🫁 Anestesiologia · Via Aérea

Manejo da
Via Aérea

Anatomia, dispositivos, técnicas de intubação e manobras auxiliares — do básico ao difícil

5dispositivos
4manobras
3métodos de confirmação
Quizincluído
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Anatomia da Via Aérea Superior

Entender a anatomia é o primeiro passo para qualquer procedimento de via aérea

Cavidade Nasal Cavidade Oral Úvula Orofaringe Epiglote levanta → acesso à laringe LARINGE Laringe via aérea inferior Pregas Vocais podem entrar em espasmo TRAQUEIA Traqueia destino do tubo IOT ESÔFAGO Esôfago via digestiva — NÃO é o destino Membrana Cricotireóidea Via Aérea Superior — Visão Sagital

Clique nas seções abaixo para revisar cada estrutura

🫀 Orofaringe

Região logo acima da laringe. É onde o anestesista "chega" ao fazer a laringoscopia. A abertura aqui dá acesso à laringe (via aérea) ou ao esôfago (via digestiva). A úvula é a primeira estrutura visível ao abrir a boca.

🌿 Epiglote

Pequena cartilagem que "tampa" a laringe durante a deglutição. Na laringoscopia, ao elevar a epiglote com a lâmina, expõe-se a glote (entrada da laringe) e as pregas vocais — o caminho para o tubo.

🎵 Pregas Vocais

São a "porta de entrada" da laringe. O tubo orotraqueal deve passar entre as pregas vocais. Podem entrar em laringoespasmo (espasmo reflexo), dificultando ou impossibilitando a passagem. O paciente pode ficar rouco após a intubação.

🔴 Membrana Cricotireóidea

Localizada entre a cartilagem tireoide e cricoide. Acesso de emergência quando a intubação falha — é o local da cricotireoidostomia, procedimento de último recurso em via aérea impossível.

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Conceito fundamental: A laringe e o esôfago estão lado a lado na laringofaringe. Na laringe é a via aérea; no esôfago é a via digestiva. Intubar erroneamente o esôfago é uma emergência crítica.

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Fases de Preparação

Antes de qualquer abordagem da via aérea existe uma fase de checagem e planejamento

Conhecer a anatomia do paciente

Classificar a dificuldade de acesso: Mallampati, abertura de boca, extensão cervical, características faciais.

Checar os dispositivos disponíveis

Laringoscópio (pilha funcionando), tubos, máscara laríngea, AMBU, aspirador. NUNCA comece sem checar.

Reconhecer a via aérea difícil

Se a previsão é difícil, acionar ajuda ANTES de induzir. Nunca induza sozinho um paciente com previsão de via difícil.

Avaliar o estômago cheio

Paciente em urgência (trauma, cirurgia de emergência) pode ter estômago cheio → risco de broncoaspiração. Ativar protocolo de sequência rápida de intubação (SRI).

Pré-oxigenação

Denitrogenar os alvéolos antes da indução para aumentar o tempo de apneia tolerada.

Posicionamento do paciente

Coxim suboccipital + hiperextensão cervical → alinha os três eixos (oral, faríngeo, laríngeo) e facilita a visualização.

⚠️ Regra de ouro

Se induziu o relaxante neuromuscular, o paciente não respira mais. Você tem minutos (ou segundos, no obeso) para assegurar a via aérea. Prepare tudo antes de induzir.


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Pré-oxigenação / Denitrogenação

Estratégia essencial para aumentar a reserva de O₂ e ganhar tempo durante a apneia induzida

🔵 O Princípio

O ar ambiente tem ~78% de N₂ e ~21% de O₂. Ao respirar O₂ a 100% por vários minutos, substitui-se o N₂ alveolar por oxigênio puro (denitrogenação). Isso aumenta drasticamente a reserva de O₂ disponível durante a apneia.

