Dispneia é a sensação respiratória desconfortável — percepção subjetiva ou objetiva de dificuldade ao respirar. Pode ser subjetiva (o paciente relata) ou objetiva (você vê o esforço respiratório sem o paciente precisar falar).
O paciente raramente usará a palavra "dispneia". Ele dirá: "falta de ar", "fôlego curto", "respiração cortando". Sua missão é caracterizar esse sintoma com perguntas investigativas.
❓ Como perguntar — seja investigador!
- Nunca pergunte só "você tem cansaço" — é ambíguo
- "O que você faz que dá falta de ar?"
- "Parado sente algo? Ao caminhar? Ao banhar?"
- "Quando começou? Veio de repente ou foi aos poucos?"
- Sempre graduar para entender a gravidade
📊 Gradação pela atividade que desencadeia
- Corrida / esforço intenso → pode ser só descondicionamento
- Dois lances de escada → moderado
- Caminhar no plano → importante
- Banhar / se vestir → grave
- Em repouso / comer → gravíssimo
Na inspiração: músculos intercostais se contraem + diafragma abaixa → caixa torácica aumenta → pressão intratorácica diminui → ar entra. Na expiração: músculos relaxam → caixa diminui → pressão aumenta → ar sai. FR normal: 12 a 20 irpm.
| Aspecto | Como perguntar | O que sugere |
|---|---|---|
| Início | Começou de repente ou foi aos poucos? | Súbito: TEP, pneumotórax, edema agudo · Gradual: IC, DPOC |
| Duração | É contínua ou vem em episódios? | Episódica: asma, arritmia · Contínua: IC, DPOC avançado |
| Desencadeante | O que faz aparecer? Esforço? Frio? Tossir? Comer? | Esforço → coração · Frio/alérgenos → asma · Refeições → DRGE · Tosse → pleura |
| Fator de melhora | Algo melhora? Sentar? Deitar de lado? | Sentar → IC (ortopneia) · Deitar → platipneia hepática |
| Sintomas assoc. | Febre? Tosse? Palpitação? Perda de peso? | Febre+tosse → pneumonia/TB · Palpitação → cardíaco · Perda peso → neoplasia |
❤️ Cardíaca
- Insuficiência cardíaca: VE fraco → sangue não vai pra frente → acúmulo na circulação pulmonar (vasos comunicantes)
- Arritmias: coração bate rápido demais → não enche adequadamente → IC funcional
- Valvopatias: obstrução/refluxo nas válvulas → congestão pulmonar
- DAC / Isquemia: equivalente anginoso — paciente não sente dor, sente dispneia
- Pericardite/derrame: comprime câmaras, impede o enchimento
🫁 Pulmonar / Respiratória
- Atmosférica: altitude → pressão parcial O₂ baixa (mal das montanhas)
- Obstrutiva: corpo estranho, tumor de laringe, edema de glote, broncoespasmo
- Parenquimatosa: pneumonias (principal na prática clínica)
- Torácica: fratura de costela → dor ao respirar → respiração irregular
- Diafragmática: paralisia do nervo frênico
- Pleural: derrame pleural, pleurite
🧪 Metabólica
- Mecanismo: excesso de H⁺ → organismo elimina CO₂ pela hiperventilação para compensar (CO₂ + H₂O ⇌ H₂CO₃ ⇌ HCO₃⁻ + H⁺)
- Cetoacidose diabética: muito ácido → cheiro de maçã podre → hiperventilar → ritmo de Kussmaul
- Anemia grave: sem Hb para carrear O₂ → hiperventilação compensatória
- Exercício intenso, convulsões, tetania → acidose lática
🧠 Neurológica / Neuromuscular
- AVC/tumor/edema cerebral: lesão do bulbo (centro regulador) → ritmo irregular
- Miastenia gravis / Guillain-Barré: músculos respiratórios falham → falência ventilatória
- Drogas depressoras do SNC: benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides em alta dose → bradipneia/apneia → proteger via aérea!
🔵 Tecidual / Outras
- TEP: trombo da perna → pulmão → dispneia súbita + dor pleurítica
- Pneumotórax: ruptura de bolha → colapso súbito → dispneia súbita
- Sempre pesquisar fator de risco para trombose: imobilidade, trauma, cirurgia, hipecoagulabilidade
🟠 Psicogênica
- Diagnóstico de exclusão — somente após exame físico, ausculta e avaliação metabólica
- Respiração suspirosa típica — inspira fundo aleatoriamente
- Melhora quando o paciente se distrai ou não está sendo observado
- Muito prevalente hoje, mas nunca primeira hipótese
Identificar o ritmo respiratório à beira do leito é competência clínica. Cada padrão sugere um mecanismo específico.
Dispneia Inspiratória vs Expiratória
Inspiratória: obstrução de via aérea superior (tumor de laringe, corpo estranho, edema de glote) → estridor.
Expiratória: DPOC, asma → air trapping → "consegue jogar ar pra dentro mas não consegue tirar".
