🧪 Nefrologia · Material de Estudo

Distúrbios Hidroeletrolíticos

Sódio e Potássio — fisiologia, causas, efeitos, tratamento. Conceitos expandidos, revisão e sequência lógica para o Alcino estudar do jeito certo.

💧 Base
⬆️ HiperNa
⬇️ HipoNa
⬇️ HipoK
⬆️ HiperK
🎯 Quiz

💡 O princípio fundamental: Osmolaridade

O corpo humano mantém um equilíbrio delicado entre a água e os eletrólitos. A osmolaridade é a concentração de solutos no plasma. O sódio é o principal determinante da osmolaridade extracelular — se o sódio muda, a água se redistribui entre os compartimentos para tentar compensar.

Pense assim: a água segue o sódio. Onde tem mais sódio, a água vai para lá (osmose). Todos os distúrbios do sódio são, no fundo, distúrbios da relação sódio/água.

Conceitos-chave — a base de tudo que vem a seguir

  • Na⁺ = principal cátion EXTRACELULAR (puxa água para FORA da célula) · Normal: 135–145 mEq/L
  • K⁺ = principal cátion INTRACELULAR (puxa água para DENTRO da célula) · Normal: 3,5–5,0 mEq/L
  • Na⁺ altera osmolaridade → a célula mais sensível é o neurônio → sintomas neurológicos
  • K⁺ altera potencial de membrana → as células mais sensíveis são cardíacas e musculares → arritmia, fraqueza
  • Distúrbios do Na⁺ = problema de ÁGUA (excesso ou déficit relativo)
  • Distúrbios do K⁺ = problema de EXCITABILIDADE (cardíaca e muscular)

🔵 Sódio (Na⁺) — O Ion da Osmolaridade

  • Principal cátion do líquido extracelular (LEC)
  • Determina ~95% da osmolaridade plasmática
  • Controlado pelo ADH (retém água) e pela aldosterona (retém Na⁺)
  • O cérebro é o órgão que mais sofre com alterações de Na⁺
  • Hipernatremia = sódio concentrado (déficit de água livre)
  • Hiponatremia = sódio diluído (excesso relativo de água)

🔴 Potássio (K⁺) — O Ion da Excitabilidade

  • Principal cátion do líquido intracelular (LIC) — 98% está dentro das células!
  • Crucial para o potencial de membrana (repouso = -70mV nos neurônios)
  • Pequenas variações extracelulares → efeitos DRAMÁTICOS no coração
  • Excretado principalmente pelos rins (regulação pela aldosterona)
  • Hipocalemia: fraqueza + onda U no ECG + risco de arritmia
  • Hipercalemia: onda T apiculada + risco de PCR → emergência médica!
Distribuição dos Íons — Intra vs Extracelular INTRACELULAR (LIC) K⁺ 98% do K⁺ do corpo puxa água para DENTRO Potencial de repouso: -90mV (cardíaco) membrana EXTRACELULAR (LEC) Na⁺ principal cátion do plasma puxa água para FORA Determina osmolaridade plasmática osmose
K⁺ = intracelular (excitabilidade). Na⁺ = extracelular (osmolaridade). A água se redistribui entre os compartimentos por osmose.
🎯 Mnemônico central
Na⁺ = Neurônio (cérebro sofre) · K⁺ = Kardíaco (coração sofre)
Distúrbios do sódio → sintomas neurológicos (confusão, convulsão). Distúrbios do potássio → alterações cardíacas (ECG alterado, arritmia, PCR).

✅ Revisão — Base para todas as abas seguintes

  • Na⁺ normal: 135-145 mEq/L · K⁺ normal: 3,5-5,0 mEq/L
  • Na⁺ extracelular → osmolaridade → neurônio sensível
  • K⁺ intracelular → potencial de membrana → coração sensível
  • A água segue o sódio (osmose)
  • Distúrbio do Na = problema de água · Distúrbio do K = problema de excitabilidade

🔗 Sequência lógica → Hipernatremia primeiro

Vamos começar pelo sódio alto (hipernatremia) porque é mais intuitivo: tem Na⁺ demais, falta água. Depois vamos para a hiponatremia (mais complexa — 3 tipos pelo volume). E por último o potássio (hipo e hipercalemia), que é a emergência mais temida.

