Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica
A DPOC no contexto clínico: o referencial com a asma
O professor abre a aula de DPOC situando a doença em relação à asma, porque as duas condições compartilham muitos sintomas — tosse, expectoração, dispneia, sibilância — e são funcionalmente parecidas do ponto de vista espirométrico. Por isso, entender a diferença entre elas é o primeiro passo para raciocinar bem sobre obstrução ao fluxo aéreo.
Para a DPOC, o documento de referência internacional é o GOLD — Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — cuja sigla faz alusão ao dourado. Ele é atualizado anualmente e disponibilizado gratuitamente no site oficial, em versão completa e versão resumida para estudantes. O GOLD de 2025 é o que vale hoje; classificações de 2018 ou 2019 já estão desatualizadas e podem conter critérios diferentes dos atuais. Uma questão de prova feita em 2018 pode trazer uma classificação que já foi substituída — por isso é importante verificar sempre o ano de referência da questão.
A vantagem de ter uma diretriz internacional como o GOLD é a uniformidade conceitual: um estudante no Brasil trabalha com o mesmo entendimento de diagnóstico e tratamento que um médico na Europa ou nos Estados Unidos. Isso importa para residência, para artigos, e especialmente para provas de acesso como o ENAM.
- DPOC e asma compartilham sintomas, mas têm mecanismos opostos
- Referência internacional: GOLD (atualizado anualmente, gratuito)
- Classificações antigas (≤2019) podem estar desatualizadas em provas
Definição — o que é DPOC
Segundo o GOLD 2025, a DPOC é uma condição pulmonar heterogênea caracterizada por sintomas respiratórios crônicos — tosse, expectoração e dispneia — que podem se exacerbar, decorrentes de anormalidades das vias aéreas e/ou dos alvéolos que causam limitação progressiva e pouco reversível do fluxo aéreo. O termo "heterogênea" reconhece que a doença tem subtipos diferentes, como o enfisema e a bronquite crônica, que antes eram tratados como entidades separadas.
A grande diferença clínica e conceitual com a asma está nessa última parte: progressiva e pouco reversível. A asma é uma inflamação — e inflamação pode ser tratada, controlada e até revertida. Com o tratamento adequado, a espirometria da pessoa asmática pode normalizar. A DPOC, por outro lado, é uma doença estrutural, uma desordem anatômica: o pulmão é literalmente destruído. As fibras elásticas que sustentam os alvéolos são degradadas por enzimas liberadas durante o processo inflamatório crônico, e esse dano não se reconstitui. Você pode parar de fumar, pode usar todos os broncodilatadores disponíveis — mas o que foi destruído, ficou destruído.
O professor usa uma imagem direta para fixar isso: fumar é como destruir tijolo por tijolo uma parede. Depois que caiu, não adianta tirar o martelo — a parede não volta.
"A asma é uma inflamação: você trata, você reverte. A DPOC é uma doença estrutural — você fumou, você destruiu. Aquilo que foi embora, foi embora."
Sabe diferenciar DPOC de asma na prova? O MedCaju tem questões no estilo ENAM cobrindo definição, reversibilidade e critérios diagnósticos.
Responder questões no MedCaju- Condição heterogênea com limitação progressiva e pouco reversível do fluxo aéreo
- Asma = inflamação reversível · DPOC = destruição estrutural irreversível
- O parênquima destruído não se reconstitui — nem com broncodilatador, nem parando de fumar
O critério diagnóstico: a relação VEF₁/CVF
O diagnóstico de DPOC é espirométrico. O critério é a relação VEF₁/CVF abaixo de 0,70 após o uso de broncodilatador. VEF₁ é o volume expiratório forçado no primeiro segundo, e CVF é a capacidade vital forçada — o total de ar que a pessoa consegue expelir em um esforço máximo. Dividir um pelo outro dá a proporção de quanto do ar total ela consegue eliminar em apenas um segundo.
Em pessoas jovens e saudáveis, não fumantes, essa relação costuma ser de 0,80 ou mais — elas eliminam 80% do ar pulmonar já no primeiro segundo, porque os pulmões são elásticos e as vias aéreas estão abertas. A partir dos 70 anos, essa relação naturalmente cai um pouco com o envelhecimento, o que é uma das razões para o corte de 0,70 ser usado como referência: é o valor mínimo que ainda pode ser considerado normal considerando toda a variação de idade adulta.
