Doenças Intersticiais Pulmonares — MedCaju
Pneumologia · Doenças Intersticiais

Doenças Intersticiais
Pulmonares

Resumo organizado por Igor Sabino para o MedCaju, com base no conteúdo do Prof. Dr. Antônio de Deus Filho, complementado com anotações pessoais e diretrizes sobre o tema. Material estritamente de estudo.

Fisiopatologia · Classificação
FPI · Antifibróticos
PH · Sarcoidose
Colagenoses · Silicose
TCAR · DMD
Capítulo I

Visão Geral e Fisiopatologia

O que são as doenças intersticiais pulmonares

As Doenças Intersticiais Pulmonares (DIP) — também chamadas de Doenças Pulmonares Parenquimatosas Difusas — constituem um grupo amplo e heterogêneo de condições que afetam o interstício pulmonar: o arcabouço de suporte que circunda os alvéolos, os capilares e as vias aéreas terminais. Apesar da diversidade de causas, a grande maioria compartilha um quadro clínico notavelmente semelhante.

Os três pilares clínicos que unem quase todas as DIPs são: dispneia progressiva de esforço (presente em 88 a 100% dos casos), tosse seca (75 a 84%) e estertores finos bilaterais em bases à ausculta — o famoso "som de velcro", inconfundível para quem o ausculta. A piora é lenta e insidiosa, frequentemente confundida com envelhecimento ou sedentarismo por anos antes do diagnóstico.

As provas de função pulmonar revelam um padrão restritivo: redução da capacidade pulmonar total (CPT), da capacidade vital (CV) e, especialmente, da capacidade de difusão do CO (DLCO) — a medida mais sensível de comprometimento funcional nas DIPs. A DLCO cai porque há destruição de alvéolos (redução da área de troca), espessamento do interstício (maior distância entre ar e capilar) e alterações na relação ventilação/perfusão. Em pacientes com FPI avançada, a DLCO pode cair a médias de 48% do previsto.

Tríade clínica das DIPs
  • Dispneia progressiva de esforço — 88–100% dos casos
  • Tosse seca — 75–84%
  • Estertores finos bibasais — "som de velcro" à ausculta
  • Função pulmonar: padrão restritivo + DLCO reduzida

Fisiopatologia — da inflamação à fibrose

A progressão das DIPs segue um padrão comum: da fase celular (inflamatória) para a fase fibrótica (cicatricial). Na fase celular, monócitos, macrófagos e linfócitos invadem o alvéolo liberando citocinas pró-inflamatórias — TNF-α, IL-1, IFN-γ — que sustentam o processo inflamatório e recrutam mais células.

Na fase fibrótica, há proliferação de fibroblastos, angiogênese e deposição maciça de colágeno no interstício. O alvéolo normal é substituído por tecido cicatricial, perdendo sua capacidade de troca gasosa. Esta fase é em grande parte irreversível — os alvéolos destruídos não se regeneram, e é por isso que as DIPs fibróticas levam a perda progressiva e permanente da função pulmonar.

A velocidade e extensão dessa progressão dependem de vários fatores: genética do indivíduo (polimorfismos em genes do telômero e surfactante), integridade da membrana basal alveolar (se preservada, facilita reparação; se destruída, favorece fibrose), tempo e intensidade de exposição ao agente agressor, e eficiência dos mecanismos de defesa e reparo do organismo.

A fase inflamatória é potencialmente reversível com tratamento imunossupressor. A fase fibrótica não é. Por isso o diagnóstico precoce é crítico — intervir antes da fibrose estabelecida muda o prognóstico.

Classificação das DIPs

A classificação das DIPs organiza o diagnóstico em quatro grandes grupos, baseados na etiologia e no padrão histopatológico:

1. Causas conhecidas ou associações definidas: incluem as pneumoconioses (silicose, asbestose, beriliose) por exposição ocupacional; as DIP associadas a doenças do tecido conjuntivo (artrite reumatoide, esclerose sistêmica, dermatomiosite, síndrome de Sjögren); e a toxicidade por drogas (amiodarona, metotrexato, nitrofurantoína, bleomicina).

2. Pneumonias intersticiais idiopáticas (PII): grupo em que a causa não é identificada. A mais importante e mais grave é a Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI), associada ao padrão histopatológico de PIU. Outras PII incluem a PINE (pneumonia intersticial não específica), a pneumonia em organização criptogênica (POC) e a pneumonia intersticial descamativa (PID).

3. Doenças granulomatosas: Sarcoidose (granulomas sem necrose caseosa, sistêmica) e Pneumonite de Hipersensibilidade (PH) (resposta imune a antígenos inalados — penas, mofo, criação de pássaros).

4. Outras e raras: linfangioleiomiomatose (LAM), histiocitose pulmonar de células de Langerhans, amiloidose pulmonar, entre outras.

