Clínica Médica · Medicina de Urgência · Capítulo
Tromboembolia
Pulmonar
Tríade de Virchow, fatores de risco, escore de Wells, D-dímero, angiotomografia e anticoagulação — a terceira causa de morte cardiovascular no Brasil.
Seção 1
Epidemiologia e
relevância clínica
A tromboembolia pulmonar é a terceira causa de morte cardiovascular, responsável por 25% de todas as mortes do mundo. É uma doença que perpassa todas as especialidades — cardiologia, cirurgia, terapia intensiva, ginecologia e ortopedia.
Estima-se que 25% de todas as mortes no mundo estejam relacionadas a trombose, o que inclui infarto do miocárdio, AVC isquêmico e TEP. Especificamente para TEP, é a terceira causa de morte cardiovascular, só perdendo para infarto e AVC.
A morte súbita "que nem passarinho" — a pessoa dormia, não acordava — pode, em muitos casos, ser atribuída a TEP maciça. A embolia pulmonar que obstrui o tronco da artéria pulmonar (embolia a cavaleiro) colapsa toda a circulação pulmonar em segundos, levando a parada cardiorrespiratória imediata.
TEP perpassa todas as especialidades
Cardiologia (trombos em câmaras), cirurgia geral (pós-operatório), ortopedia (artroplastia de quadril e joelho), ginecologia (gestação, contraceptivos), oncologia (neoplasias ativas), terapia intensiva (imobilização prolongada). Nenhum médico escapa de lidar com TEP.
Resumo — Seção 1
Seção 2
Tríade de Virchow
e fisiopatologia
Rudolf Virchow identificou em 1856 os três mecanismos que levam à formação de trombo venoso. A elegância da tríade é que ainda hoje, 170 anos depois, ela explica todos os casos de trombose — de TVP em paciente pós-operatório até trombo em COVID-19.
Do trombo venoso ao êmbolo pulmonar
Noventa por cento dos trombos que causam TEP originam-se nas veias dos membros inferiores — especialmente nas veias ilíacas e femorais. O trombo cresce, fragmenta-se e o êmbolo viaja pela circulação venosa até o átrio direito, ventrículo direito, artéria pulmonar e seus ramos.
Quanto maior o trombo, maior o impacto hemodinâmico. Um trombo que obstrui apenas ramos segmentares pode ser assintomático. Um trombo que sobe ao tronco da artéria pulmonar — embolia a cavaleiro — bloqueia toda a circulação pulmonar e causa morte súbita.
Infarto pulmonar hemorrágico
O infarto pulmonar provocado por TEP é hemorrágico — diferente do infarto miocárdico, que é isquêmico. Por quê? O trombo é metabolicamente ativo: libera serotonina, histamina e cininas que aumentam a permeabilidade vascular, fazendo o sangue vazar para dentro do alvéolo. Por isso o paciente pode ter hemoptise no TEP — expectoração de sangue.
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Seção 3
Fatores de
risco para TEP
A tríade de Virchow organiza todos os fatores de risco. Não é necessário decorar a lista completa — entender qual mecanismo cada fator ativa é mais eficaz e duradouro.
| Fator de risco | Mecanismo (Virchow) | Relevância |
|---|---|---|
| Imobilização prolongada | Estase | Maior causa hospitalar · UTI, pós-operatório, acamados |
| Cirurgia (especialmente ortopédica) | Lesão + estase | Artroplastia de joelho e quadril: altíssimo risco · profilaxia obrigatória |
| Neoplasia ativa | Hipercoagulabilidade | TVP pode preceder o diagnóstico de câncer em meses |
| Gravidez e puerpério | Hipercoag. + estase | Período perigestacional · heparina é a anticoagulação de escolha |
| Contraceptivos orais | Hipercoagulabilidade | Risco aumentado com altas doses de estrogênio · baixo com formulações modernas |
| Cateter venoso central | Lesão endotelial | Corpo estranho em veia central · trocar semanalmente em UTI |
| Trombofilia congênita | Hipercoagulabilidade | Fator V de Leiden · proteínas C e S · antitrombina III |
| COVID-19 | Hipercoag. + lesão | Estado hipercoagulante marcante · TEP foi causa importante de morte |
| Insuficiência cardíaca | Estase | Baixo débito → estase venosa periférica |
| Voo longo (>4h) — "Síndrome da classe econômica" | Estase | Imobilização + desidratação + pressão na fossa poplítea |
Síndrome da classe econômica
O nome não tem preconceito de classe — refere-se ao espaço reduzido nas fileiras de assentos, que comprime a fossa poplítea e impede a movimentação das pernas. Em voos acima de 4 horas, o risco de TVP aumenta progressivamente com a distância percorrida. Medidas preventivas: movimentar as pernas, usar meia de compressão, hidratação, aspirina preventiva em viagens de risco.