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💡 Hipernatremia = sódio concentrado = déficit de água livre

Na hipernatremia (Na⁺ > 145 mEq/L), não é que tem sódio demais — é que tem água de menos. O sódio está concentrado porque a água livre do plasma está depletada. A consequência: a osmolaridade plasmática sobe → a água é "puxada" para fora das células → neurônios desidratam.

Fisiopatologia
Mecanismo de Defesa: O ADH

O principal mecanismo contra hipernatremia é o ADH (hormônio antidiurético), também chamado de vasopressina. Produzido no hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise, o ADH age no néfron distal (túbulo contorcido distal + ducto coletor), inserindo aquaporinas na membrana para reabsorver água → concentra a urina.

O ADH é estimulado por dois gatilhos: osmótico (sódio alto no plasma) e hemodinâmico (volume baixo, hipotensão). Se o ADH está funcionando e o paciente tem acesso à água, hipernatremia quase nunca acontece. Quando acontece, é porque o mecanismo falhou.

Néfron — Onde o ADH e a Aldosterona agem Glomérulo filtração Aferente Eferente TCP reabs. 65% Na⁺/H₂O Alça de Henle Furosemida age AQUI ↑ excreção Na⁺ + H₂O TCD Tiazídico age AQUI ↑ excreção Na⁺ Ducto Coletor ADH aquaporinas reabsorve H₂O Aldosterona reabs. Na⁺ excreta K⁺ → Urina
ADH age no ducto coletor (reabsorve H₂O). Aldosterona troca Na⁺/K⁺ no ducto coletor. Furosemida na alça de Henle. Tiazídico no TCD.

🔴 Causas de Hipernatremia

  • Desidratação por perda de água: dia na praia sem beber água, diarreia profusa, vômitos, febre prolongada com sudorese
  • Acesso restrito à água: paciente idoso acamado, RN, pacientes com rebaixamento de consciência
  • Diabetes Insipidus: deficiência de ADH (central → hipofisário) ou resistência ao ADH (nefrogênico). O rim "não recebe a ordem" de concentrar urina → perda maciça de água livre
  • Diurese osmótica: glicemia muito alta (cetoacidose diabética) → glicose arrasta água pela urina
  • Furosemida (diurético de alça): causa perda de água proporcionalmente maior que a de Na⁺ → pode concentrar o sódio

🧠 Efeitos — O cérebro sofre

  • Osmolaridade alta → água sai dos neurônios → desidratação celular cerebral
  • Sintomas: confusão mental, letargia, irritabilidade, hiper-reflexia
  • Casos graves: convulsão, coma
  • Os sintomas oscilam entre letargia e excitabilidade

💉 Tratamento

  • Repor o déficit de água livre (água pura VO ou SG 5% IV)
  • A correção deve ser LENTA
  • Por quê? Se corrigir rápido → água entra nos neurônios muito depressa → edema cerebral
  • Meta: corrigir Na⁺ no máximo 10-12 mEq/L em 24h
  • Tratar a causa de base (ex: dar desmopressina no DI central)
🧠

Correção rápida = Edema Cerebral

Na hipernatremia crônica, os neurônios se adaptam (produzem osmois idiogênicos para não desidratar). Se você repor água rápido demais, a água entra nos neurônios "adaptados" e causa edema cerebral potencialmente fatal. Corrigir lentamente!

✅ Revisão — Hipernatremia

  • Na⁺ > 145 mEq/L → sódio concentrado → déficit de água livre
  • ADH é o principal mecanismo de defesa (reabsorve água no ducto coletor)
  • Causas: desidratação, diabetes insipidus, diurese osmótica, acesso restrito à água
  • Efeitos: neurológicos (confusão → convulsão → coma)
  • Tratamento: repor água livre LENTAMENTE (risco de edema cerebral se rápido)

🔗 Próximo → Hiponatremia

Se na hipernatremia o Na⁺ está concentrado (falta água), na hiponatremia ele está diluído (sobra água ou falta sódio). A hiponatremia é mais complexa porque se classifica em 3 tipos baseados no volume. Vamos lá.

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Hipernatremia, ADH, diabetes insipidus — questões no banco!

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💡 Hiponatremia = sódio diluído = excesso relativo de água

Na hiponatremia (Na⁺ < 135 mEq/L), o sódio está diluído demais. Quase sempre associada a hiposmolaridade. A classificação mais importante é pelo volume do paciente — isso define a causa e o tratamento.

