❤️ Semiologia · Cardiopulmonar

Dispneia, Dor Torácica,
Palpitação & Hemoptise

Guia completo para o Alcino — transcrição + conceitos complementares de semiologia cardiovascular e pulmonar

6causas de dispneia
5ritmos respiratórios
7diagnósticos de dor torácica
Quizincluso
💨 Dispneia
🔎 Origens
🌬️ Ritmos
🛏️ Tipos posturais
💔 Dor Torácica
🩺 Angina & IAM
💓 Palpitação
🩸 Hemoptise
🎯 Quiz
Conceito Central
O que é Dispneia?

Dispneia é a sensação respiratória desconfortável — percepção subjetiva ou objetiva de dificuldade ao respirar. Pode ser subjetiva (o paciente relata) ou objetiva (você vê o esforço respiratório sem o paciente precisar falar).

O paciente raramente usará a palavra "dispneia". Ele dirá: "falta de ar", "fôlego curto", "respiração cortando". Sua missão é caracterizar esse sintoma com perguntas investigativas.

❓ Como perguntar — seja investigador!

  • Nunca pergunte só "você tem cansaço" — é ambíguo
  • "O que você faz que dá falta de ar?"
  • "Parado sente algo? Ao caminhar? Ao banhar?"
  • "Quando começou? Veio de repente ou foi aos poucos?"
  • Sempre graduar para entender a gravidade

📊 Gradação pela atividade que desencadeia

  • Corrida / esforço intenso → pode ser só descondicionamento
  • Dois lances de escada → moderado
  • Caminhar no plano → importante
  • Banhar / se vestir → grave
  • Em repouso / comer → gravíssimo
Fisiologia
O Ciclo Respiratório — O que pode falhar

Na inspiração: músculos intercostais se contraem + diafragma abaixa → caixa torácica aumenta → pressão intratorácica diminui → ar entra. Na expiração: músculos relaxam → caixa diminui → pressão aumenta → ar sai. FR normal: 12 a 20 irpm.

Eixo Respiratório — Qualquer falha aqui gera dispneia SNC / Bulbo Vias Aéreas Musculatura Pulmão Coração Célula AVC, drogas Corpo estranho tumor laríngeo Miastenia Guillain-Barré Pneumonia TEP, DPOC IC, arritmia valvopatia Anemia Acidose Frequência respiratória normal: 12 a 20 irpm · Bradipneia < 12 · Taquipneia > 20 Ao contar FR: não avise o paciente — ele vai prender a respiração!
Qualquer nível desse eixo pode falhar e gerar dispneia — não é só o pulmão!
Roteiro de Caracterização — Seja investigador!
AspectoComo perguntarO que sugere
InícioComeçou de repente ou foi aos poucos?Súbito: TEP, pneumotórax, edema agudo · Gradual: IC, DPOC
DuraçãoÉ contínua ou vem em episódios?Episódica: asma, arritmia · Contínua: IC, DPOC avançado
DesencadeanteO que faz aparecer? Esforço? Frio? Tossir? Comer?Esforço → coração · Frio/alérgenos → asma · Refeições → DRGE · Tosse → pleura
Fator de melhoraAlgo melhora? Sentar? Deitar de lado?Sentar → IC (ortopneia) · Deitar → platipneia hepática
Sintomas assoc.Febre? Tosse? Palpitação? Perda de peso?Febre+tosse → pneumonia/TB · Palpitação → cardíaco · Perda peso → neoplasia
💡 Regra de Ouro
"Vocês só podem atribuir dispneia de causa psicogênica depois de excluir as outras causas. E para excluir não precisa de ressonância do corpo inteiro — basta história clínica bem feita e exame físico detalhado. Nunca comprem psicogênico como primeira cartada."
Diagnóstico Diferencial
As 6 Grandes Origens da Dispneia

