Infectologia · Tuberculose
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Infectologia · Saúde Pública · Capítulo

Tuberculose:
diagnóstico e manejo

Epidemiologia, transmissão, diagnóstico microbiológico e radiológico, esquema RIPE, coinfecção com HIV e tratamento da infecção latente.

Área: Infectologia · Saúde Pública Nível: Graduação · Internato
Seção 1

Seção 1

Epidemiologia
no Brasil e no mundo

A tuberculose não é uma doença do passado. Com cerca de 83.000 casos anuais, o Brasil responde por um terço de todos os casos das Américas. A doença ainda mata apesar do tratamento gratuito e eficaz.

O coeficiente de incidência brasileiro oscila em torno de 32 a 43 casos por 100.000 habitantes. Rio de Janeiro e Pernambuco têm as maiores incidências nacionais. O Piauí situa-se em posição intermediária. Globalmente, Índia, Rússia e China concentram a maior carga de casos.

Por que ainda se morre de tuberculose com tratamento gratuito? As causas são: abandono do tratamento (paciente melhora e para de tomar o remédio), subnotificação, e grupos vulneráveis que não acessam o serviço de saúde — moradores de rua, presidiários, populações de áreas remotas.

Medicamento só no serviço público

Não existe tuberculostático em farmácia comum — é proibido comercializar. O remédio é fornecido exclusivamente pelo SUS, assim como os antiretrovirais para HIV. Isso garante controle e permite monitoramento epidemiológico. A tuberculose é doença de notificação compulsória.

Resumo — Seção 1

Brasil~83.000 casos/ano · 32–43/100.000 hab · 1/3 das Américas
Piores incidênciasRio de Janeiro e Pernambuco · favelas · PSF de difícil acesso
Por que ainda morreAbandono de tratamento · subnotificação · populações vulneráveis
BCGNão previne TB pulmonar eficazmente · previne meningite TB e TB miliar
Seção 2

Seção 2

Transmissão e
patogênese

O Mycobacterium tuberculosis é transmitido por aerossóis e fica em suspensão no ar por horas. A lentidão de multiplicação explica a cronicidade. A imunidade do hospedeiro explica por que apenas 10% dos infectados adoecem.

O bacilo de Koch se multiplica a cada 20 horas — comparado a minutos para bactérias causadoras de infecções agudas. Isso explica o caráter crônico: o paciente deteriora lentamente enquanto continua espalhando o bacilo na comunidade.

A transmissão ocorre por gotículas de Wells, que permanecem em suspensão no ar, especialmente em ambientes fechados, com pouca ventilação e luz solar. O sol tem efeito bactericida direto sobre o M. tuberculosis. Ambientes de maior risco: presídios, quartéis, favelas, porões de navios.

Quem transmite e quem não transmite

  • Transmite: tuberculose pulmonar ativa, sem tratamento ou nas primeiras 2 semanas de tratamento
  • Não transmite: TB extrapulmonar (pleural, óssea, ganglionar) — bacilo não está nas vias aéreas
  • TB pulmonar com mais de 2 semanas de tratamento — perde a contagiosidade

Resumo — Seção 2

Via de transmissãoAerossóis (gotículas de Wells) · permanece no ar por horas
Ambientes de riscoFechados, sem ventilação, sem sol · presídios, quartéis, favelas
Perde contagiosidadeApós 2 semanas de tratamento correto
Infectados que adoecemApenas 10% — os outros ficam com infecção latente
Seção 3

Seção 3

Quadro clínico:
a grande simuladora

A tuberculose é chamada de "grande simuladora" por poder envolver qualquer órgão. O pulmão responde por 85–90% dos casos, mas a forma extrapulmonar entra no diagnóstico diferencial de qualquer síndrome clínica sem causa clara.

Sintomas cardinais

  • Tosse com expectoração por mais de 3 semanas — critério de sintomático respiratório. Mesmo sem febre ou emagrecimento, tosse por 3 semanas já justifica pesquisa de BAAR
  • Febre baixa vespertina — aparece no final da tarde, refletindo o ritmo circadiano do cortisol. Diferente da febre contínua da pneumonia bacteriana aguda
  • Sudorese noturna intensa — diagnóstico diferencial com linfoma e uso de dipirona
  • Emagrecimento e inapetência progressivos
  • Hemoptise — expectoração de sangue, associada a cavernas pulmonares com alta carga bacilar

Primeira lei do Dr. Bethley

"Tudo pode ser tuberculose. Nunca descarte tuberculose no diagnóstico diferencial." A TB extrapulmonar simula linfoma (adenomegalia), meningite, pericardite, peritonite, artrite e nefrite, dependendo da localização do bacilo.