🔑
Macete de classificação: "Conheço a causa? → Grupo 1. Não conheço? → Grupo 2 (PII). É granuloma? → Grupo 3. Não encaixa? → Grupo 4." O exame mais importante para orientar a classificação é a TCAR de tórax.

A anamnese como arma diagnóstica — 9 pilares

Diante de um paciente com dispneia e padrão restritivo, a anamnese direcionada é insubstituível. Há 9 domínios que precisam ser explorados sistematicamente:

Idade e sexo: FPI acomete preferencialmente homens acima de 50 a 60 anos. Doenças do tecido conjuntivo afetam mais mulheres jovens. Histiocitose de Langerhans ocorre em jovens tabagistas.

Exposição ambiental e ocupacional: criação de pássaros ou canários (antígeno de pena — PH); ambientes com mofo (PH); mineração e pedreiras (silicose); indústria naval e construção civil antiga (asbestose por amianto); escavadores de poços no Piauí (silicose — o professor cita esse exemplo regional). Perguntar sempre sobre hobbies, criação de animais e condições de moradia.

Tabagismo: fortemente associado à FPI (41 a 83% dos casos) e às DIPs relacionadas ao tabaco (bronquiolite respiratória, PID, histiocitose). Paradoxalmente, em fumantes ativos a incidência de PH pode ser menor (a fumaça suprime a resposta imune local).

Medicamentos em uso: amiodarona (fibrose pulmonar), metotrexato (pneumonite), nitrofurantoína (fibrose), bleomicina, radiação torácica.

Sintomas sistêmicos: artralgia, fenômeno de Raynaud, xeroftalmia/xerostomia, lesões de pele, disfagia — que apontam para colagenoses subjacentes. Sorologia reumatológica obrigatória em todo paciente com DIP mesmo sem sintomas articulares — muitas colagenoses são subclínicas.

Velocidade de progressão: FPI progride lentamente mas de forma constante. PH aguda se instala em horas a dias após a exposição.

"DIP sem causa aparente → pedir sorologia antes de chamar de idiopática." Muita FPI "idiopática" esconde, na verdade, uma colagenose subclínica. FR, anti-CCP, FAN, Jo-1, Scl-70, SS-A, SS-B — solicitá-los sistematicamente.

Capítulo II

Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI)

Definição, perfil e epidemiologia

A Fibrose Pulmonar Idiopática (FPI) é a mais importante e mais grave das pneumonias intersticiais idiopáticas. É definida como uma pneumonia intersticial fibrosante crônica, progressiva e de causa desconhecida, estritamente limitada aos pulmões, com padrão histopatológico e/ou tomográfico de Pneumonia Intersticial Usual (PIU).

O perfil epidemiológico é bem definido: acomete preferencialmente homens acima de 50 a 60 anos, com razão de 2:1 em relação às mulheres. A associação com tabagismo é muito forte — 41 a 83% dos pacientes têm história de tabagismo —, embora a doença também ocorra em não fumantes. A incidência aumenta com a idade e está crescendo globalmente, em parte pelo envelhecimento populacional e em parte por maior reconhecimento diagnóstico.

O prognóstico da FPI sem tratamento é sombrio: a mediana de sobrevida após o diagnóstico era de 3 a 5 anos, inferior a muitas neoplasias. Com os antifibróticos disponíveis, esse cenário melhorou — mas FPI continua sendo uma doença grave e fatal em longo prazo.

Padrão de PIU — o que o radiologista e o patologista veem

O diagnóstico da FPI está intimamente ligado ao reconhecimento do padrão de Pneumonia Intersticial Usual (PIU), tanto na tomografia quanto na histopatologia. Esse padrão tem características muito específicas que o diferenciam de outras DIPs.

Na TCAR (tomografia computadorizada de alta resolução), os achados de PIU típica incluem:

Distribuição basal e subpleural — a doença começa nas bases pulmonares, abaixo da pleura, e progride em direção ao ápice. É uma distribuição "de baixo para cima", diferente de muitas outras DIPs que poupam as bases. Reticulado bilateral — opacidades em rede, refletindo o espessamento fibrótico do interstício. Bronquiectasias e bronquiolectasias de tração — à medida que o tecido ao redor do brônquio fibrósa e retrai, as paredes brônquicas são "puxadas" para fora, gerando dilatação irregular. É sinal de fibrose estabelecida. E o achado mais específico: faveolamento (honeycombing) — pequenos cistos subpleurais agrupados, com paredes espessas, semelhantes a um favo de mel. É achado tardio, sinal de fibrose avançada e destruição arquitetural irreversível.

A presença de vidro fosco predominante não é característica do PIU típico — vidro fosco em quantidade significa atividade inflamatória ativa (padrão PINE) e exclui FPI como diagnóstico principal.