Cantâneo → Kussmaul: escada de gravidade
Cantâneo = início da acidose metabólica (comp. respiratória iniciando). Kussmaul = acidose grave instalada — paciente precisa de UTI, monitorização. São dois estágios da mesma progressão.
A posição corporal interfere no retorno venoso e na mecânica pulmonar. Identificar qual posição melhora ou piora já direciona o diagnóstico.
Ortopneia — como avaliar a melhora do paciente com IC
"Ontem eu usei 3 travesseiros para dormir. Hoje usei 2. Amanhã 1." Quanto menos travesseiro, mais o coração está compensando. É um sinal clínico simples mas poderoso para acompanhar a resposta ao tratamento.
Trepopneia — como provar a nove
Peça ao paciente para deitar do lado contralateral ao derrame. Ele vai piorar — porque você está comprimindo o único pulmão funcional. Confirma o diagnóstico clinicamente, sem exame.
Por que na IC o retorno venoso piora ao deitar?
›Tudo que dói no tórax pode ter origem dentro ou fora dele. O objetivo primário é sempre descartar causas ameaçadoras imediatas à vida.
As causas que matam — descartar primeiro
• Síndrome coronariana aguda (angina instável + IAM)
• Dissecção de aorta — dor dilacerante → costas, assimetria de pulso
• Tromboembolismo pulmonar — dor pleurítica súbita + hipoxemia
• Pneumotórax hipertensivo — desvio de traqueia + abolição do MV
• Tamponamento cardíaco — tríade de Beck
| Causa | Característica da dor | Irradiação | Melhora | Piora |
|---|---|---|---|---|
| Angina/IAM | Aperto, compressão, "cinto apertando" — difusa, não pontada | Braço E e D, pescoço, mandíbula, costas | Repouso, nitrato | Esforço, emoção |
| Dissecção de aorta | Dilacerante, lacerante, súbita, intensíssima | Costas / dorso — diagnóstico! | Nenhuma | Progressiva |
| Pericardite | Pleurítica — ventilatório dependente | Trapézio, pescoço, ombro | Anterofletar tronco (genopeitoral) | Inspiração, decúbito dorsal |
| TEP | Pleurítica aguda + dispneia súbita | Lateral (pleural) | — | Respiração funda |
| DRGE/Esôfago | Queimação retroesternal, pressão epigástrica | Retroesternal | Antiácido, água | Pós-refeição, deitar |
| Espasmo esofagiano | Forte, imita infarto — melhora com nitrato! | Retroesternal | Nitrato (armadilha!) | — |
| Costocondrite | Pontada localizada — o dedo aponta exatamente | Junção condrocostal | AINE, repouso | Palpação do esterno |
Dissecção de aorta — nunca dar anticoagulante sem antes fazer RX!
Dor dilacerante irradiando para costas + assimetria de pulso/pressão entre membros = dissecção até prova em contrário. Fazer RX de tórax antes de qualquer trombolítico ou antiagregante. Mediastino alargado no RX confirma. Anticoagulante na dissecção → hemorragia fatal. Chamar cirurgia cardiovascular.
✊ Sinal de Levine
Paciente chega com o punho cerrado ou mão aberta sobre o esterno/precórdio. Não consegue localizar a dor com um dedo — ela é difusa, constritiva. Sinal semiológico clássico e altamente sugestivo de origem isquêmica (angina/IAM).
🙇 Posição genopeitoral — pericardite
Paciente sentado inclinado para frente, abraçando o peito ou de joelhos encostando no esterno. Encosta o coração no externo → diminui a fricção entre os folhetos pericárdicos → melhora a dor. Antes muito frequente; hoje menos visto.
Espasmo esofagiano imita infarto e melhora com nitrato — como diferenciar?
›Angina Estável
Dor que só aparece com esforço físico e melhora com repouso em < 20 min. O paciente parado não sente nada. É o "prenúncio" — significa que tem obstrução coronariana, mas ainda não necrosou. Gatilho: esforço → coração precisa de mais O₂ → artéria obstruída não entrega → isquemia → dor.
Angina Instável
Dor em repouso, que antes aparecia só no esforço, ou dor que piorou progressivamente. Mais grave que a estável — placa coronariana pode romper a qualquer momento gerando IAM. Paciente parado com dor no peito → emergência.
IAM — Infarto Agudo do Miocárdio
Oclusão coronariana completa → necrose miocárdica. Critérios: dor > 20 min + alteração ECG (supra/infra ST) + troponina positiva. Dor de infarto é dor valendo — paciente chega gritando, com sudorese fria, às vezes defeca/urina de tanta dor.
Equivalente anginoso — dispneia SEM dor
Alguns pacientes infartam sem sentir dor torácica — especialmente mulheres, idosos, diabéticos, doentes renais. Nesses grupos, a dor pode ser atípica (epigástrica, no pescoço) ou o único sintoma é dispneia. Sempre pensar em coração ao ver dispneia com fator de risco cardiovascular.