Quando não há informação sobre a altura, o sexo e a idade do paciente para calcular o valor predito pelo programa espirométrico, usa-se o corte de 0,70 como padrão universal. Se a relação estiver abaixo disso após broncodilatador, o diagnóstico de obstrução é firmado — e, com a clínica compatível, confirma-se DPOC.
Por que após broncodilatador? Porque se a relação estava em 0,65 antes e sobe para acima de 0,70 depois, isso sugere que a obstrução era reversível — e reversível é asma, não DPOC. Na DPOC, o broncodilatador pode melhorar um pouco os números, mas a relação continua abaixo de 0,70. Essa resposta fixa e persistente é o que define a obstrução como crônica e estrutural.
Espirometria no ENAM. Questões sobre VEF₁/CVF, padrão ouro diagnóstico e interpretação de laudos — resolva agora.
Responder questões no MedCaju- VEF₁/CVF < 0,70 após broncodilatador = diagnóstico de obstrução
- Corte universal sem predito: 0,70 — abaixo é DPOC, acima é normal
- Se subir para >0,70 pós-BD → provável asma, não DPOC
- Jovens saudáveis têm relação ≥ 0,80 — 0,70 é o mínimo aceitável
Fisiopatologia: o que acontece por dentro
A doença começa na pequena via aérea — os brônquios e bronquíolos com menos de 2 mm de diâmetro. Isso tem uma implicação clínica importante: como as pequenas vias têm muita reserva funcional, a pessoa pode estar acumulando dano por décadas sem sentir nada significativo. Quem começa a fumar aos 20 anos tipicamente desenvolve DPOC sintomática somente aos 50 ou 60 anos — 30 anos de destruição silenciosa. O brônquio grande compensa durante todo esse tempo.
A fumaça do cigarro desencadeia uma resposta inflamatória predominantemente neutrofílica nas vias aéreas. Esse ponto merece atenção porque é exatamente o oposto da asma, onde a inflamação é eosinofílica — e essa diferença celular determina qual tratamento funciona em cada doença. Os neutrófilos liberam citocinas e enzimas proteolíticas (hidrolíticas) que digerem as paredes dos alvéolos e as fibras elásticas do parênquima pulmonar. Com o tempo, essa destruição estrutural gera duas consequências principais.
A primeira é o aprisionamento de ar (air trapping). O pulmão normal é como uma esponja elástica — você enche de ar e ele retrai naturalmente para a posição de repouso, expelindo o ar. Com a perda das fibras elásticas, o pulmão fica flácido, não consegue mais retrair. O ar fica preso dentro. Isso gera hiperinsuflação — o tórax fica expandido, em formato de "barril" — e o diafragma, empurrado para baixo, perde eficiência contrátil.
A segunda é o colapso dinâmico das vias aéreas durante a expiração. Normalmente, as paredes dos brônquios têm sustentação estrutural. Com a destruição dessa sustentação, na expiração forçada as vias colabam antes de o ar sair completamente. Daí a estratégia espontânea que os pacientes graves desenvolvem: respirar com os lábios franzidos (pursed-lip breathing). Ao criar resistência na saída do ar, eles mantêm uma pressão positiva que segura as vias abertas por mais tempo durante a expiração — melhorando a troca gasosa. O professor menciona que se vê muito isso na rua: vozinhos curvados para frente, respirando com o rosto tenso. Não é à toa.
Há também a destruição dos cílios brônquicos. O epitélio respiratório normal é colunar ciliado — os cílios fazem um movimento contínuo de varredura, empurrando partículas e microrganismos para fora das vias aéreas. Com o tabaco, esse epitélio é substituído por epitélio pavimentoso, sem cílios. O resultado é acúmulo de microrganismos, aumento de infecções respiratórias — pneumonia, tuberculose — e produção excessiva de muco, que o paciente passa a tossir.
O pulmão com DPOC é um pulmão que perdeu sua arquitetura elástica. Não retrai, não expele ar com velocidade, não varre partículas, não sustenta suas próprias paredes. É uma falência estrutural progressiva e silenciosa.