Classificação por Volume
3 Tipos de Hiponatremia — A Chave do Diagnóstico
Hiponatremia — Classificação pelo Volume HIPOVOLÊMICA pouco Na⁺ + pouca H₂O ↓↓ volume Vômito, diarreia, suor repôs só água Tto: SF 0,9% HIPERVOLÊMICA H₂O >> Na⁺ Na⁺ diluído ↑↑ volume (edema!) IC · Cirrose · IR Tto: Restrição + Furo EUVOLÊMICA H₂O ↑ sutil vol. ≈ normal SIADH · Potomania ISRS · Tumor pulmão Tto: Restrição ± 3%
Hipovolêmica (perdeu tudo, repôs só água → SF 0,9%). Hipervolêmica (edema, IC/cirrose → restrição + furo). Euvolêmica (SIADH → restrição ± salina 3%).

🔴 1. Hiponatremia Hipovolêmica (perdeu Na⁺ e água, mas repôs só água)

  • O que aconteceu: paciente perdeu sódio E água (vômitos, diarreia, exercício intenso), mas repôs SÓ com água (sem sódio)
  • Resultado: Na⁺ diluído + volume baixo (desidratado)
  • Tratamento: soro fisiológico 0,9% (NaCl) — repõe volume E sódio ao mesmo tempo
  • Dica clínica: paciente tem sinais de desidratação (mucosas secas, turgor diminuído, taquicardia)

🔵 2. Hiponatremia Hipervolêmica (excesso de água e Na⁺, mas água >> Na⁺)

  • O que aconteceu: paciente tem excesso de volume total (edema!), mas a água é proporcionalmente maior → dilui o Na⁺
  • Causas clássicas: insuficiência cardíaca, insuficiência renal, insuficiência hepática (cirrose)
  • Paciente está edemaciado — cheio de volume, mas Na⁺ diluído
  • Tratamento: restrição hídrica + furosemida (elimina o excesso de água/volume)

🟣 3. Hiponatremia Euvolêmica (volume normal, Na⁺ diluído)

  • Volume corporal normal ou levemente aumentado, mas Na⁺ diluído
  • SIADH (Síndrome de Secreção Inapropriada de ADH): ADH liberado sem estímulo osmótico → retém água demais → dilui Na⁺
  • Causas de SIADH: tumores (câncer de pulmão!), medicamentos (ISRS — antidepressivos), doenças pulmonares, SNC
  • Potomania da cerveja: paciente substitui alimentação por cerveja e bolacha → ingere líquido de baixo soluto em excesso → ultrapassa capacidade renal de excreção de água livre
  • Tratamento SIADH: restrição hídrica + tratar causa + se grave: salina hipertônica 3%
💭 Recall

Hiperglicemia causa hiponatremia — como?

A glicose alta no sangue é osmoticamente ativa → puxa água de dentro da célula para o plasma → dilui o Na⁺. Para cada 100 mg/dL de glicemia acima de 100, o Na⁺ cai ~1,6 mEq/L. Essa é uma hiponatremia dilucional — o Na⁺ real pode estar normal, só parece baixo pela diluição. Corrigir a hiperglicemia (insulina) pode resolver a hiponatremia sem precisar dar sódio.
Farmacologia
Fármacos e Hiponatremia

🟡 Tiazídicos CAUSAM hiponatremia

  • Ex: hidroclorotiazida
  • Impedem reabsorção de Na⁺ no túbulo distal
  • Mas prejudicam a excreção de água livre
  • Resultado: perdem Na⁺ + retêm água → Na⁺ diluído
  • É a causa medicamentosa CLÁSSICA de hiponatremia!

🟢 Furosemida TRATA hiponatremia hipervolêmica

  • Diurético de alça — elimina grande volume de água
  • Útil na hiponatremia hipervolêmica (IC, cirrose): tira o excesso de volume
  • Paradoxo: na hipernatremia, a furosemida pode CAUSAR (perde mais água que Na⁺)
  • Na hiponatremia hipervolêmica, ela TRATA (elimina o excesso de volume/água)
⚠️

Mielinólise Pontina — Correção rápida MATA!

Se corrigir o Na⁺ rápido demais (>10-12 mEq/L em 24h), as células do tronco cerebral sofrem desmielinização osmótica → Síndrome de Desmielinização Osmótica (mielinólise pontina) → quadriparesia, disfagia, disartria, locked-in syndrome. Potencialmente irreversível. Máximo: 1 mEq/L/hora, até 10 mEq/L em 24h.

