Cardiologia · TV e Fibrilação Ventricular
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Cardiologia · Arritmias Ventriculares · Capítulo

Taquicardia e
Fibrilação Ventricular

Diagnóstico eletrocardiográfico, avaliação da estabilidade hemodinâmica e conduta imediata nas arritmias ventriculares: do consultório ao pronto atendimento.

Área: Cardiologia · Medicina de Urgência Nível: Graduação · Internato
Seção 1

Seção 1

QRS largo:
o ponto de partida diagnóstico

A primeira decisão diante de qualquer taquicardia é simples: o QRS é estreito ou largo? Essa pergunta separa as supraventriculares das ventriculares e define protocolos completamente diferentes.

O QRS normal dura menos de 120 ms (menos de 3 quadradinhos). Quando ultrapassa esse valor, a despolarização ventricular não está ocorrendo pelo sistema His-Purkinje, mas diretamente pelo músculo, de forma lenta e aberrante. Com FC acima de 100 bpm, isso configura uma taquicardia de QRS largo.

Na grande maioria dos casos no pronto atendimento, taquicardia de QRS largo é TV ou FV até prova em contrário. A exceção são bloqueios de ramo preexistentes com taquicardia supraventricular sobreimposta — mas na dúvida, o protocolo é claro:

Regra prática de ouro

Na dúvida entre TV e taquicardia supraventricular com aberrância, sempre tratar como TV. Tratar uma TV como taquicardia supraventricular pode ser fatal. O contrário é seguro. O ACLS existe para que você não paralise diante da dúvida.

Definições essenciais

  • QRS largo: duração ≥ 120 ms (3 ou mais quadradinhos)
  • Taquicardia ventricular: ≥ 3 complexos QRS alargados consecutivos com FC > 100 bpm. Dois = extrassístoles em par, não TV.
  • TV não sustentada (TVNS): dura menos de 30 segundos
  • TV sustentada: dura 30 segundos ou mais

Resumo — Seção 1

QRS estreitoOrigem supraventricular → pensar FA, flutter, TRNAV
QRS largo + FC >100TV ou FV até prova em contrário · tratar como TV na dúvida
TVNS≥ 3 QRS largos · duração < 30 segundos
TV sustentada≥ 3 QRS largos · duração ≥ 30 segundos
Seção 2

Seção 2

TV monomórfica
e polimórfica

A morfologia do QRS durante a TV indica a origem da arritmia. QRS uniforme = um foco único. QRS variado = múltiplos focos ativos simultaneamente. Essa distinção tem implicação prognóstica e terapêutica direta.

TV monomórfica vs. polimórfica vs. FV

TV Monomórfica — todos os QRS iguais TV Polimórfica — QRS variados Fibrilação Ventricular — desorganizada, baixa amplitude TV mono (mais estável) TV poli (pré-parada) FV (parada) gravidade →

TV monomórfica

Circuito único — um único foco ventricular ectópico ativa repetidamente. Todos os QRS têm a mesma morfologia. Paciente geralmente consciente, com pulso. Causa mais comum: isquemia miocárdica.

TV polimórfica

Múltiplos focos ectópicos simultâneos. Os QRS têm morfologias completamente diferentes de batimento a batimento. Paciente costuma estar mais instável. Risco alto de degeneração para FV.

Resumo — Seção 2

TV MonomórficaUm foco · QRS sempre igual · mais estável · causa: isquemia
TV PolimórficaVários focos · QRS variados · mais instável · risco de FV
ProgressãoTV mono → TV poli → Torsades → FV → parada
Causa principal TV/FVIsquemia miocárdica — causa número 1 (e 2 e 3)
Seção 3

Seção 3

Torsades de Pointes:
torção das pontas

Tipo especial de TV polimórfica com padrão visual característico: os QRS "giram" em torno da linha de base. Está associado ao QT longo e tem tratamento próprio e específico.