Com a destruição do parênquima e o aprisionamento de ar, os vasos pulmonares também são comprometidos. A hiperinsuflação comprime os capilares, e a inflamação crônica os destrói. Menos vasos = menos perfusão = mesmo que haja ventilação, a troca gasosa não ocorre adequadamente. É assim que se instala a hipoxemia crônica. E a hipoxemia crônica, por sua vez, gera vasoconstrição pulmonar reflexa, que aumenta a pressão na artéria pulmonar — levando à hipertensão pulmonar e, eventualmente, ao cor pulmonale (insuficiência cardíaca direita secundária à doença pulmonar).
Os dois receptores bronquiais relevantes para o tratamento são o receptor β₂-adrenérgico (estimulado pelos broncodilatadores beta-agonistas) e o receptor muscarínico (bloqueado pelos antimuscarínicos). Como os dois sistemas nervosos autônomo — simpático e parassimpático — atuam nas vias aéreas, é possível combinar os dois mecanismos ao mesmo tempo, e é exatamente isso que faz a terapia dupla com LABA + LAMA.
- Doença começa na pequena via aérea (<2 mm) — sintomas surgem décadas depois
- Inflamação neutrofílica (≠ asma que é eosinofílica)
- Perda de fibras elásticas → aprisionamento de ar + hiperinsuflação
- Destruição de cílios → mais infecções (pneumonia, TB)
- Hipoxemia → hipertensão pulmonar → cor pulmonale
- Dois receptores-alvo do tratamento: β₂-adrenérgico (LABA) e muscarínico (LAMA)
Etiologia e fatores de risco
A DPOC resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. Do lado ambiental, o tabagismo é esmagadoramente dominante: 85% das pessoas com DPOC são fumantes ou ex-fumantes. Os 15% restantes incluem exposição a poluentes industriais, poeira de biomassa — o professor menciona o fogão a lenha dentro de casa nos Andes, onde o frio extremo leva as famílias a usar fogareiros em ambientes fechados sem ventilação adequada — e exposição ocupacional a poeiras e fumaças.
Do lado genético, a causa mais relevante é a deficiência de alfa-1-antitripsina, uma proteína produzida pelo fígado cuja função é neutralizar elastases e outras enzimas proteolíticas no pulmão. Quando essa proteína falta, as enzimas dos neutrófilos ficam sem controle e destroem o parênquima pulmonar de forma acelerada. É uma doença autossômica recessiva, rara — responde por menos de 5% dos casos de DPOC — mas é importante porque se manifesta em adultos jovens, ao contrário da DPOC tabágica que atinge tipicamente pessoas acima de 50 anos. O professor conta de uma família que tinha vários membros com DPOC grave antes dos 30 anos — esse é o perfil que deve fazer o médico pesquisar a deficiência de alfa-1-antitripsina. O tratamento é a reposição da proteína, caro mas disponível via judicial pelo SUS por estar na lista de doenças raras do Ministério da Saúde.
Infecções respiratórias repetidas e mal tratadas também podem contribuir para a progressão da doença, assim como asma de longa data sem controle adequado. Toda inflamação crônica das vias aéreas estimula a produção de enzimas corrosivas que, ao longo do tempo, degradam a arquitetura pulmonar.
- 85% dos casos em fumantes ou ex-fumantes
- Fator genético: deficiência de α₁-antitripsina (<5% dos casos, DPOC jovem)
- 87% dos portadores no Brasil não sabem que têm a doença
- Outras causas: biomassa, poeiras ocupacionais, infecções repetidas
Diagnóstico: espirometria é o padrão-ouro
Nem o raio X, nem a tomografia são padrão-ouro para o diagnóstico de DPOC. O padrão-ouro é a espirometria com broncodilatador. Imagem tem papel complementar: mostra complicações, ajuda no diagnóstico diferencial, sugere enfisema — mas não define DPOC.
Na espirometria normal, o operador orienta o paciente a encher completamente os pulmões e soprar o mais forte e mais rápido possível, por pelo menos 6 segundos. Em uma pessoa saudável, o fluxo é intenso no início e o platô — o momento em que não sai mais ar — é atingido rapidamente, em torno de 2 segundos. A relação VEF₁/CVF fica em 0,80 ou mais.
Na DPOC, o padrão é diferente: o fluxo é lento desde o início, o ar sai com dificuldade por obstrução e colapso das vias aéreas, e o platô só é atingido após 5 ou mais segundos de esforço. A relação VEF₁/CVF fica abaixo de 0,70. Se, ao repetir a espirometria após o broncodilatador, a relação subir para acima de 0,70 — o paciente provavelmente tem asma, não DPOC. Se continuar abaixo de 0,70, confirma-se a obstrução fixa.