🔴 Características da Dor Isquêmica — Decorar
- Tipo: opressiva, constritiva, "cinto apertando" — nunca pontada, nunca facada
- Localização: retroesternal ou precordial — difusa, não localiza com o dedo
- Irradiação: braço esquerdo E/OU direito, pescoço, mandíbula, ombros, costas
- Duração: angina < 20 min com repouso · IAM > 20 min sem melhora
- Piora: esforço físico, emoção, frio intenso
- Melhora: repouso (angina estável) · nitrato (dilata coronária)
- Dor pontada que passa em segundos → não é isquêmica
- Dor que melhora com dipirona → improvável ser isquêmica
- Dor que piora à palpação do esterno → não é isquêmica (costocondrite)
- Dor ventilatório-dependente → não é isquêmica (pericárdica, pleural, osteomuscular)
Palpitação é a percepção desconfortável dos próprios batimentos cardíacos. O paciente descreve como: coração acelerado, disparado, "flutter no peito", batimento irregular.
Metade das palpitações é de origem cardíaca, metade psiquiátrica/funcional. O desafio é identificar qual é qual — sem comprometer de imediato como ansiedade.
🔴 Causas Cardíacas — Investigar
- Fibrilação atrial: principal arritmia → batimentos irregulares
- Taquicardia supraventricular (TSV): comum em jovens, início/fim abrupto
- Extrassístoles: "batida extra" seguida de pausa — muito frequente
- Cardiomiopatia hipertrófica: associada a morte súbita em jovens atletas
- Síndrome de WPW: via acessória → taquicardia paroxística
🔵 Causas Não Cardíacas
- Cafeína excessiva, Red Bull, energéticos: causa mais comum em jovens
- Hipertireoidismo: taquicardia + perda de peso + tremor — não esquecer!
- Anemia: taquicardia compensatória
- Febre: cada 1°C → ~10 bpm a mais
- Ansiedade/pânico: diagnóstico de exclusão
- Drogas: cocaína, anfetaminas, simpatomiméticos
Alta preocupação — investigar urgente
• Palpitação + síncope (perda de consciência) → internação obrigatória
• Palpitação + dor torácica típica + dispneia
• Paciente com doença cardiovascular prévia (ex.: já infartou)
• Batimento irregular percebido pelo paciente
• História familiar de morte súbita < 40 anos
✅ Menor preocupação
- Jovem saudável, sem comorbidades, exame normal
- Desencadeada claramente por cafeína/estresse
- Sinais vitais normais, sem síncope
- Palpitação só quando está "no período de provas" ou em momento ansioso
- Início/fim gradual (sugestivo de funcional)
🟡 Como caracterizar a palpitação
- Início/término abrupto: sugestivo de arritmia paroxística (TSV, FA paroxística)
- Início/término gradual: sugestivo de causa funcional ou metabólica
- Irregular: pensar em fibrilação atrial
- Regular e muito rápido: taquicardia supraventricular
- Duração: episódios curtos × sustentados
- Uso de medicações: drogas que afinam sangue podem esconder taquicardias
- Sempre perguntar: função tireoidiana (hipertireoidismo esquecido na urgência!)
Hemoptise é a expectoração de sangue proveniente do trato respiratório — vermelho vivo, aerado, que vem com tosse. O pulmão tem dupla circulação: artéria/veia pulmonar (troca gasosa) + artérias brônquicas (nutrição do parênquima). A maior parte das hemoptises vem de lesão nas artérias brônquicas.
🔴 Hemoptise vs Hematêmese — Diferenciação obrigatória
- Hemoptise: sangue vivo, rutilante, aerado/espumoso, vem com tosse, origem respiratória
- Hematêmese: sangue escuro, "borra de café", misturado com restos alimentares, vem com vômito, origem digestiva
- Na dúvida: perguntar aspecto, quantidade, como veio (tosse ou vômito)
- Atenção: epistaxe deglutida pode simular hemoptise
🟡 Quando é grave?
- Maciça: > 400 ml em 24h OU > 100–150 ml em uma única vez
- Risco de asfixia (não de choque hipovolêmico!)
- Hemoptises pequenas repetidas → investigar TB, neoplasia
- Espuma rósea pela boca = edema agudo de pulmão (IC descompensada)
🔴 Roteiro de Avaliação — O que investigar
- Febre + hemoptise + perda de peso → Tuberculose (BAAR, RX tórax, cultura)
- Tabagismo pesado + emagrecimento + hemoptise → Neoplasia pulmonar
- IC descompensada + espuma rósea → Edema agudo de pulmão (ruptura capilar)
- Criança + hemoptise súbita + sibilância unilateral → Corpo estranho
- Uso de anticoagulante → Qualquer irritação → sangramento
- Paciente imunossuprimido → Fungo endêmico, TB
- Exposição ocupacional (inalantes) → perguntar sempre a ocupação!
🥜 Bons estudos, Alcino!
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