No ECG, os complexos QRS mudam progressivamente seu eixo, fazendo a amplitude oscilar — baixinha no meio, aumentando nas extremidades, como se uma corda fosse torcida. O nome em francês é literal: torção das pontas.

Causas de QT longo

  • Medicamentos: haloperidol (Haldol), risperidona, clorpromazina (antipsicóticos); amitriptilina e outros tricíclicos; azitromicina, levofloxacina, moxifloxacina (antibióticos)
  • Distúrbios eletrolíticos: hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia
  • Genético: síndrome do QT longo congênito

Tratamento padrão-ouro — Torsades de Pointes

Sulfato de magnésio 2g EV em bolo lento — mesmo que o magnésio sérico esteja normal. O magnésio estabiliza a membrana e encerra o circuito.

Medidas complementares: corrigir potássio (> 4,5 mEq/L), magnésio (> 2), suspender imediatamente qualquer droga que prolongue o QT.

Resumo — Seção 3

DefiniçãoTV polimórfica especial · QRS "giram" em torno da linha base · substrato: QT longo
TratamentoSulfato de magnésio 2g EV bolo lento — padrão-ouro
Medicamentos de riscoHaloperidol · amitriptilina · azitromicina · quinolonas — monitorar QT
Eletrólitos alvoPotássio > 4,5 mEq/L · Magnésio > 2 mg/dL
Seção 4

Seção 4

Fibrilação
ventricular

FV é o ritmo caótico máximo do ventrículo. Sem contração organizada, não há débito cardíaco. É ritmo de parada na quase totalidade dos casos.

Na FV, todas as células ventriculares fazem o que querem, em frequências altíssimas e sem sincronismo. O coração apenas fibrilа — estremece sem bombear. No ECG: traçado completamente desorganizado, amplitude variável e baixa, sem QRS reconhecível.

FV = ritmo de parada na maioria dos casos

O ventrículo não contrai — sem débito cardíaco — sem pulso na maioria dos pacientes. Paciente desacordado + ECG desorganizado = trate como parada: RCP + desfibrilação imediata, sem sincronização, com energia máxima.

Resumo — Seção 4

ECG da FVDesorganizado · sem QRS reconhecível · baixa amplitude · caótico
HemodinâmicaSem contração eficaz → sem débito cardíaco → sem pulso
Causa principalIsquemia · Chagas · QT longo · cardiopatias
CondutaRCP + desfibrilação imediata · energia máxima · sem sincronizar
Seção 5

Seção 5

Avaliação da
estabilidade clínica

Identificar a arritmia no ECG é o primeiro passo. O segundo — e mais urgente — é avaliar se o paciente está estável ou instável. Esse julgamento define toda a conduta.

Os 4 sinais de instabilidade hemodinâmica
↓PAHipotensão arterial — pressão sistólica abaixo do nível funcional para o paciente.
↓SaO₂Queda da saturação — dessaturação progressiva mesmo com O₂. Indica perfusão pulmonar comprometida.
↓NCoAlteração do nível de consciência — rebaixamento, confusão, não responde. Indica hipoperfusão cerebral.
DORDor torácica — associada ao quadro, especialmente anginosa. Indica isquemia miocárdica ativa.

Resumo — Seção 5

InstávelHipotensão · queda de SaO₂ · alteração de consciência · dor torácica
EstávelConsciente · PA mantida · saturando bem · sem dor significativa
Instável → condutaCardioversão elétrica sincronizada imediata
Estável → condutaAmiodarona EV + investigação etiológica
Seção 6

Seção 6

Conduta na TV
com pulso

TV com pulso significa débito cardíaco ainda presente. A abordagem depende de um único critério: estável ou instável?

TV instável com pulso → cardioversão elétrica sincronizada

Sem tempo para medicação. A conduta é cardioversão elétrica sincronizada imediata. Iniciar com 100 J bifásico.