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Seção 4
Quadro clínico:
a tétrade
O TEP se apresenta de forma súbita — a pessoa estava bem e de um momento para o outro tem falta de ar intensa, dor torácica e ansiedade. A súbitaneidade é o sinal mais característico e diferencia o TEP de outras causas de dispneia.
Apresentação clínica
- Dispneia súbita — aparece de repente, sem pródromo gripal ou febre. Principal sintoma.
- Dor torácica pleurítica — dor que piora com a respiração profunda. O trombo geralmente atinge a periferia do pulmão, irritando a pleura adjacente
- Hemoptise — expectoração de sangue, por infarto pulmonar hemorrágico
- Ansiedade e sensação de morte iminente — hipoxemia e baixo débito ativam o sistema simpático
- Síncope — em TEP maciço, por colapso do débito cardíaco
- Taquicardia — resposta compensatória ao débito reduzido
Sinais de gravidade
- Síncope ou hipotensão — indica TEP maciço com colapso hemodinâmico
- Hipoxemia grave (SaO₂ < 90%)
- Taquicardia > 110 bpm persistente
- Disfunção de ventrículo direito ao ecocardiograma
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Seção 5
Escore de Wells:
probabilidade pré-teste
O escore de Wells transforma dados clínicos em probabilidade pré-teste para TEP. Com ele, dados qualitativos viram números, permitindo uma conduta padronizada e reduzindo a solicitação desnecessária de exames caros.
O escore de Wells é uma ferramenta de estratificação clínica. Cada critério tem um peso específico. A soma define se a probabilidade é baixa, intermediária ou alta — orientando se deve-se solicitar D-dímero, angiotomografia ou ambos.
| Critério clínico | Pontuação |
|---|---|
| Sinais e sintomas de TVP (edema unilateral de MMII, dor à palpação da panturrilha) | 3,0 pontos |
| TEP como diagnóstico mais provável (outros diagnósticos menos prováveis) | 3,0 pontos |
| Frequência cardíaca > 100 bpm | 1,5 pontos |
| Imobilização ou cirurgia nas últimas 4 semanas | 1,5 pontos |
| TVP ou TEP prévio | 1,5 pontos |
| Hemoptise | 1,0 ponto |
| Neoplasia ativa (em tratamento ou nos últimos 6 meses) | 1,0 ponto |
Corte dicotômico de Wells
Uma versão simplificada usa apenas dois grupos: acima de 4 pontos = alta probabilidade, abaixo de 4 = baixa. Nos casos de alta probabilidade, a anticoagulação deve ser iniciada imediatamente — não esperar o resultado da tomografia. Na baixa probabilidade com D-dímero negativo, o TEP está praticamente excluído.
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Seção 6
D-dímero e
outros exames
O D-dímero é um produto de degradação da fibrina. Sua principal utilidade é a exclusão de TEP em pacientes com baixa probabilidade clínica — não a confirmação. Um D-dímero negativo com Wells baixo praticamente exclui TEP.
O D-dímero tem alta sensibilidade, mas baixa especificidade. Está elevado em inflamação, trauma, cirurgia, gravidez, neoplasias e idosos. Por isso, um D-dímero elevado não confirma TEP — apenas indica que algo está promovendo fibrinólise. Um D-dímero normal, em paciente com baixa probabilidade clínica, tem alto valor preditivo negativo — exclui TEP.
Gasometria arterial
Espera-se hipoxemia no TEP. A lógica: o trombo obstrui o fluxo em determinada área pulmonar — aquela área é ventilada mas não perfundida (espaço morto). O sangue é desviado para outras áreas, onde fica mal oxigenado (efeito shunt). O resultado é hipoxemia e hipocapnia compensatória.
ECG no TEP
O ECG pode estar normal. Quando alterado, o padrão clássico é S1Q3T3 — onda S profunda em D1, onda Q em D3 e onda T invertida em D3 — sinal de sobrecarga aguda de ventrículo direito. Baixa sensibilidade, mas ajuda quando presente.
RX de tórax
Pode ser normal. Achados possíveis: sinal de Westermark (hipotransparência com vasos escassos na área obstruída), sinal de Hampton's hump (opacidade triangular com base na pleura), derrame pleural unilateral.