TB extrapulmonar

A forma mais frequente fora do pulmão é a TB pleural. Depois: ganglionar, óssea (espondilodiscite — mal de Pott), meníngea e miliar (disseminação hematogênica). A forma extrapulmonar não transmite, pois o bacilo não está nas vias aéreas.

Resumo — Seção 3

Sintomático respiratórioTosse + expectoração ≥ 3 semanas → investigar TB obrigatoriamente
Febre vespertinaCaracterística da TB · final da tarde · diferente da pneumonia aguda
Tríade clássicaTosse crônica + febre vespertina + sudorese noturna + emagrecimento
TB extrapulmonar10–15% · pleural (mais comum) · ganglionar · óssea · meníngea · miliar
Seção 4

Seção 4

Métodos
diagnósticos

Seis abordagens diagnósticas: clínica, microbiologia, radiologia, PPD, teste molecular e histopatológico. Na atenção básica, o exame de escarro por Ziehl-Neelsen continua sendo o pilar — com o TRM-TB trazendo velocidade e informação extra sobre resistência.

MétodoO que detectaVantagemLimitação
Baciloscopia (BAAR)Bacilo ácido-álcool resistenteSimples · barato · imediatoSensibilidade 60% · falso negativo frequente
TRM-TB (molecular)DNA do M. tuberculosisResultado no mesmo dia · detecta resistência à rifampicinaDisponível só em centros de referência
Cultura de BAARCrescimento do baciloConfirma espécie · antibiogramaDemora 3 semanas · caro
PPD (Mantoux)Infecção (ativa ou latente)Acessível na redeFalso positivo vacinal · requer retorno em 48–72h
IGRAInfecção (ativa ou latente)Sem reação vacinal · sem necessidade de retornoCusto maior · não em toda UBS
HistopatológicoGranuloma caseosoDiagnóstico definitivo em formas extrapulmonaresExige biópsia

Baciloscopia — por que falha em 40%

Para o BAAR ser positivo na coloração de Ziehl-Neelsen, o escarro precisa conter 5.000 a 10.000 bacilos por mL. A cultura requer apenas 10 bacilos por mL. Por isso a baciloscopia falha em 40% dos casos reais — não é erro de laboratório, é limite do método.

A coleta correta: escarro (não saliva) em jejum, antes de escovar os dentes, pela manhã. Em crianças: lavado gástrico ou escarro induzido com nebulização de soro fisiológico hipertônico.

TRM-TB — o diferencial moderno

Tecnologia PCR aplicada ao escarro. Detecta DNA específico do M. tuberculosis e informa se o bacilo é sensível ou resistente à rifampicina — a droga mais importante do esquema. Resultado em horas. Em Teresina: Hospital Raul Lopes e Hospital Geral do Estado.

Resumo — Seção 4

BAAR (Ziehl-Neelsen)Método padrão · sensibilidade 60% · precisa 5.000–10.000 bacilos/mL
TRM-TBDNA do bacilo · resultado no mesmo dia · informa resistência à rifampicina
CulturaConfirma espécie · 3 semanas · antibiograma · casos complexos
Nem todo BAAR é TBMicobactérias atípicas (NTM) também são BAAR — cultura diferencia
Seção 5

Seção 5

Padrões
radiológicos

O RX de tórax é obrigatório na investigação de TB. A doença tem preferência pelos ápices e segmentos posteriores — "a doença vai de cima para trás". Reconhecer os padrões é habilidade prática essencial.

Distribuição preferencial

A TB pós-primária (reativação) acomete predominantemente os lobos superiores, segmentos apicais e posteriores. A base fica relativamente poupada. Em crianças, o complexo primário de Ranke pode aparecer nos lobos inferiores.

Padrões no RX e na tomografia

  • Caverna tuberculosa: área de hipertransparência com parede fina nos ápices. Alta carga bacilar — contagiosidade máxima
  • Árvore em brotamento: padrão centrilobular na tomografia, como galhos de árvore — disseminação broncogênica (bacilo da caverna vai para o brônquio e se espalha bilateralmente)
  • Complexo de Ranke: foco pulmonar + linfangite + adenomegalia hilar — tuberculose primária em crianças (sinal de "alteres")
  • TB miliar: disseminação hematogênica — micronódulos difusos de 1–3 mm ("grãos de milho / millet seeds") em ambos os campos. Sem cavernas. Forma grave, alta mortalidade.
  • Derrame pleural: forma extrapulmonar mais comum — exsudato com proteína alta e ADA alta

Caverna = máxima contagiosidade

A caverna pulmonar contém bacilos em quantidade de 10¹² unidades. Quando o paciente tosse, esse material é expelido para o ar. Paciente com caverna ao RX = risco muito alto de transmissão para contatos domiciliares.