❤️ Cardíaca

  • Insuficiência cardíaca: VE fraco → sangue não vai pra frente → acúmulo na circulação pulmonar (vasos comunicantes)
  • Arritmias: coração bate rápido demais → não enche adequadamente → IC funcional
  • Valvopatias: obstrução/refluxo nas válvulas → congestão pulmonar
  • DAC / Isquemia: equivalente anginoso — paciente não sente dor, sente dispneia
  • Pericardite/derrame: comprime câmaras, impede o enchimento

🫁 Pulmonar / Respiratória

  • Atmosférica: altitude → pressão parcial O₂ baixa (mal das montanhas)
  • Obstrutiva: corpo estranho, tumor de laringe, edema de glote, broncoespasmo
  • Parenquimatosa: pneumonias (principal na prática clínica)
  • Torácica: fratura de costela → dor ao respirar → respiração irregular
  • Diafragmática: paralisia do nervo frênico
  • Pleural: derrame pleural, pleurite

🧪 Metabólica

  • Mecanismo: excesso de H⁺ → organismo elimina CO₂ pela hiperventilação para compensar (CO₂ + H₂O ⇌ H₂CO₃ ⇌ HCO₃⁻ + H⁺)
  • Cetoacidose diabética: muito ácido → cheiro de maçã podre → hiperventilar → ritmo de Kussmaul
  • Anemia grave: sem Hb para carrear O₂ → hiperventilação compensatória
  • Exercício intenso, convulsões, tetania → acidose lática

🧠 Neurológica / Neuromuscular

  • AVC/tumor/edema cerebral: lesão do bulbo (centro regulador) → ritmo irregular
  • Miastenia gravis / Guillain-Barré: músculos respiratórios falham → falência ventilatória
  • Drogas depressoras do SNC: benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides em alta dose → bradipneia/apneia → proteger via aérea!

🔵 Tecidual / Outras

  • TEP: trombo da perna → pulmão → dispneia súbita + dor pleurítica
  • Pneumotórax: ruptura de bolha → colapso súbito → dispneia súbita
  • Sempre pesquisar fator de risco para trombose: imobilidade, trauma, cirurgia, hipecoagulabilidade

🟠 Psicogênica

  • Diagnóstico de exclusão — somente após exame físico, ausculta e avaliação metabólica
  • Respiração suspirosa típica — inspira fundo aleatoriamente
  • Melhora quando o paciente se distrai ou não está sendo observado
  • Muito prevalente hoje, mas nunca primeira hipótese
💡 Raciocínio Clínico — Casos Reais
"Paciente de 56 anos, diabético, dislipidêmico, amputou perna — chega com dispneia aos esforços. Já acendo a lanterna para o coração. | Laura de 20 anos, pálida, com menorragia intensa — doso Hb, deu 6,5 — a dispneia é de anemia. | Vozinho de 89 anos, emagrecido, com hemoptise — neoplasia ou pneumonia, direto. Tudo depende da bagagem clínica do paciente."
Semiologia Avançada
Ritmos Respiratórios Patológicos — Cai em Prova

Identificar o ritmo respiratório à beira do leito é competência clínica. Cada padrão sugere um mecanismo específico.

Ritmos Respiratórios — Padrão + Causa NORMAL Regular · 12–20 irpm · amplitude uniforme CHEYNE-STOKES apneia → IC grave, lesão SNC hiperpneia crescente → apneia → reinicia. Sinal de gravidade. CANTÂNEO (início acidose) → Início de acidose metabólica Inspirações e expirações profundas. Precede o Kussmaul. KUSSMAUL (acidose grave) pausa → Acidose metabólica grave (cetoacidose) Insp. profunda + pausa + exp. profunda + pausa. UTI! BIOT — Atáxico → Lesão neurológica central grave Totalmente anárquico — AVC, encefalite, herniação SUSPIROSA suspiro → Psicogênica Normal interrompido por suspiros aleatórios. Exclusão!
Cheyne-Stokes = gravidade IC. Kussmaul = acidose metabólica grave (UTI). Biot = lesão neurológica central.