Tempo de Apneia Segura com SpO₂ ≥ 90% ~1–2 min Adulto saudável — SEM pré-ox ~6 min Adulto saudável — COM pré-ox ~30 seg (obeso/gestante/DPOC) 0 1 min 2 min 3 min 4+ min
📋 Técnica Padrão
  • ✦ O₂ a 100% via máscara facial
  • ✦ Duração: 3 a 5 minutos
  • ✦ Respiração normal e tidal
⚡ Técnica Rápida
  • ✦ O₂ a 100% via máscara
  • 8 respirações profundas em 1 minuto
  • ✦ Alternativa em emergências
⚠️
Atenção nos grupos de risco: Obesos, gestantes, crianças e pacientes com DPOC têm capacidade residual funcional (CRF) reduzida. O tempo de apneia segura é drasticamente menor — chegando a ~30 segundos sem pré-oxigenação adequada.

🤿 Técnica EC da Máscara Facial

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Dispositivos para Via Aérea

Cada dispositivo tem indicações precisas. Saber quando usar cada um é fundamental.

Não protege via aérea

Máscara Facial

Fornece O₂ suplementar e permite ventilação com AMBU. Principal uso: pré-oxigenação e ventilação em procedimentos curtos ou com ketamina.

  • Técnica EC (E = mandíbula / C = máscara)
  • Não protege contra broncoaspiração
  • Usada com ventilação espontânea ou assistida
Não protege via aérea

Cânula de Guedel (Orofaríngea)

Cânula rígida inserida pela boca até a orofaringe. Impede que a língua obstrua a hipofaringe em pacientes inconscientes.

  • Inserção invertida (côncavo para cima) → girar ao descer
  • Vários tamanhos — escolher proporcionalmente ao paciente
  • Não usar em paciente consciente (reflexo do vômito)
  • NÃO protege contra aspiração
Não protege via aérea

Cânula Nasofaríngea

Inserida pelo nariz até a nasofaringe. Alternativa quando a via oral não é acessível (trauma de mandíbula, trismo, câncer oral).

  • Contraindicada em fratura de base do crânio
  • Risco de introdução intracraniana em fraturas
  • Bem tolerada em pacientes semiconscientes
Proteção parcial

Máscara Laríngea (LMA)

Dispositivo supraglótico inserido sem laringoscopia. Posiciona-se sobre a abertura da laringe, vedando a passagem de ar pelo esôfago.

  • Inserção rápida, sem laringoscopia
  • Não exige bloqueio neuromuscular
  • Alternativa em via difícil (plano B)
  • Proteção parcial — não usar com estômago cheio
  • Contraindicada: trauma laríngeo, boca pequena, pressão via alta
🥇 Padrão Ouro

Tubo Orotraqueal (IOT)

Tubo inserido através da laringe até a traqueia. O balonete (cuff) insuflado veda o espaço peritraqueal, protegendo completamente contra aspiração.

  • Exige laringoscopia direta ou videolaringoscopia
  • Requer bloqueio neuromuscular para facilitar
  • Proteção completa da via aérea
  • Confirmar posição por capnografia, expansão torácica e ausculta
  • Limite: manter ≤7 dias (risco de estenose traqueal por compressão do cuff)

Tabela Comparativa

Dispositivo Protege VA Laringoscopia BNM necessário Uso principal
Máscara Facial Não Não Não Pré-oxigenação
Guedel Não Não Não Desobstrução em inconsciente
Cânula Nasofaríngea Não Não Não Sem acesso oral
Máscara Laríngea Parcial Não Não Via difícil / plano B
Tubo Orotraqueal Completa Sim Sim (idealmente) Padrão ouro — anestesia geral
💭 Recall

Por que o cuff do TOT deve ser monitorizado?

O cuff insuflado comprime a parede traqueal. Se essa compressão durar mais de 7 dias, ocorre isquemia do epitélio traqueal → necrose → fibrose → estenose traqueal. Após 7 dias de intubação orotraqueal, deve-se considerar a traqueostomia, que distribui a pressão de forma mais segura e permite ventilação prolongada sem esse risco.