Resumo — Seção 5

DistribuiçãoLobos superiores, ápices e segmentos posteriores · base poupada
CavernaHipertransparência com parede fina · alta contagiosidade · ápices
Árvore em brotamentoTomografia · disseminação broncogênica · bilateral
TB miliarHematogênica · micronódulos difusos · sem caverna · alta mortalidade
Seção 6

Seção 6

PPD e IGRA:
diagnóstico de infecção

PPD e IGRA não diagnosticam doença ativa — diagnosticam infecção (ativa ou latente). São ferramentas para triagem de contatos e indicação do tratamento da infecção latente tuberculosa (ILTB).

PPD (Prova Tuberculínica / Mantoux)

Injeção intradérmica no antebraço de derivado proteico purificado (PPD RT 23). Leitura com 48 a 72 horas. Mede o endurado (a pápula), não a hiperemia. É uma reação de hipersensibilidade retardada (tipo IV). Os pontos de corte:

  • 5 a 9 mm: reator fraco — pode ser reação vacinal pela BCG; interpretar com o contexto clínico
  • ≥ 10 mm: reator forte — confirma infecção tuberculosa

O PPD não distingue doença ativa de latente

Um PPD positivo indica que o organismo já teve contato com o bacilo. Pode ser: doença ativa, infecção latente ou, menos provavelmente, reação vacinal. O diagnóstico de doença ativa exige correlação clínica, radiológica e microbiológica.

IGRA (Interferon-Gamma Release Assay)

Exame de sangue que quantifica o interferon-gama liberado por linfócitos T sensibilizados especificamente ao M. tuberculosis. Vantagens em relação ao PPD:

  • Não sofre influência da vacinação BCG — sem falsos positivos vacinais
  • Não requer retorno para leitura — resultado pelo laboratório
  • Pode ser repetido sem induzir hipersensibilidade

Resumo — Seção 6

PPDIntradérmico · leitura 48–72h · mede pápula · ≥ 10 mm = infecção confirmada
Zona cinza PPD5–9 mm: pode ser reação vacinal BCG — interpretar com contexto
IGRAExame de sangue · sem influência BCG · sem retorno · mais específico
Limitação de ambosNão distinguem doença ativa de infecção latente — precisam de correlação clínica
Seção 7

Seção 7

Tratamento
RIPE

O esquema básico de tratamento é padronizado para todo o Brasil — duas fases, seis meses no total, quatro drogas na fase de ataque e duas na manutenção. O principal problema é o abandono, não a resistência.

Por que quatro drogas na fase de ataque?

O bacilo existe em quatro populações diferentes dentro do organismo: no interior dos macrófagos, dentro das cavernas, na periferia da lesão e em estado de metabolismo reduzido. Cada droga atinge melhor um compartimento diferente. Usar quatro simultâneas garante cobertura de todos os nichos e reduz drasticamente o risco de seleção de mutantes resistentes.

Esquema RIPE — tratamento básico
2 mesesFase de ataque: Rifampicina (R) + Isoniazida (I) + Pirazinamida (P) + Etambutol (E) — 4 drogas em dose diária. Comprimido combinado disponível no SUS.
4 mesesFase de manutenção: Rifampicina (R) + Isoniazida (I) — 2 drogas. A carga bacilar já está muito reduzida, 2 drogas são suficientes para eliminar os bacilos residuais.
Total6 meses no total para TB pulmonar comum. Exceções: meningite TB e TB óssea = 9 meses (fase de manutenção estendida para 7 meses)
ChildCrianças abaixo de 10 anos: 3 drogas (sem etambutol) — risco de neurite óptica por etambutol em crianças pequenas

Tratamento Diretamente Observado (TDO)

O padrão preconizado pela OMS é o TDO: o paciente toma o remédio na UBS, na presença do profissional de saúde. O objetivo é garantir adesão e detectar abandono precocemente. Em Teresina, o TDO é feito pela rede municipal, mas a cobertura não é universal. Para pacientes diferenciados (profissionais, bom entendimento da doença), pode-se dispensar 30 dias de remédio por vez.

Abandono de tratamento — o maior problema

O paciente melhora em 2–3 semanas, a febre passa, o apetite volta. Ele se sente curado e para de tomar o remédio. O bacilo residual que sobreviveu não foi eliminado e pode desenvolver resistência às drogas. O abandono é a principal causa de TB resistente e de recidiva.