Dispneia Inspiratória vs Expiratória

Inspiratória: obstrução de via aérea superior (tumor de laringe, corpo estranho, edema de glote) → estridor.
Expiratória: DPOC, asma → air trapping → "consegue jogar ar pra dentro mas não consegue tirar".

Cantâneo → Kussmaul: escada de gravidade

Cantâneo = início da acidose metabólica (comp. respiratória iniciando). Kussmaul = acidose grave instalada — paciente precisa de UTI, monitorização. São dois estágios da mesma progressão.

🎯 Mnemônico
C–K–B–S: Coração · Ketoacidose · Brain · Stress
Cheyne-Stokes = IC. Kussmaul = Ketoacidose. Biot = Brain (lesão encefálica). Suspirosa = Stress/ansiedade.
Tipos de Dispneia por Posição
Ortopneia, Platipneia, Trepopneia e DPN

A posição corporal interfere no retorno venoso e na mecânica pulmonar. Identificar qual posição melhora ou piora já direciona o diagnóstico.

Dispneias Posturais ORTOPNEIA IC descompensada ❌ Deitar piora ↑ retorno venoso ✅ Sentar melhora ↓ retorno venoso PLATIPNEIA Hepatopulmonar ❌ Sentado/pé piora ✅ Deitar melhora oposto da ortopneia! TREPOPNEIA Derrame pleural unilateral pulmão com derrame pulmão bom ❌ Deitar no lado bom comprime único pulmão ok ✅ Deitar no lado ruim libera pulmão bom → melhora Quando comprime o ruim — ele já tava ruim! D.P.NOTURNA IC descompensada 🌙 Paciente deita, pega sono, acorda às 3h morrendo de falta de ar Tipo de ortopneia
Ortopneia = IC (deitar piora). Platipneia = hepatopulmonar (deitar melhora). Trepopneia = derrame unilateral (deitar no ruim libera o bom).

Ortopneia — como avaliar a melhora do paciente com IC

"Ontem eu usei 3 travesseiros para dormir. Hoje usei 2. Amanhã 1." Quanto menos travesseiro, mais o coração está compensando. É um sinal clínico simples mas poderoso para acompanhar a resposta ao tratamento.

Trepopneia — como provar a nove

Peça ao paciente para deitar do lado contralateral ao derrame. Ele vai piorar — porque você está comprimindo o único pulmão funcional. Confirma o diagnóstico clinicamente, sem exame.

💭 Recall

Por que na IC o retorno venoso piora ao deitar?

Em pé, a gravidade dificulta o retorno venoso (sangue tem que subir contra a gravidade). Ao deitar a 0°, esse obstáculo desaparece e chega cerca de 500 ml a mais de retorno venoso ao coração. Para um coração saudável, não faz diferença — ele bombeia normalmente. Para um ventrículo esquerdo comprometido (IC), esses 500 ml a mais sobrecarregam o sistema: o sangue não vai pra frente, acumula na circulação pulmonar → dispneia. Por isso o paciente dorme sentado ou com múltiplos travesseiros — precisa manter parte do retorno venoso baixo para "poupar" o coração fraco.
Emergência Clínica
Dor Torácica — Objetivo: Descartar o que Mata Primeiro

Tudo que dói no tórax pode ter origem dentro ou fora dele. O objetivo primário é sempre descartar causas ameaçadoras imediatas à vida.

💀

As causas que matam — descartar primeiro

Síndrome coronariana aguda (angina instável + IAM)
Dissecção de aorta — dor dilacerante → costas, assimetria de pulso
Tromboembolismo pulmonar — dor pleurítica súbita + hipoxemia
Pneumotórax hipertensivo — desvio de traqueia + abolição do MV
Tamponamento cardíaco — tríade de Beck