👁️
Laringoscopia e Videolaringoscopia

A técnica de visualização direta ou indireta da glote para guiar a intubação

🔬 Laringoscopia Direta (LD)

O operador vê a glote diretamente, sem intermediário eletrônico. A lâmina do laringoscópio eleva a epiglote e expõe as pregas vocais. A luz emitida pela lâmina vai direto à retina do operador.

📺 Videolaringoscopia (VL)

Uma câmera na ponta da lâmina transmite a imagem para um monitor. O operador não precisa se posicionar em ângulo difícil. A câmera "vê" um ângulo que o olho humano não conseguiria ver diretamente. Facilita casos difíceis e é ideal para treinamento.

Alinhamento dos Eixos para Intubação ❌ Posição Plana Eixos desalinhados difícil visualizar glote ⚡ Com coxim suboccipital Eixos mais alinhados ✅ + Hiperextensão Melhor visualização da glote Coxim suboccipital eleva a cabeça e aproxima os eixos Hiperextensão cervical abre ainda mais o ângulo de visualização

✅ Prática clínica

Antes mesmo de pedir o laringoscópio, posicione o paciente. Coxim suboccipital + hiperextensão cervical = "cheirar o ar" (sniffing position). Esse alinhamento reduz drasticamente a dificuldade de intubação.

⚠️
Contraindicações à hiperextensão cervical: Idosos com espondilite, lesão de coluna cervical (ex.: politrauma), cirurgia cervical prévia. Nesses casos, considerar videolaringoscopia ou intubação com fibroscópio.

Escala de Mallampati

Avaliação pré-anestésica da via aérea: com o paciente sentado, boca aberta ao máximo e língua protruída, avalia-se o quanto das estruturas faríngeas é visível.

I
Úvula, pilares e palato mole visíveis
Fácil
II
Pilares e base da úvula visíveis
Moderado
III
Só palato mole visível
Difícil
IV
Só palato duro visível
Muito difícil
💭 Recall

O que é laringoespasmo e como manejar?

Laringoespasmo é o fechamento reflexo e involuntário das pregas vocais, impedindo a passagem do tubo. Ocorre por estimulação das cordas vocais antes que a anestesia seja suficientemente profunda.

Manejo:
— Aguardar e aplicar CPAP suave
— Succinilcolina (bloqueador despolarizante): provoca contratura inicial e depois relaxamento das pregas → abre a via
— É a situação em que a succinilcolina se destaca sobre os BNM não-despolarizantes (rocurônio, pancurônio), pois age mais rápido

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Manobras Auxiliares na Intubação

Quando a visualização está difícil, existem técnicas para melhorar o acesso

🔡

Manobra BURP

Backward · Upward · Rightward · Pressure. Pressão externa sobre a cartilagem tireoide: para trás (em direção à coluna), para cima (cranial) e para a direita. Melhora a visualização da glote ao deslocar a laringe para posição mais favorável. Executada por um auxiliar a pedido do intubador.

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Manobra de Sellick (Pressão Cricoide)

Compressão firme da cartilagem cricoide em direção à coluna vertebral. Comprime o esôfago, impedindo a passagem do conteúdo gástrico para a faringe em caso de regurgitação ativa. Muito usada em urgências e pacientes com estômago cheio (Sequência Rápida de Intubação — SRI). Também útil em cirurgias bariátricas, pois obesos têm esvaziamento gástrico retardado.

💡
SRI — Sequência Rápida de Intubação: Em urgências (estômago cheio), combina-se indução rápida + Sellick + bloqueio neuromuscular (succinilcolina ou rocurônio dose alta) para minimizar o tempo sem proteção da via aérea.
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Trapézio de Simone (Rampa)

Posicionamento em rampa trapezoidal elevando o tronco superior e a cabeça do paciente obeso. Alinha melhor os eixos oral, faríngeo e laríngeo naqueles em que o excesso de tecido adiposo dificulta o posicionamento padrão. Formato trapezoidal (não triangular) para permitir a hiperextensão cervical no vértice.