Tratamento da Hiponatremia — Resumo Rápido

  • Assintomática (>48h): tratar a causa (suspender ISRS, restrição hídrica, corrigir hiperglicemia)
  • Sintomática aguda/grave: salina hipertônica 3% — pode dar bolus de 100ml para estabilizar
  • Velocidade máxima: 1 mEq/L/h · Máximo em 24h: 10 mEq/L
  • Hipovolêmica: SF 0,9% · Hipervolêmica: restrição hídrica + furosemida · Euvolêmica: restrição hídrica

✅ Revisão — Hiponatremia

  • Na⁺ < 135 mEq/L → sódio diluído. Classificar por VOLUME (hipo/hiper/eu)
  • Hipovolêmica: vômito/diarreia + repôs só água → SF 0,9%
  • Hipervolêmica: IC/cirrose/IR → restrição hídrica + furosemida
  • Euvolêmica: SIADH (tumor, ISRS) ou potomania → restrição hídrica ± salina 3%
  • Tiazídicos CAUSAM hiponatremia · Furosemida TRATA a hipervolêmica
  • Correção rápida → mielinólise pontina! Máximo 10 mEq/L/24h
  • Hiperglicemia pode simular hiponatremia (dilucional) — corrigir glicemia primeiro

🔗 Próximo → Hipocalemia (Potássio Baixo)

Saímos do sódio (problema de osmolaridade/neurônio) e entramos no potássio (problema de excitabilidade/coração). A hipocalemia é mais prevalente e a hipercalemia é a mais temida. Vamos começar pela hipocalemia.

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Hiponatremia, SIADH, mielinólise pontina — tudo no banco!

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💡 Hipocalemia = K⁺ < 3,5 mEq/L = potássio baixo no sangue

O potássio é o guardião do potencial de membrana. Quando o K⁺ extracelular cai, o gradiente eletroquímico muda — o potencial de repouso fica mais negativo (hiperpolarização) → a célula precisa de estímulo MAIOR para despolarizar. No coração isso gera atraso na repolarização e risco de arritmias.

🔴 Causas de Hipocalemia

  • Perdas renais: diuréticos de alça (furosemida) e tiazídicos → aumentam excreção de K⁺
  • Hiperaldosteronismo: excesso de aldosterona → reabsorve Na⁺ e excreta K⁺ (troca Na/K no ducto coletor)
  • Perdas gastrointestinais: vômitos, diarreia, abuso de laxantes
  • Shift intracelular (K⁺ entra na célula): alcalose metabólica (pH alto → K⁺ entra na célula em troca de H⁺), insulina (promove entrada de K⁺), agonistas β₂ (salbutamol)

💪 Efeitos Musculares

  • Fraqueza muscular progressiva
  • Câimbras, fadiga
  • Casos graves: paralisia flácida (hipocalemia profunda)
  • Íleo paralítico: paralisia do intestino (musculatura lisa não contrai)

❤️ Efeitos Cardíacos (MAIS PERIGOSO)

  • ECG: onda U proeminente (achado clássico!)
  • Achatamento da onda T
  • Depressão do segmento ST
  • Risco de arritmias ventriculares graves (torsade de pointes, FV)
  • Potencializa toxicidade dos digitálicos
ECG — Hipocalemia vs Hipercalemia vs Normal NORMAL P R T P normal · T normal · sem onda U HIPOCALEMIA (K⁺ ↓) T↓ U T achatada · Onda U ★ · ST deprimido HIPERCALEMIA (K⁺ ↑) T⬆ T em tenda T apiculada ★ · P ausente · QRS alarga Progressão ECG da Hipercalemia → até PCR K⁺ 5,5-6,5 T apiculada K⁺ 6,5-7,5 P achatada · PR↑ K⁺ 7,5-8,0 QRS alargado K⁺ > 8,0 Sinusoidal → FV/PCR ⚠️ T apiculada = PRIMEIRO sinal! Se viu T em tenda → agir AGORA Hipocalemia: onda U aparece · T achata · ST deprime | Hipercalemia: T apiculada · P some · QRS alarga → PCR
ECG é a ferramenta diagnóstica mais rápida nos distúrbios do K⁺. Onda U = hipo. T apiculada = hiper. Progressão da hipercalemia pode levar a PCR em minutos.