CausaCaracterística da dorIrradiaçãoMelhoraPiora
Angina/IAMAperto, compressão, "cinto apertando" — difusa, não pontadaBraço E e D, pescoço, mandíbula, costasRepouso, nitratoEsforço, emoção
Dissecção de aortaDilacerante, lacerante, súbita, intensíssimaCostas / dorso — diagnóstico!NenhumaProgressiva
PericarditePleurítica — ventilatório dependenteTrapézio, pescoço, ombroAnterofletar tronco (genopeitoral)Inspiração, decúbito dorsal
TEPPleurítica aguda + dispneia súbitaLateral (pleural)Respiração funda
DRGE/EsôfagoQueimação retroesternal, pressão epigástricaRetroesternalAntiácido, águaPós-refeição, deitar
Espasmo esofagianoForte, imita infarto — melhora com nitrato!RetroesternalNitrato (armadilha!)
CostocondritePontada localizada — o dedo aponta exatamenteJunção condrocostalAINE, repousoPalpação do esterno
🩸

Dissecção de aorta — nunca dar anticoagulante sem antes fazer RX!

Dor dilacerante irradiando para costas + assimetria de pulso/pressão entre membros = dissecção até prova em contrário. Fazer RX de tórax antes de qualquer trombolítico ou antiagregante. Mediastino alargado no RX confirma. Anticoagulante na dissecção → hemorragia fatal. Chamar cirurgia cardiovascular.

✊ Sinal de Levine

Paciente chega com o punho cerrado ou mão aberta sobre o esterno/precórdio. Não consegue localizar a dor com um dedo — ela é difusa, constritiva. Sinal semiológico clássico e altamente sugestivo de origem isquêmica (angina/IAM).

🙇 Posição genopeitoral — pericardite

Paciente sentado inclinado para frente, abraçando o peito ou de joelhos encostando no esterno. Encosta o coração no externo → diminui a fricção entre os folhetos pericárdicos → melhora a dor. Antes muito frequente; hoje menos visto.

💡 Caso Clínico Real — Herpes-Zóster
"Paciente de 40 anos, sem comorbidades, com dor torácica intensa que não passava. ECG normal, troponina normal, RX normal. Ninguém tirou a camisa dele. Quando tirei: herpes-zóster horrível em toda a região lateral. A dor era do zóster. O paciente não é obrigado a falar das bolinhas — você que tem que ser curioso e investigar tudo."
💭 Recall

Espasmo esofagiano imita infarto e melhora com nitrato — como diferenciar?

É o grande armadilha: o espasmo esofagiano causa dor torácica intensa que melhora com nitrato (porque o nitrato também relaxa musculatura lisa esofágica além de dilatar coronárias). Na urgência, se o paciente chega com dor forte que melhorou com nitrato, o instinto é pensar em infarto. A diferença: no cateterismo é limpo. Na prática, sempre tratar como SCA na urgência se o quadro é grave, e investigar esôfago depois. O nitrato que não melhora a dor não exclui infarto (lesão extensa → múltiplas artérias comprometidas). O que exclui são: ECG, troponina e contexto clínico completo.
Causa Isquêmica
Angina, IAM e Síndrome Coronariana Aguda

Angina Estável

Dor que só aparece com esforço físico e melhora com repouso em < 20 min. O paciente parado não sente nada. É o "prenúncio" — significa que tem obstrução coronariana, mas ainda não necrosou. Gatilho: esforço → coração precisa de mais O₂ → artéria obstruída não entrega → isquemia → dor.

Angina Instável

Dor em repouso, que antes aparecia só no esforço, ou dor que piorou progressivamente. Mais grave que a estável — placa coronariana pode romper a qualquer momento gerando IAM. Paciente parado com dor no peito → emergência.

IAM — Infarto Agudo do Miocárdio

Oclusão coronariana completa → necrose miocárdica. Critérios: dor > 20 min + alteração ECG (supra/infra ST) + troponina positiva. Dor de infarto é dor valendo — paciente chega gritando, com sudorese fria, às vezes defeca/urina de tanta dor.

Equivalente anginoso — dispneia SEM dor

Alguns pacientes infartam sem sentir dor torácica — especialmente mulheres, idosos, diabéticos, doentes renais. Nesses grupos, a dor pode ser atípica (epigástrica, no pescoço) ou o único sintoma é dispneia. Sempre pensar em coração ao ver dispneia com fator de risco cardiovascular.