🪡

Intubação Retrógrada

Técnica de último recurso. Uma agulha de grosso calibre é inserida pela membrana cricotireóidea. Um fio-guia é passado cranialmente através da agulha, avança pela laringe, chega à faringe e é recuperado pela boca. O tubo orotraqueal é então enfiado sobre este fio como trilho, garantindo posicionamento correto. Usada em casos extremos em que nenhuma outra técnica funcionou.


⚠️
Via Aérea Difícil

Identificar preditores antes da indução é vital para o planejamento anestésico

🚨 Preditores Clínicos

🚨
Regra de ouro: Se há previsão de via difícil, NUNCA induza relaxante neuromuscular sem ter o plano de resgate definido, com ajuda presente e material disponível. Considere intubação com o paciente acordado (fibroscópio com sedação leve).

Algoritmo Simplificado — Via Difícil

1. Pré-avaliação: Mallampati, abertura, extensão

Se suspeita de dificuldade → posicionar material de resgate antes de induzir

2. Tentativa de IOT + Laringoscopia

Com otimização de posição, manobra BURP. Máximo 2-3 tentativas para evitar trauma.

3. Plano B — Máscara Laríngea

Se não intubar: ML para oxigenar o paciente enquanto aciona ajuda ou prepara alternativa.

4. Videolaringoscopia ou Fibroscópio

Dispositivos ópticos melhoram a visualização em anatomias desfavoráveis.

5. Técnicas invasivas de emergência

Cricotireoidostomia (punção ou cirúrgica) ou intubação retrógrada quando todas as opções anteriores falharam e o paciente está em hipóxia crítica.

💭 Recall

Qual o risco da sonda nasofaríngea em fratura de base de crânio?

A base do crânio coincide com o teto da nasofaringe. Em fraturas de base de crânio, a inserção "às cegas" da cânula nasofaríngea pode — em vez de deslizar pela nasofaringe — penetrar diretamente na cavidade craniana através da fratura, com risco de lesão cerebral e infecção intracraniana. Nessa situação, a intubação orotraqueal ou outro dispositivo de via oral é a escolha segura.

Confirmação da Intubação

Após inserir o tubo, você DEVE confirmar que ele está na traqueia — não no esôfago

🚨
Intubação esofágica não reconhecida é uma das principais causas de morte evitável em anestesia. Use SEMPRE pelo menos dois métodos de confirmação.
📊 Capnografia (EtCO₂)

Padrão ouro de confirmação. Se o tubo está na traqueia, a capnografia mostrará curva de CO₂ a cada expiração (sobe na expiração, cai na inspiração). No esôfago, não há CO₂ — ou há uma queda rápida após poucas insuflações. Monitorize continuamente durante toda a anestesia.

👀 Expansão torácica

Observe visualmente ambos os hemitóraces expandindo simetricamente a cada ventilação. Assimetria pode indicar intubação seletiva de brônquio principal (geralmente o direito, por anatomia). Ausência de expansão = intubação esofágica ou obstrução total.

🩺 Ausculta pulmonar

Auscultar o murmúrio vesicular nos dois ápices e bases pulmonares. Se ouvir borborigmos no epigástrio → tubo no esôfago → retirar imediatamente e ventilar com máscara. Limitação: em obesidade e tórax enfisematoso, o murmúrio pode ser difícil de ouvir.

📋 Checklist pós-intubação

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Quiz — Via Aérea

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Questões Via Aérea & Intubação

1. Em um paciente politraumatizado com fratura de base de crânio, qual dispositivo de via aérea está CONTRAINDICADO?

2. Qual é o tempo aproximado de apneia segura (SpO₂ ≥ 90%) em um adulto saudável COM pré-oxigenação adequada?

3. A manobra de Sellick consiste em pressão sobre qual estrutura, com qual objetivo?

4. Após intubação orotraqueal, qual é o método PADRÃO-OURO para confirmação do posicionamento correto do tubo?

5. Por que o tubo orotraqueal com cuff insuflado não deve permanecer por mais de 7 dias?

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