos

Os quatro sistemas que sofrem

Memorizar efeito adverso de AINE não é decoreba. É consequência mecânica de cada COX bloqueada.

SistemaEfeito adversoMecanismo
GástricoGastrite, úlcera, HDA↓ PGE2 → ↓ muco e bicarbonato (COX-1)
RenalLRA, edema, hipertensão, hipercalemia↓ prostaciclina da arteríula aferente → ↓ TFG (COX-1 + COX-2)
CardiovascularIAM, AVC, trombose↓ PGI2 endotelial sem compensar tromboxano (coxibes)
HematológicoSangramento, equimose↓ tromboxano plaquetário — irreversível com AAS
HepáticoHepatite, hepatotoxicidadeIdiossincrática (nimesulida, diclofenaco) ou dose-dependente (paracetamol)
RespiratórioBroncoespasmo (AINE-induzido)↑ leucotrienos pela via LOX (desvio do substrato)
Hematológico raroAgranulocitoseDipirona — idiossincrática, mecanismo imunológico
Asma induzida por AINE doença de Samter

Pacientes com asma + polipose nasal + sensibilidade a AAS formam a tríade de Samter. Ao inibir a COX, o ácido araquidônico é desviado para a via LOX, produzindo excesso de leucotrienos → broncoespasmo grave, às vezes fatal. Pode acontecer com qualquer AINE não-seletivo.

Em asmático com história de reação a AINE: paracetamol, dipirona ou coxib. Nunca AAS, ibuprofeno ou diclofenaco.
Síndrome de Reye criança + AAS + vírus

Crianças com infecção viral (especialmente varicela e influenza) tratadas com AAS podem desenvolver encefalopatia aguda + esteatose hepática — a Síndrome de Reye. Mortalidade até 30%. O mecanismo envolve disfunção mitocondrial induzida pelo salicilato.

Nunca prescreva AAS para criança ou adolescente com quadro viral. Use paracetamol.
AINE em paciente desidratado LRA pré-renal

Em hipovolemia, o rim depende criticamente das prostaglandinas vasodilatadoras para manter perfusão glomerular. Tomar AINE nessa situação tira a única compensação → queda abrupta da TFG → LRA pré-renal. Idosos, vômito, diarreia, jejum prolongado, anestesia recente — todos cenários de risco.

Em paciente desidratado: hidrate primeiro, AINE depois. Ou não use.
10 · Memorial

O suprassumo — 12 mandamentos

Se você esquecer tudo o resto deste guia, leve estes doze. É a destilação final.

Os 12 pontos que não podem falhar

  1. A cascata mãe: ácido araquidônico → COX → prostaglandinas, tromboxanos, prostaciclinas. LOX → leucotrienos. AINEs inibem a COX.
  2. COX-1 é Casa: constitutiva, mantém muco gástrico, tromboxano plaquetário, perfusão renal.
  3. COX-2 é Combate: induzida na inflamação, faz dor, febre, edema. Exceção: no endotélio, é constitutiva — e produz prostaciclina (anticoagulante).
  4. AINE não é analgésico verdadeiro: dessensibiliza o nervo ao remover a prostaglandina. Analgésico real é o opioide (abre canais de K⁺).
  5. AAS é o único irreversível: acetila a COX. Como plaqueta não tem núcleo, o efeito antiagregante dura 7 dias.
  6. Síndrome de Reye: AAS + criança + vírus = encefalopatia + esteatose. Nunca em pediatria.
  7. Tríade de Samter: asma + polipose + sensibilidade a AAS. AINE não-seletivo desvia para LOX → broncoespasmo.
  8. Paracetamol e dipirona: atuam na COX hipotalâmica ("COX-3") → bom antitérmico, pouco anti-inflamatório, seguros em dengue e plaqueta.
  9. Dipirona ganha em febre como sintoma: tem analgesia central adicional (opioidérgica/canabinoide).
  10. Coxibes: poupam estômago mas aumentam risco cardiovascular (Vioxx foi retirado por isso em 2004). Cuidado em cardiopatas.
  11. Paciente desidratado + AINE = LRA: prostaglandina renal é a única compensação na hipovolemia. Hidrate antes.
  12. Em dengue, arbovirose, sangramento, gravidez (3º trimestre): apenas paracetamol ou dipirona. AINEs estão proibidos.
A diferença entre veneno e remédio é a dose. Em AINE, é também o paciente, o sistema poupado e o sistema sacrificado. Toda escolha é trade-off.

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