🔴 Características da Dor Isquêmica — Decorar

  • Tipo: opressiva, constritiva, "cinto apertando" — nunca pontada, nunca facada
  • Localização: retroesternal ou precordial — difusa, não localiza com o dedo
  • Irradiação: braço esquerdo E/OU direito, pescoço, mandíbula, ombros, costas
  • Duração: angina < 20 min com repouso · IAM > 20 min sem melhora
  • Piora: esforço físico, emoção, frio intenso
  • Melhora: repouso (angina estável) · nitrato (dilata coronária)
  • Dor pontada que passa em segundos → não é isquêmica
  • Dor que melhora com dipirona → improvável ser isquêmica
  • Dor que piora à palpação do esterno → não é isquêmica (costocondrite)
  • Dor ventilatório-dependente → não é isquêmica (pericárdica, pleural, osteomuscular)
🎯 Quem tem localização atípica?
Mulheres · Idosos · Diabéticos · Renais crônicos
Nesses grupos, o IAM pode se apresentar como epigastralgia, náusea, dispneia ou apenas cansaço. Sempre checar fator de risco antes de liberar "dor gástrica".
Sintoma Cardiovascular
Palpitação — Percepção Incomum dos Batimentos

Palpitação é a percepção desconfortável dos próprios batimentos cardíacos. O paciente descreve como: coração acelerado, disparado, "flutter no peito", batimento irregular.

Metade das palpitações é de origem cardíaca, metade psiquiátrica/funcional. O desafio é identificar qual é qual — sem comprometer de imediato como ansiedade.

🔴 Causas Cardíacas — Investigar

  • Fibrilação atrial: principal arritmia → batimentos irregulares
  • Taquicardia supraventricular (TSV): comum em jovens, início/fim abrupto
  • Extrassístoles: "batida extra" seguida de pausa — muito frequente
  • Cardiomiopatia hipertrófica: associada a morte súbita em jovens atletas
  • Síndrome de WPW: via acessória → taquicardia paroxística

🔵 Causas Não Cardíacas

  • Cafeína excessiva, Red Bull, energéticos: causa mais comum em jovens
  • Hipertireoidismo: taquicardia + perda de peso + tremor — não esquecer!
  • Anemia: taquicardia compensatória
  • Febre: cada 1°C → ~10 bpm a mais
  • Ansiedade/pânico: diagnóstico de exclusão
  • Drogas: cocaína, anfetaminas, simpatomiméticos
Quando me preocupo com palpitação?
🚨

Alta preocupação — investigar urgente

• Palpitação + síncope (perda de consciência) → internação obrigatória
• Palpitação + dor torácica típica + dispneia
• Paciente com doença cardiovascular prévia (ex.: já infartou)
• Batimento irregular percebido pelo paciente
História familiar de morte súbita < 40 anos

✅ Menor preocupação

  • Jovem saudável, sem comorbidades, exame normal
  • Desencadeada claramente por cafeína/estresse
  • Sinais vitais normais, sem síncope
  • Palpitação só quando está "no período de provas" ou em momento ansioso
  • Início/fim gradual (sugestivo de funcional)

🟡 Como caracterizar a palpitação

  • Início/término abrupto: sugestivo de arritmia paroxística (TSV, FA paroxística)
  • Início/término gradual: sugestivo de causa funcional ou metabólica
  • Irregular: pensar em fibrilação atrial
  • Regular e muito rápido: taquicardia supraventricular
  • Duração: episódios curtos × sustentados
  • Uso de medicações: drogas que afinam sangue podem esconder taquicardias
  • Sempre perguntar: função tireoidiana (hipertireoidismo esquecido na urgência!)
💡 Bom senso clínico
"Chega a Isabel de 20 anos com palpitação, exame normal, contexto de provas — examino, converso, acalmo, mas não me preocupo muito. Chega o vozinho hipertenso, diabético, tabagista com palpitação — ECG na hora, monitoro, avalio direitinho. O mesmo sintoma, condutas completamente diferentes pela bagagem do paciente."
Sinal de Alarme
Hemoptise — Sangue das Vias Aéreas

Hemoptise é a expectoração de sangue proveniente do trato respiratório — vermelho vivo, aerado, que vem com tosse. O pulmão tem dupla circulação: artéria/veia pulmonar (troca gasosa) + artérias brônquicas (nutrição do parênquima). A maior parte das hemoptises vem de lesão nas artérias brônquicas.