Tratamento da Hipocalemia

  • Reposição de K⁺ preferencialmente ORAL (KCl xarope ou comprimido)
  • IV reservada para casos graves ou impossibilidade de VO
  • IV deve ser lenta e com monitorização cardíaca contínua
  • Velocidade máxima: 20 mEq/h em acesso periférico (40 mEq/h em central com monitor)
  • Risco da reposição rápida IV = parada cardíaca!
  • Corrigir causa de base: suspender diurético se possível, tratar hiperaldo, repor magnésio (hipoMg impede correção do K)
🎯 ECG da Hipocalemia
Onda U + Achatamento de T + Depressão ST = K⁺ baixo
A onda U é patognomônica de hipocalemia. T achata. ST deprime. Risco de arritmia ventricular. Monitorizar SEMPRE ao repor IV.

✅ Revisão — Hipocalemia

  • K⁺ < 3,5 mEq/L → fraqueza, câimbra, íleo paralítico
  • ECG: onda U + T achatada + ST deprimido
  • Causas: diuréticos, vômito/diarreia, hiperaldosteronismo, alcalose, insulina, β₂-agonistas
  • Shift: alcalose empurra K⁺ pra dentro da célula (troca por H⁺)
  • Tratamento: KCl oral (preferência) · IV lenta com monitor (risco de PCR)
  • Hipomagnesemia refratária → corrigir Mg²⁺ primeiro (senão K⁺ não corrige)

🔗 Próximo → Hipercalemia (a emergência mais temida)

Se a hipocalemia é perigosa, a hipercalemia é uma emergência médica. O K⁺ alto despolariza parcialmente as células cardíacas → facilita arritmias ventriculares → PCR. O tratamento tem 3 pilares (proteger, deslocar, remover). Vamos lá.

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Hipocalemia, ECG, onda U — questões comentadas no banco!

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💡 Hipercalemia = K⁺ > 5,0 mEq/L = EMERGÊNCIA MÉDICA

A hipercalemia é uma das emergências mais letais da medicina porque K⁺ alto despolariza parcialmente as células cardíacas → reduz o potencial de repouso → facilita arritmias ventriculares que podem evoluir para fibrilação ventricular ou assistolia em minutos. Cada segundo conta.

Shift K⁺ / H⁺ — Acidose vs Alcalose ACIDOSE (pH ↓) → HiperK⁺ CÉLULA K⁺ ↑↑ PLASMA H⁺ ↑↑ (ácido) H⁺ entra → ← K⁺ sai H⁺ entra na célula · K⁺ sai → K⁺ sobe no sangue ALCALOSE (pH ↑) → HipoK⁺ CÉLULA H⁺ sai ← PLASMA pH ↑ (alcalino) ← K⁺ entra H⁺ sai → H⁺ sai da célula · K⁺ entra → K⁺ desce no sangue
Na acidose: H⁺ entra na célula em troca de K⁺ que sai → hipercalemia. Na alcalose: H⁺ sai em troca de K⁺ que entra → hipocalemia. Mesma troca, sentido oposto.

🔴 Causas de Hipercalemia

  • Excreção renal diminuída (causa mais comum):
  • • Insuficiência renal aguda ou crônica
  • • Diuréticos poupadores de K⁺ (espironolactona)
  • • IECA (captopril, enalapril) e BRA (losartana) — reduzem aldosterona
  • • Hipoaldosteronismo
  • Shift extracelular (K⁺ sai da célula):
  • Acidose metabólica: H⁺ entra na célula, K⁺ sai (troca iônica)
  • Lise celular maciça: rabdomiólise, síndrome de lise tumoral, trauma grave, hemólise
  • Pseudohipercalemia: hemólise da amostra durante coleta → K⁺ liberado dos eritrócitos rompidos → valor falsamente alto. Sempre repetir se suspeitar!

ECG Progressivo da Hipercalemia — Sequência mortal

  • Estágio 1 (K⁺ 5,5-6,5): ondas T apiculadas e estreitas ("em tenda") — primeiro sinal!
  • Estágio 2 (K⁺ 6,5-7,5): achatamento da onda P + prolongamento do intervalo PR
  • Estágio 3 (K⁺ 7,5-8,0): alargamento do QRS (condução lenta)
  • Estágio 4 (K⁺ > 8,0): padrão sinusoidal → fibrilação ventricular ou assistolia → PCR
Emergência
Tratamento — Os 3 Pilares (Proteger → Deslocar → Remover)

1️⃣ PROTEGER o Coração (imediato!)