O professor reforça que sempre se deve solicitar espirometria com prova broncodilatadora quando há suspeita de doença obstrutiva — seja asma, seja DPOC. O técnico espirometricista de qualidade já faz isso automaticamente. Em obesos e escolióticos, os resultados podem ser alterados por restrição, mas isso não impede a realização do exame.
Sobre o raio X de tórax, ele tem valor quando a doença já é avançada. Os achados clássicos são: hiperinsuflação (campos pulmonares escuros, com pouca trama vascular); diafragmas retificados ou achatados (o normal é o diafragma ser convexo — quando o ar aprisionado empurra para baixo, ele se achatao ou até se inverte); coração em gota ou verticalizado (com o diafragma descido e o volume pulmonar aumentado, o coração fica suspenso e pendular, sem apoio — o índice cardiotorácico pode estar normal, mas a silhueta está diferente); e pobreza de trama vascular — o pulmão fica muito preto, muito hipertransparente, porque tem muito ar e pouco vaso. Trama vascular no RX representa os vasos: sem vasculatura, o pulmão fica escuro, sem o rendilhado habitual.
A tomografia de tórax mostra esses achados com muito mais detalhe: bolhas de enfisema (áreas completamente destruídas, sem parênquima funcionante), aprisionamento de ar, espessamento das paredes brônquicas. O professor mostra um caso com uma bolha enorme ocupando quase um hemitórax inteiro, comprimindo o pulmão adjacente — situação em que pode ser considerada a bulectomia cirúrgica para retirar a bolha e liberar o parênquima comprimido, embora não seja procedimento padronizado.
O professor também menciona o sinal de Hoover — uma inversão do movimento do diafragma durante a inspiração nos casos graves. No normal, inspiramos expandindo o tórax. No DPOC avançado com hiperinsuflação grave, o diafragma já está tão achatado que na inspiração ele puxa as costelas inferiores para dentro em vez de expandir — o tórax se estreita em vez de se expandir. É um sinal clínico de gravidade.
A tiragem intercostal — uso dos músculos intercostais e acessórios para respirar — ocorre quando o diafragma sozinho não consegue dar conta do esforço ventilatório. Em pessoas normais, os intercostais ficam em repouso. No DPOC grave ou em qualquer condição com grande demanda ventilatória (pneumonia extensa, derrame pleural volumoso), eles são recrutados. O professor ressalta: em condições normais, respiramos usando só o diafragma. Intercostal trabalhando é luxo — e luxo aqui significa esforço além do normal.
- Padrão-ouro: espirometria com broncodilatador — nem RX nem TC definem
- RX avançado: hiperinsuflação, diafragma retificado, coração "em gota", pobreza vascular
- Sempre pedir espirometria com prova broncodilatadora em suspeita de doença obstrutiva
- Sinal de Hoover + tiragem intercostal = sinais de gravidade
Diagnóstico diferencial
O principal diagnóstico diferencial da DPOC é a asma, especialmente em adultos mais jovens. As duas doenças têm sintomas muito semelhantes — tosse, dispneia, sibilância, expectoração — e só a espirometria com broncodilatador permite diferenciá-las de forma objetiva. Asma melhora com broncodilatador (relação sobe para > 0,70); DPOC tem resposta parcial mas relação permanece abaixo de 0,70.
Outra diferença importante é que asma tem história familiar e geralmente começa na infância ou adolescência, enquanto DPOC tem história tabágica e se manifesta na vida adulta, tipicamente após os 50 anos. A exceção é a deficiência de alfa-1-antitripsina, que pode dar DPOC em jovens sem história de tabagismo.
As duas condições podem coexistir — o chamado overlap asma-DPOC. Um asmático que também fuma pode ter os dois processos ocorrendo simultaneamente: a inflamação eosinofílica reversível da asma sobreposta à destruição estrutural neutrofílica da DPOC. Nesses casos, a resposta ao broncodilatador existe, mas não normaliza completamente a relação.