🔴 Hemoptise vs Hematêmese — Diferenciação obrigatória

  • Hemoptise: sangue vivo, rutilante, aerado/espumoso, vem com tosse, origem respiratória
  • Hematêmese: sangue escuro, "borra de café", misturado com restos alimentares, vem com vômito, origem digestiva
  • Na dúvida: perguntar aspecto, quantidade, como veio (tosse ou vômito)
  • Atenção: epistaxe deglutida pode simular hemoptise

🟡 Quando é grave?

  • Maciça: > 400 ml em 24h OU > 100–150 ml em uma única vez
  • Risco de asfixia (não de choque hipovolêmico!)
  • Hemoptises pequenas repetidas → investigar TB, neoplasia
  • Espuma rósea pela boca = edema agudo de pulmão (IC descompensada)
Causas de Hemoptise por Grupo INFECCIOSAS Tuberculose ★ Pneumonia Bronquiectasia Abscesso pulmonar Fungos endêmicos Brasileiro = fator de risco TB! CARDÍACAS IC esquerda → congestão Estenose mitral TEP Infarto pulmonar Espuma rósea = edema AP NEOPLÁSICAS Ca. brônquico ★ Metástases Carcinóide Tabagismo + perda peso OUTRAS Corpo estranho (criança) Anticoagulantes/AAS Coagulopatias/hemofilia Trauma torácico Exposição a inalantes Perguntar ocupação do paciente!
★ TB e ca. brônquico são as causas mais prevalentes em adultos. Criança → corpo estranho.