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Seção 7
Angiotomografia:
o exame de escolha
A angiotomografia de tórax com contraste é o exame padrão para o diagnóstico definitivo de TEP. Acessível, rápido, com alta acurácia. Exige apenas que o aparelho tenha 64 canais ou mais, disponível nos grandes hospitais.
Na angiotomografia, o contraste injetado vai exatamente para a artéria pulmonar. Nos locais onde há trombo, o contraste não preenche o vaso — aparece como uma área escura (falha de enchimento) dentro do vaso branco. O diagnóstico é visual e objetivo.
Vantagens em relação à arteriografia pulmonar
A arteriografia pulmonar é tecnicamente o padrão-ouro histórico, mas exige cateterismo com riscos próprios e é raramente realizada atualmente. A angiotomografia tem acurácia diagnóstica semelhante, é muito menos invasiva e está amplamente disponível.
Ecocardiograma como complemento
O ecocardiograma portátil, feito à beira do leito, permite avaliar rapidamente a função do ventrículo direito. Em TEP significativo, o VD está dilatado, hipocinético e com pressão aumentada na artéria pulmonar (hipertensão pulmonar aguda). O septo interventricular pode estar desviado para a esquerda. Quando o paciente está instável para fazer tomografia, o ecocardiograma pode confirmar a suspeita rapidamente.
Angiotomografia vs. arteriografia — regra prática
Angiotomografia: menos invasiva, rápida, amplamente disponível, acurácia semelhante. Arteriografia: mais invasiva, riscos do cateterismo, praticamente obsoleta para diagnóstico de TEP. Na prática atual: angiotomografia é o exame de escolha.
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Seção 8
Tratamento
anticoagulante
O tratamento do TEP é anticoagulação. Os anticoagulantes não dissolvem o trombo já formado — apenas impedem o crescimento e a formação de novos trombos, enquanto o sistema fibrinolítico endógeno dissolve o coágulo existente. A fibrinólise farmacológica é reservada para casos graves com instabilidade hemodinâmica.
Heparina — fase aguda
Para TEP confirmado ou de alta probabilidade (Wells > 6), iniciar heparina imediatamente — não aguardar exames. Opções:
- Heparina não fracionada (HNF) EV: para TEP maciço instável, onde pode ser necessário reverter rapidamente com protamina. Monitorar com TTPA.
- Enoxaparina (HBPM) SC: 1 mg/kg a cada 12 horas ou 1,5 mg/kg/dia. Principal opção no contexto clínico estável. Sem necessidade de monitorização rotineira. Pode iniciar no interior: 5.000 UI EV direto + enoxaparina.
Anticoagulação oral — manutenção
- Varfarina: ainda é usada, especialmente em pacientes com FA valvular, prótese mecânica, insuficiência renal grave. Monitorar RNI (meta 2,0–3,0). Antídoto: vitamina K + plasma fresco congelado.
- Rivaroxabana (NOACs): inibidor oral do fator Xa. Sem necessidade de monitorização. Aprovado para TVP/TEP. Doses: 15 mg 2×/dia por 3 semanas → 20 mg 1×/dia. Preferido quando disponível.
Duração da anticoagulação
Mínimo de 3 meses para qualquer TEP. Se o fator de risco foi removível (cirurgia, imobilização): 3 meses podem ser suficientes. Se o fator persiste (neoplasia, trombofilia): indefinidamente ou até resolução do fator. Gravidez: heparina durante toda a gestação.
Fibrinólise e embolectomia
Fibrinólise (alteplase, estreptoquinase): reservada para TEP maciço com colapso hemodinâmico — instabilidade que não responde à anticoagulação. Alto risco de sangramento grave. Embolectomia cirúrgica: raramente necessária, apenas em centros muito especializados.
Resumo — Seção 8
Seção 9
Resumo integrado
do capítulo
TEP é a terceira causa de morte cardiovascular — responsável por 25% das mortes mundiais relacionadas a trombose. A formação do trombo segue a tríade de Virchow: lesão endotelial, estase e hipercoagulabilidade. 90% dos trombos vêm dos membros inferiores.
O quadro clínico é súbito: dispneia de início abrupto + dor pleurítica + taquicardia. A probabilidade pré-teste é calculada pelo escore de Wells. Com Wells < 2 e D-dímero negativo, o TEP está excluído. Com Wells > 6, anticoagular imediatamente e confirmar com angiotomografia.
Tratamento: enoxaparina SC como primeira linha no estável, HNF EV no instável. Mínimo de 3 meses. Fibrinólise apenas para TEP maciço com colapso hemodinâmico persistente.
Mapa conceitual do capítulo