Outros diferenciais relevantes que o professor menciona: câncer de pulmão (pode coexistir em fumantes — DPOC é fator de risco independente para neoplasia pulmonar); tuberculose (tosse crônica com expectoração, especialmente em fumantes que também têm DPOC — o caso relatado pelo professor de um paciente com "asma" que após meses de urgências foi finalmente diagnosticado com tuberculose); bronquiectasias (tosse com catarro abundante, história de infecções repetidas); e insuficiência cardíaca descompensada (tosse, dispneia, sibilância — mas com contexto clínico diferente, história de cardiopatia, edema, achados ao RX de congestão em vez de hiperinsuflação).
Uma dica prática importante: o captopril e outros inibidores de ECA causam tosse seca como efeito colateral em até 10–15% dos usuários. É muito comum o cardiologista precisar trocar o captopril por uma sartana para resolver a tosse do paciente hipertenso, sem que haja qualquer doença pulmonar.
- Principal DD: asma — mesmos sintomas, mas asma reverte pós-BD
- Asma: história familiar, início na infância · DPOC: história tabágica, >50 anos
- Overlap asma-DPOC existe — resposta parcial ao BD
- Outros DDs: CA pulmão, TB, bronquiectasias, ICC, fibrose intersticial
- Captopril causa tosse seca — excluir antes de diagnóstico pulmonar
Classificação de gravidade — GOLD 1 a 4
Uma vez confirmado que o paciente tem DPOC (VEF₁/CVF < 0,70 pós-BD), classifica-se a gravidade pelo VEF₁ como porcentagem do predito. É uma classificação funcional, espirométrica, independente dos sintomas.
GOLD 1 — VEF₁ ≥ 80% do predito. DPOC leve. A relação já está alterada, mas o volume absoluto de ar ainda é relativamente preservado. Muitos pacientes nesse estágio são assintomáticos ou têm sintomas leves.
GOLD 2 — VEF₁ entre 50% e 79% do predito. DPOC moderado. Já há comprometimento funcional perceptível, com dispneia ao esforço moderado.
GOLD 3 — VEF₁ entre 30% e 49% do predito. DPOC grave. Dispneia importante, limitação física significativa, maior risco de exacerbações.
GOLD 4 — VEF₁ < 30% do predito. DPOC muito grave. Risco de insuficiência respiratória, cor pulmonale, necessidade de oxigenoterapia domiciliar.
O professor ressalta que essa classificação — GOLD 1, 2, 3 ou 4 — diz respeito à gravidade espirométrica. Ela não tem relação direta com a classificação clínica por sintomas (grupos A, B e E). Um paciente GOLD 4 pode ser pouco sintomático no cotidiano (grupo A), e um GOLD 1 pode já ter muita dispneia aos esforços cotidianos (grupo B). São dois eixos independentes que, juntos, guiam o tratamento.
GOLD 1, 2, 3 ou 4 — você acertaria na prova? Pratique classificação de gravidade da DPOC com questões comentadas no MedCaju.
Responder questões no MedCaju- Todos têm VEF₁/CVF < 0,70 — o que varia é o VEF₁ em % do predito
- GOLD 1: VEF₁ ≥ 80% · GOLD 2: 50–79% · GOLD 3: 30–49% · GOLD 4: <30%
- Não tem relação com grupos clínicos A, B, E — são eixos independentes
Sintomas e escala de dispneia MRC
Os sintomas cardinais da DPOC são tosse produtiva, expectoração crônica e dispneia progressiva, especialmente ao esforço. A sibilância ocorre — e quando muito intensa sugere componente bronquítico mais marcado — mas é menos característica do que na asma. A dispneia é o sintoma que mais limita a vida do paciente: o fumante com DPOC começa a evitar esforços justamente para não sentir falta de ar, entra num círculo vicioso de sedentarismo que acelera a descondicionamento muscular e piora ainda mais a tolerância ao exercício.
Para quantificar a dispneia, o professor prefere a escala MRC (Medical Research Council) em vez do CAT (COPD Assessment Test), porque o CAT tem 40 possibilidades (8 perguntas com 5 alternativas cada) e é difícil de memorizar. A MRC tem apenas 5 graus com descrições clínicas objetivas e fáceis de reconhecer:
MRC 0 — Dispneia apenas com esforço muito intenso. Praticamente assintomático no cotidiano.
MRC 1 — Falta de ar ao caminhar apressado no plano ou ao subir uma ladeira leve.
MRC 2 — Anda mais devagar que pessoas da mesma idade no plano, ou precisa parar por falta de ar mesmo no próprio passo.