TV estável com pulso → amiodarona EV

Protocolo — TV estável com pulso
01Monitorizar: ECG contínuo, oxímetro, PA
02Amiodarona ataque: 2 ampolas (300 mg) em 250 mL de SG5% ou SF, correr em 1 hora
03Amiodarona manutenção: 6 ampolas (900 mg) em 500 mL, correr em 24 horas
04Solicitar: hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos, troponina
05Investigar causa: isquemia, distúrbio eletrolítico, cardiopatia estrutural
06Refratário à amiodarona: cardioversão elétrica sincronizada

Resumo — Seção 6

TV instável + pulsoCardioversão elétrica sincronizada imediata
TV estável + pulsoAmiodarona EV: 300 mg ataque + 900 mg manutenção em 24h
TorsadesNão cardioverter — sulfato de magnésio 2g EV bolo
FV + paradaDesfibrilação máxima + RCP — protocolo de parada
Seção 7

Seção 7

Cardioversão elétrica
sincronizada

A cardioversão sincronizada libera o choque exclusivamente sobre a onda R. Essa sincronização é fundamental para não desencadear FV — o fenômeno "R sobre T".

Protocolo

Sequência do procedimento
01Pré-oxigenação 3 a 5 min com máscara não reinalação 100% · acesso venoso garantido
02Analgesia: fentanil 1–2 mcg/kg EV (1 ampola = 50 mcg nos kits padrão)
03Sedação: propofol 1 mL/10 kg EV lento — injetar 2 mL por vez até perda de consciência
04Ativar modo SYNC no desfibrilador — crítico. O aparelho aguarda a onda R; pode demorar 1–2 s após pressionar o gatilho.
05Energia TV: bifásico iniciar 100 J (máx 200 J) · monofásico iniciar 200 J (máx 360 J)
06Paciente acorda em 15–30 min sem lembrar do procedimento. Monitorizar até recuperação.

Esquecer de ativar SYNC — perigo real

Choque sem sincronização pode cair na repolarização (onda T) e induzir FV. Sempre confirme o modo SYNC ativo antes de disparar. Se o aparelho não disparar imediatamente, aguarde — ele está esperando a onda R.

Bifásico vs. monofásico

Máximo 200 J = bifásico. Máximo 360 J = monofásico. TV bifásico: iniciar 100 J. TV monofásico: iniciar 200 J. FV (sem pulso): sempre energia máxima, não sincronizar.

Resumo — Seção 7

Por que sincronizarEvita choque na onda T → previne FV induzida (fenômeno R sobre T)
Energia TVBifásico: 100 J (iniciar) · Monofásico: 200 J (iniciar)
SedaçãoFentanil 1–2 mcg/kg + propofol 1 mL/10 kg · pré-oxigenar antes
FV / sem pulsoNão sincronizar → desfibrilação energia máxima + RCP
Seção 8 · Síntese Final

Seção 8

Resumo integrado
do capítulo

A lógica do capítulo cabe em uma sequência de perguntas: QRS estreito ou largo? Largo + FC > 100 = TV ou FV. Morfologia uniforme ou variada? Uniforme = monomórfica. Variada = polimórfica (Torsades se padrão giratório + QT longo). Tem pulso? Sem pulso = parada. Com pulso: está estável? Não = cardioversão sincronizada. Sim = amiodarona EV.

Torsades: sulfato de magnésio 2g EV em bolo mesmo instável. FV: desfibrilação imediata com energia máxima, sem sincronização.

Fluxograma de decisão — TV com pulso

TV + InstávelCardioversão elétrica sincronizada · bifásico 100 J · sedação prévia
TV + EstávelAmiodarona EV ataque + manutenção · investigar causa
Torsades de PointesSulfato de magnésio 2g EV bolo · corrigir eletrólitos · suspender QT-longo
FV / sem pulsoDesfibrilação imediata sem sincronizar + RCP · protocolo de parada