  • Gluconato de Cálcio IV — primeira medida!
  • NÃO altera o nível de K⁺ no sangue
  • Estabiliza a membrana cardíaca → protege contra arritmia enquanto você age nos próximos passos
  • Efeito em 1-3 minutos, dura 30-60 min
  • É o "escudo" do coração enquanto você trabalha para baixar o K⁺

2️⃣ DESLOCAR K⁺ para dentro da célula (shift)

  • Insulina + Glicose: insulina promove entrada de K⁺ na célula (NaK-ATPase). Dar glicose junto para não hipoglicemiar
  • β₂-agonista inalatório (salbutamol): também promove entrada de K⁺ intracelular
  • Bicarbonato de sódio: se houver acidose associada — ao corrigir o pH, H⁺ sai e K⁺ volta para a célula
  • Esses medicamentos NÃO removem K⁺ do corpo — só escondem dentro da célula temporariamente

3️⃣ REMOVER K⁺ do corpo (definitivo)

  • Furosemida (diurético de alça): aumenta excreção renal de K⁺ (se rim funcionar)
  • Resinas de troca iônica (Sorcal® / Kayexalate): administradas VO ou retal — trocam K⁺ por Na⁺ ou Ca²⁺ no intestino
  • Diálise: para casos graves e refratários — remove K⁺ diretamente do sangue
  • A diálise é o tratamento definitivo quando o rim não funciona
🎯 Decorar — Os 3 Pilares
C·I·D = Cálcio (protege) → Insulina+Glicose (desloca) → Diurético/Diálise (remove)
Gluconato de Ca²⁺ é SEMPRE o primeiro (protege o coração AGORA). Depois desloca K⁺ para dentro da célula (insulina+glicose, salbutamol). Depois remove do corpo (furosemida, resina, diálise).
💭 Recall

Por que o gluconato de cálcio protege o coração sem mudar o K⁺?

O cálcio IV aumenta o limiar de despolarização das células cardíacas → torna o coração mais "resistente" ao efeito do K⁺ alto. O K⁺ continua alto no sangue, mas o coração fica protegido temporariamente contra arritmias. É uma medida de emergência enquanto você age para realmente baixar o K⁺ (com insulina, furosemida ou diálise). Não adianta dar só cálcio e parar — o efeito dura 30-60 min. Precisa BAIXAR o K⁺ de verdade.

✅ Revisão — Hipercalemia

  • K⁺ > 5,0 mEq/L → emergência médica → risco de PCR
  • Causas: insuficiência renal (mais comum), IECA/BRA, espironolactona, acidose, lise celular
  • Pseudohipercalemia: hemólise da amostra → sempre repetir se suspeitar
  • ECG progressivo: T apiculada → P achatada → QRS alargado → sinusoidal → FV/assistolia
  • Tratamento 3 pilares: Ca²⁺ (proteger) → Insulina+Glicose/Salbutamol (deslocar) → Furosemida/Resina/Diálise (remover)
  • Gluconato de Ca²⁺ = SEMPRE primeiro (protege coração em 1-3 min, não muda K⁺)

🔗 Conectando os conceitos

Note o padrão: na hipocalemia, a alcalose empurra K⁺ para DENTRO da célula (shift). Na hipercalemia, a acidose empurra K⁺ para FORA. É a mesma troca H⁺/K⁺ — só que em sentido oposto. E no tratamento da hipercalemia, usamos insulina para empurrar o K⁺ de volta para dentro (o oposto do que acontece na cetoacidose diabética). A farmacologia do potássio está em todo lugar: diuréticos, IECA, insulina, β₂-agonistas. Próximos temas para aprofundar: gasometria arterial (acidose/alcalose) e distúrbios do cálcio/magnésio.

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Hipercalemia, ECG, 3 pilares do tratamento — tudo no banco do MedCaju!