MRC 3 — Precisa parar após cerca de 100 metros — um quarteirão — ou poucos minutos andando no plano.
MRC 4 — Dispneia para atividades básicas da vida diária: tomar banho, trocar de roupa, pentear o cabelo. Não consegue sair de casa sem ter falta de ar.
A escala MRC 3 é fácil de memorizar porque o número coincide com a distância: três corresponde a não aguentar mais de um quarteirão (100 metros). E o MRC 4 é o paciente que leva cadeira para o banheiro para se sentar enquanto se troca.
- MRC 0: só com esforço muito intenso · MRC 1: apressado no plano ou ladeira
- MRC 2: mais devagar que pessoas da mesma idade · MRC 3: para em 100 m
- MRC 4: dispneia para tomar banho, pentear o cabelo
- MRC é preferível ao CAT para memorização — mesma equivalência clínica
Classificação clínica: grupos A, B e E
O GOLD 2025 usa três grupos clínicos para orientar o tratamento. Atenção: os antigos grupos C e D foram eliminados e incorporados ao grupo E. Hoje são apenas A, B e E. Questões antigas podem trazer a classificação A/B/C/D — isso está desatualizado.
O Grupo A agrupa os pacientes com poucos sintomas: MRC 0 ou 1, CAT abaixo de 10. São pessoas que têm DPOC confirmado, mas funcionam bem no dia a dia — jogam bola, fazem caminhadas leves, sem limitação marcante.
O Grupo B é o muito sintomático: MRC 2 ou mais, CAT 10 ou mais. Já têm dispneia que interfere na vida cotidiana, mas não tiveram exacerbações frequentes no último ano.
O Grupo E é o exacerbador — fácil de lembrar porque E de exacerbação. Entra nesse grupo quem teve duas ou mais exacerbações em um ano, ou uma ou mais internações hospitalares por DPOC no último ano. Uma exacerbação é um episódio de piora aguda dos sintomas — aumento de tosse, mais catarro, mais dispneia — que vai além da variação normal do dia a dia e exige mudança no tratamento.
Essa classificação clínica é independente da gravidade espirométrica. Um GOLD 1 pode ser E, e um GOLD 4 pode ser A. O que guia a escolha do tratamento é o grupo clínico — não o estágio GOLD.
- C e D extintos no GOLD 2025 — incorporados ao grupo E
- Grupo A: MRC 0–1, CAT <10, pouco sintomático → 1 broncodilatador
- Grupo B: MRC ≥2, muito sintomático → LABA + LAMA
- Grupo E: ≥2 exacerbações/ano ou ≥1 internação → LABA + LAMA (+ CI se eosinofilia ≥300)
Tratamento farmacológico e não farmacológico
O professor deixa claro desde o início: o objetivo do tratamento da DPOC não é curar nem reverter a doença. O parênquima destruído não volta. O objetivo é aliviar os sintomas, melhorar a tolerância ao exercício, reduzir o risco de exacerbações e melhorar a qualidade de vida. É uma meta realista, mas clinicamente muito relevante — com o tratamento adequado, o paciente respira melhor, faz mais, hospitaliza menos.
A base do tratamento farmacológico são os broncodilatadores inalatórios. Há dois grandes grupos: os LABA (Long-Acting Beta Agonists — beta-agonistas de longa ação), como formoterol, salmeterol e indacaterol, que estimulam os receptores β₂-adrenérgicos e promovem broncodilatação; e os LAMA (Long-Acting Muscarinic Antagonists — antimuscarínicos de longa ação), como tiotrópio, umeclidínio e glicopirrônio, que bloqueiam os receptores muscarínicos e reduzem o tônus parassimpático nas vias aéreas. Como os dois mecanismos são diferentes e aditivos, eles podem ser combinados simultaneamente — e frequentemente são.
A preferência é sempre pelos de longa ação (12 a 24 horas de efeito) em relação aos de curta ação (SABA, como o salbutamol, que dura 3–4 horas). O SABA fica como medicamento de resgate para sintomas agudos, não como base do tratamento.
Para o Grupo A — pouco sintomático — o tratamento é um broncodilatador único: LABA ou LAMA. O professor faz a ressalva prática: na vida real, muitos pacientes do grupo A recebem apenas o salbutamol (Aerolin) de curta ação, que é distribuído gratuitamente na rede pública. Não é o ideal segundo as diretrizes, mas é o que está disponível. O ideal é o de longa ação.