🔴 Roteiro de Avaliação — O que investigar

  • Febre + hemoptise + perda de peso → Tuberculose (BAAR, RX tórax, cultura)
  • Tabagismo pesado + emagrecimento + hemoptise → Neoplasia pulmonar
  • IC descompensada + espuma rósea → Edema agudo de pulmão (ruptura capilar)
  • Criança + hemoptise súbita + sibilância unilateral → Corpo estranho
  • Uso de anticoagulante → Qualquer irritação → sangramento
  • Paciente imunossuprimido → Fungo endêmico, TB
  • Exposição ocupacional (inalantes) → perguntar sempre a ocupação!
Revisão
Quiz — Semiologia Cardiopulmonar
Questão 1
Paciente com IC refere precisar de 3 travesseiros para dormir e que acorda às 3h com falta de ar intensa. Quais são os nomes corretos desses dois fenômenos?
APlatipneia e trepopneia
BTrepopneia e dispneia paroxística noturna
COrtopneia e dispneia paroxística noturna
DPlatipneia e ortopneia
✅ Correto! Ortopneia = dispneia que melhora ao elevar o tronco (travesseiros). DPN = tipo de ortopneia que aparece de madrugada quando o retorno venoso cumulativo sobrecarrega o VE. Ambas = IC descompensada.
❌ Usar travesseiros = ortopneia (IC: deitar aumenta retorno venoso). Acordar à noite = dispneia paroxística noturna (tipo de ortopneia — retorno venoso acumula durante o sono).
Questão 2
Jovem diabético chega com glicemia acima do limite do glicosímetro, respirando com inspirações e expirações muito profundas com pausas. Qual ritmo e qual conduta?
ACheyne-Stokes — corrigir IC com diurético
BKussmaul — acidose metabólica grave, monitorizar + UTI + corrigir glicemia
CBiot — lesão neurológica, TC de crânio
DSuspirosa — transtorno de ansiedade, ansiolítico
✅ Correto! Kussmaul é o ritmo clássico da acidose metabólica grave (cetoacidose diabética). Hiperventilação com pausas para eliminar CO₂ e tentar compensar o pH. Paciente em Kussmaul = UTI, monitorização, correção da hiperglicemia.
❌ Kussmaul = acidose metabólica grave (cetoacidose diabética). Insp. profunda + pausa + exp. profunda + pausa = tentativa de eliminar CO₂ para compensar o pH ácido. Cheyne-Stokes = IC. Biot = lesão neurológica.
Questão 3
Paciente chega com dor torácica dilacerante de início súbito irradiando para as costas. Você palpa e percebe que o pulso radial esquerdo é mais fraco que o direito. Primeira conduta?
AAAS + clopidogrel — suspeita de IAM
BTrombolítico — supra no ECG
CNitrato sublingual — angina instável
DRX de tórax + palpar pulsos bilaterais — suspeita de dissecção de aorta
✅ Correto! Dor dilacerante para costas + assimetria de pulso = dissecção de aorta até prova em contrário. NUNCA dar anticoagulante/trombolítico antes de RX tórax (mediastino alargado). Chamar cirurgia cardiovascular. Anticoagulante na dissecção = hemorragia fatal.
❌ Dissecção de aorta: dor dilacerante → costas + assimetria de pulso/pressão. Antes de qualquer anticoagulante: fazer RX tórax (mediastino alargado confirma). Anticoagulante/trombolítico na dissecção = hemorragia fatal.
Questão 4
Paciente com derrame pleural volumoso no pulmão esquerdo diz piorar ao deitar para o lado direito. Por quê e como se chama?
ATrepopneia — ao deitar no lado direito (contralateral), o único pulmão funcional (bom) é comprimido
BOrtopneia — o deitar aumenta o retorno venoso
CPlatipneia — piora ao assumir posição ortostática
DDPN — o retorno venoso acumula durante o sono
✅ Trepopneia! Ao deitar do lado contralateral ao derrame (lado bom), você comprime o pulmão que está funcionando bem — agravando a dispneia. A solução: deitar do lado com derrame — o pulmão ruim já estava ruim, e o bom fica livre para expandir.
❌ Trepopneia: derrame pleural unilateral → deitar do lado contralateral comprime o único pulmão funcional → piora. Solução: deitar do lado do derrame (ruim já estava ruim) para liberar o pulmão bom.
Questão 5
Qual característica da dor torácica praticamente exclui origem isquêmica cardíaca?
AIrradiação para o braço esquerdo
BDuração superior a 20 minutos
CDor pontada bem localizada que piora com a palpação do esterno
DMelhora com nitrato
✅ Correto! Dor isquêmica é difusa, opressiva, mal localizada — o paciente não consegue apontar com um dedo. Pontada localizada que piora à palpação = osteomuscular (costocondrite). O coração não sabe se você está apertando o esterno.
❌ Dor isquêmica é opressiva e difusa — nunca pontada localizada. Se o paciente localiza com um dedo e piora à palpação → costocondrite ou osteomuscular, não isquêmico.
Questão 6
Palpitação com início e término abruptos, percebida como irregular pelo paciente, em homem de 65 anos hipertenso e diabético. Conduta?
AAlta com orientação — provavelmente ansiedade
BMonitorizar, ECG, auscultar — alta suspeita de arritmia (FA)
CPedir só TSH — provavelmente hipertireoidismo
DAnsiolítico e observação
✅ Correto! Paciente com alto risco cardiovascular + início/fim abrupto + batimento irregular = suspeita de arritmia (fibrilação atrial). ECG + monitorização obrigatórios. Nunca mandar para casa sem investigar quando tem esse perfil de risco.
❌ Com esse perfil de risco (HAS + DM + idade) e palpitação irregular de início abrupto → ECG + monitorização imediata. Alta suspeita de FA. Ansiedade é diagnóstico de exclusão, especialmente nesse paciente.

🥜 Bons estudos, Alcino!

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