Resumo — Seção 7

Fase de ataqueRIPE por 2 meses — 4 drogas diárias
Fase de manutençãoRI por 4 meses — 2 drogas diárias
Exceções (9 meses)Meningite TB e TB óssea (espondilodiscite)
Maior problemaAbandono do tratamento → resistência → recidiva → transmissão
Seção 8

Seção 8

TB e HIV:
coinfecção e infecção latente

A associação TB-HIV é íntima e obrigatória de investigar. Todo diagnóstico de tuberculose exige sorologia para HIV. A infecção latente tuberculosa (ILTB) tem tratamento próprio e deve ser tratada em pessoas imunocomprometidas antes que a doença ative.

Coinfecção TB-HIV

Estima-se que 20 a 30% dos casos de tuberculose no Brasil tenham coinfecção com HIV. Por isso, ao diagnosticar TB, solicite o teste rápido de HIV obrigatoriamente. A presença de HIV muda a abordagem: as drogas antituberculosas e os antirretrovirais têm interações farmacocinéticas importantes, especialmente a rifampicina com inibidores de protease. O encaminhamento ao Centro de Atenção Especializada (CAE) é obrigatório.

Em Teresina, o Instituto de Doenças Tropicais tem ambulatório específico de TB-HIV para tratar as duas condições em paralelo. A ordem de início do tratamento segue protocolo: iniciar RIPE primeiro, estabilizar o paciente e depois iniciar os antirretrovirais (quando a carga viral do HIV está em queda).

Infecção Latente Tuberculosa (ILTB)

ILTB é a infecção pelo M. tuberculosis sem doença ativa — o bacilo está vivo mas contido pelo sistema imune. Não há sintomas, não há transmissão. O risco é a reativação futura em situações de imunossupressão.

As indicações de tratamento da ILTB são pacientes com PPD ≥ 5 mm (ou IGRA positivo) que serão submetidos a:

  • Uso de imunossupressores (corticoide prolongado, biológicos, quimioterapia)
  • Transplante de órgãos
  • Portadores de HIV
  • Diabetes mellitus descompensado
  • Contato de TB bacilífera com PPD positivo

Esquema 3HP — tratamento moderno da ILTB

Isoniazida (H) + Rifapentina (P) em dose semanal por 3 meses = 12 doses no total. Muito mais simples que o esquema anterior de 6 a 9 meses diários. Disponível em centros de referência. Garante adesão muito melhor.

Resumo — Seção 8

TB + HIVSolicitar HIV em todo diagnóstico de TB · 20–30% coinfectados no Brasil
Ordem do tratamentoIniciar RIPE primeiro · introduzir ARV depois de estabilizar
ILTBInfecção sem doença · bacilo latente · risco de reativação em imunossuprimidos
Esquema 3HPIsoniazida + Rifapentina · 1×/semana · 3 meses · 12 doses no total
Seção 9 · Síntese Final

Seção 9

Resumo integrado
do capítulo

A tuberculose mata apesar do tratamento gratuito por abandono terapêutico e subnotificação. Transmissão por aerossóis em ambientes fechados — o paciente perde a contagiosidade após 2 semanas de tratamento. Sintomático respiratório: tosse ≥ 3 semanas → solicitar BAAR do escarro. Febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento completam o quadro clássico.

Diagnóstico: BAAR com sensibilidade de 60% (precisa de 5.000–10.000 bacilos/mL), TRM-TB com resultado no mesmo dia e informação de resistência à rifampicina. Radiologia: cavernas apicais e árvore em brotamento na TB pós-primária; miliar na disseminação hematogênica.

Tratamento: RIPE por 6 meses (2 meses de ataque + 4 de manutenção). Exceção: meningite e TB óssea = 9 meses. Todo diagnóstico de TB exige sorologia para HIV. ILTB em imunossuprimidos: esquema 3HP (12 doses semanais).

Mapa conceitual do capítulo

TransmissãoAerossóis · ambientes fechados · perde contagiosidade após 2 semanas de tratamento
DiagnósticoBAAR (60% sens.) · TRM-TB (mesmo dia + resistência) · PPD ≥ 10mm · radiologia
TratamentoRIPE 6 meses (2+4) · meningite/óssea 9 meses · TDO ideal · sem farmácia comercial
Maior riscoAbandono → resistência → TBMR → transmissão de cepas resistentes
Regra de ouroTodo diagnóstico de TB = solicitar HIV. Tosse ≥ 3 semanas = sintomático respiratório = pesquisa de BAAR obrigatória. Caverna ao RX = máxima contagiosidade. ILTB + imunossupressão = tratar com 3HP.