Para o Grupo B — muito sintomático — a combinação LABA + LAMA já está indicada desde o início. Dois broncodilatadores com mecanismos diferentes, atuando em sinergia.
Para o Grupo E — exacerbador — a terapia é tripla: LABA + LAMA + corticoide inalatório (CI), mas com uma condição: o corticoide inalatório só é indicado se houver eosinofilia ≥ 300 células/μL no hemograma. Sem eosinofilia, fica no LABA + LAMA. Há um medicamento com nome comercial sugestivo para a terapia tripla: Trelegy — fácil de lembrar porque "trelegy" soa como "três". O professor destaca que na asma o corticoide inalatório é o pilar central do tratamento desde os passos iniciais; na DPOC, ele só entra no grupo E e com critério de eosinofilia.
A oxigenoterapia domiciliar não é para todo paciente com DPOC — é uma intervenção específica para casos com SpO₂ cronicamente abaixo de 90% (correspondente a PaO₂ < 60 mmHg). Esses pacientes precisam de concentrador ou cilindro de oxigênio em casa. O objetivo da suplementação não é a cura, mas prevenir as complicações da hipoxemia crônica — cor pulmonale, policitemia, arritmias.
Parar de fumar é a única intervenção capaz de alterar a curva de declínio do VEF₁ na DPOC. Todo tratamento farmacológico trata sintomas. Cessação tabágica muda o prognóstico.
Tratamento da DPOC no ENAM. Grupos A, B e E, LABA, LAMA e terapia tripla — questões práticas para fixar o esquema terapêutico.
Responder questões no MedCajuO tratamento não farmacológico é tão importante quanto o farmacológico. Além da cessação tabágica — que é inegociável e está em destaque vermelho no GOLD —, o professor cita a atividade física como intervenção essencial: ganhar massa muscular melhora a tolerância ao exercício mesmo sem melhora espirométrica, porque a musculatura esquelética eficiente extrai mais O₂ do sangue. Um paciente que ganha musculatura pode precisar de menos remédio. As vacinas (influenza, pneumococo, COVID-19, coqueluche) reduzem o risco de infecções que desencadeiam exacerbações. E a fisioterapia respiratória e reabilitação pulmonar melhoram significativamente qualidade de vida e capacidade funcional.
- Objetivo: aliviar sintomas e reduzir exacerbações — não reverter
- LABA = β₂-agonista longa ação (formoterol, salmeterol) · LAMA = antimuscarínico (tiotrópio)
- Grupo E + eosinofilia: terapia tripla LABA+LAMA+CI (ex: Trelegy)
- Oxigenoterapia domiciliar só se SpO₂ <90% (PaO₂ <60 mmHg) crônico
- Cessar tabagismo é a única intervenção que altera o declínio do VEF₁
DPOC e enfisema: qual a relação?
Um aluno pergunta na aula se DPOC e enfisema são a mesma coisa. A resposta do professor: o enfisema é um tipo de DPOC — não toda DPOC é enfisema. O enfisema é um diagnóstico anatomopatológico: significa destruição das paredes alveolares com formação de espaços aéreos ampliados distalmente ao bronquíolo terminal. Para confirmar isso rigorosamente, precisaria de biópsia ou peça cirúrgica — coisa que não se faz no dia a dia.
Na prática, o enfisema é sugerido pela tomografia (bolhas, baixa atenuação do parênquima, aprisionamento de ar), pelo RX (hiperinsuflação, pobreza de trama vascular), e clinicamente pelo tórax em barril e a perda de elasticidade. Mas o diagnóstico clínico-funcional é DPOC — e dentro do espectro da DPOC, há pacientes com predominância de enfisema e outros com predominância de bronquite crônica.
Antigamente, de fato, usavam-se os termos separados: bronquite crônica obstrutiva (tosse com catarro por mais de 3 meses em dois anos consecutivos, com obstrução) e enfisema (destruição alveolar). O termo DPOC foi criado exatamente para englobar o espectro inteiro, incluindo os casos que misturam os dois padrões — que são a maioria.
- Enfisema é um subtipo de DPOC — diagnóstico anatomopatológico
- Na prática: sugerido por TC (bolhas) e RX (hiperinsuflação, pobreza vascular)
- DPOC engloba bronquite crônica obstrutiva + enfisema + formas mistas