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Revisão Final
Quiz — Distúrbios Hidroeletrolíticos
Questão 1
Paciente desidratado após maratona no verão, confuso e letárgico. Na⁺ = 158 mEq/L. Qual a conduta e qual o risco da correção rápida?
ASalina hipertônica 3% rápida — risco de mielinólise pontina
BReposição de água livre lentamente — correção rápida causa edema cerebral
CFurosemida para eliminar sódio — risco de hipocalemia
DRestrição hídrica — o problema é excesso de água
✅ Hipernatremia = Na⁺ concentrado = déficit de água livre. Tratar com reposição LENTA de água (VO ou SG 5% IV). Correção rápida → neurônios adaptados recebem água de repente → edema cerebral. Mielinólise pontina é risco da correção rápida da HIPOnatremia, não da hiper.
❌ Hipernatremia = Na⁺ concentrado → repor água livre LENTAMENTE. Correção rápida → edema cerebral (neurônios adaptados incham). Mielinólise pontina = risco da hiponatremia (não da hiper). Restrição hídrica seria na hiponatremia.
Questão 2
Paciente com IC descompensada, edema de MMII, Na⁺ = 128 mEq/L. Que tipo de hiponatremia e qual o tratamento?
AHipovolêmica — SF 0,9%
BEuvolêmica (SIADH) — restrição hídrica
CHipervolêmica — restrição hídrica + furosemida
DHipervolêmica — salina hipertônica 3% em bolus
✅ IC com edema = hipervolêmica (excesso de volume, mas água >> Na⁺ → diluição). Tratamento: restrição hídrica + furosemida (elimina volume). SF 0,9% seria para hipovolêmica. Salina 3% é para casos graves sintomáticos agudos.
❌ IC + edema = hiponatremia hipervolêmica. Tratamento: restrição hídrica + furosemida. SF 0,9% = hipovolêmica. SIADH = euvolêmica.
Questão 3
Paciente com K⁺ = 7,2 mEq/L e ECG mostrando ondas T apiculadas. Qual a PRIMEIRA medida?
AInsulina + Glicose IV — desloca K⁺ para dentro da célula
BFurosemida IV — remove K⁺ pela urina
CDiálise de emergência — remove K⁺ definitivamente
DGluconato de Cálcio IV — estabiliza a membrana cardíaca (protege contra arritmia)
✅ SEMPRE primeiro: Gluconato de Cálcio IV. Ele NÃO baixa o K⁺, mas protege o coração contra arritmias imediatamente (1-3 min). Depois: insulina+glicose (deslocar) e furosemida/diálise (remover). A proteção cardíaca é a prioridade absoluta.
❌ Primeiro passo SEMPRE: Gluconato de Cálcio IV → protege o coração (não baixa K⁺, mas evita arritmia fatal). Depois: Insulina+Glicose (desloca), Furosemida/Diálise (remove).
Questão 4
Qual achado eletrocardiográfico é clássico e patognomônico de hipocalemia?
AOnda U proeminente
BOnda T apiculada ("em tenda")
CQRS alargado + padrão sinusoidal
DSupradesnivelamento de ST difuso
✅ Onda U proeminente = marca registrada da hipocalemia. Na hipERcalemia: T apiculada (primeiro sinal), QRS alargado e padrão sinusoidal (estágio avançado). Supra de ST difuso = pericardite.
❌ Onda U = hipocalemia. T apiculada = hipercalemia. QRS alargado + sinusoidal = hipercalemia grave. Supra ST difuso = pericardite.
Questão 5
Paciente em uso de ISRS (sertralina) há 3 meses chega com Na⁺ = 122 mEq/L, sem edema, com náuseas e confusão. Principal hipótese e conduta?
AHiponatremia hipovolêmica — SF 0,9%
BSIADH por ISRS (hiponatremia euvolêmica) — suspender ISRS + restrição hídrica + se grave: salina 3% lenta
CInsuficiência renal — furosemida
DPotomania da cerveja — restrição hídrica pura
✅ ISRS é causa clássica de SIADH → ADH secretado sem estímulo osmótico → retém água → dilui Na⁺. Paciente euvolêmico (sem edema, sem desidratação). Conduta: suspender o ISRS + restrição hídrica. Se sintomático grave: salina 3% com correção LENTA (máx 10 mEq/24h — risco de mielinólise pontina).
❌ ISRS causa SIADH (ADH inapropriado) → hiponatremia euvolêmica. Tratamento: suspender ISRS + restrição hídrica. Se sintomático: salina 3% lenta. Máximo 10 mEq/L/24h (mielinólise pontina se rápido).

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