Na histopatologia, o padrão PIU se caracteriza por heterogeneidade temporal e espacial: no mesmo fragmento de biópsia coexistem áreas de pulmão normal, áreas de inflamação leve, áreas de fibrose densa e focos fibroblásticos ativos. Essa mistura de estágios simultâneos é patognomônica — nenhuma outra DIP tem essa heterogeneidade. Os focos fibroblásticos são o achado mais específico: ninhos de fibroblastos ativos na interface da fibrose avançada com o parênquima ainda preservado, representando a "frente de ataque" da fibrose.

🩻
PIU típico na TCAR: basal + subpleural + reticulado + bronquiectasias de tração + faveolamento. Esse padrão, no contexto clínico adequado (homem >60 anos, tabagista), dispensa biópsia para o diagnóstico de FPI. Biópsia só se o padrão for atípico ou indeterminado.
PIU típico na TCAR — memorizar
  • Distribuição basal + subpleural bilateral
  • Reticulado bilateral
  • Bronquiectasias de tração — sinal de fibrose
  • Faveolamento (honeycombing) — achado tardio e específico
  • Vidro fosco: mínimo ou ausente no PIU típico
  • PIU típico no contexto certo → dispensa biópsia

Diagnóstico da FPI — quando biopsiar?

Uma das grandes conquistas das diretrizes recentes foi a dispensa da biópsia pulmonar cirúrgica em pacientes com apresentação típica. A biópsia pulmonar tem mortalidade não desprezível (1 a 2%) e morbidade considerável em pacientes já com função pulmonar comprometida.

O diagnóstico pode ser feito clinicamente quando há: contexto clínico compatível (adulto >50 anos, exclusão de causas conhecidas — drogas, exposições, colagenoses) + TCAR com padrão PIU típico. Nesse cenário, a biópsia é dispensável.

Quando a TCAR mostra padrão provável, indeterminado ou alternativo, a discussão multidisciplinar (DMD) define a necessidade de biópsia. A modalidade preferida atualmente é a criobiópsia transbrônquica — menos invasiva que a videotoracoscopia cirúrgica, com fragmentos maiores e melhor representatividade histológica que a biópsia transbrônquica convencional.

Importante: o lavado broncoalveolar (LBA) pode ajudar na exclusão de diagnósticos alternativos (infecção, eosinofilia, macrófagos carregados de lipídio na pneumonia aspirativa), mas sozinho não fecha o diagnóstico de FPI.

FPI é o único diagnóstico em que a biópsia pode ser dispensada se TCAR mostrar PIU típico no contexto clínico adequado. Para todas as outras DIPs, o padrão histológico continua sendo essencial para fechar o diagnóstico.

🫁

FPI e padrão PIU são muito cobrados. Características da TCAR, critérios diagnósticos e antifibróticos são temas frequentes em provas.

Questões de DIP e FPI →
Capítulo III

Padrão PINE e Pneumonite de Hipersensibilidade

Padrão PINE — o oposto do PIU

A Pneumonia Intersticial Não Específica (PINE) é o padrão histológico e tomográfico mais associado às doenças do tecido conjuntivo (colagenoses) e também pode ser idiopática. É em muitos aspectos o oposto do PIU, o que facilita a diferenciação.

O que define o padrão PINE é a homogeneidade temporal e espacial: ao contrário do PIU com sua mistura caótica de estágios simultâneos, na PINE tudo parece estar no mesmo estágio de doença ao mesmo tempo. No microscópio, os alvéolos mantêm sua arquitetura estrutural básica preservada, sem a distorção típica da FPI. Focos fibroblásticos e faveolamento são mínimos ou ausentes.

Na TCAR, o padrão PINE se apresenta com opacidades em vidro fosco bilaterais e simétricas, predominando nas zonas superiores e médias (o oposto do PIU que prefere bases), com preservação relativa das bases — o chamado "sinal da poupança subpleural imediata". A arquitetura pulmonar está mantida, sem bronquiectasias de tração extensas.

A PINE pode ser majoritariamente celular/inflamatória (~16% dos casos) ou majoritariamente fibrótica (~84% dos casos). A forma celular responde muito bem ao tratamento imunossupressor; a fibrótica tem resposta mais limitada mas ainda melhor que a FPI.

O tratamento de escolha nas DIPs associadas a colagenoses com padrão PINE é o micofenolato mofetil, confirmado pelo Scleroderma Lung Study II como droga de referência, especialmente na esclerose sistêmica. A sorologia reumatológica completa — FR, anti-CCP, FAN, anti-Jo-1, anti-Scl-70, anti-SS-A, anti-SS-B — é obrigatória em todo paciente com DIP, mesmo sem sintomas articulares evidentes.

PIU vs PINE — diferença fundamental
  • PIU (FPI): heterogêneo, bases + subpleural, faveolamento, focos fibroblásticos, sem vidro fosco
  • PINE (colagenoses): homogêneo, zonas superiores/médias, vidro fosco bilateral, sem faveolamento, arquitetura preservada
  • PINE → tratamento com micofenolato mofetil
  • Sorologia obrigatória antes de chamar qualquer DIP de "idiopática"

Pneumonite de Hipersensibilidade (PH)

A Pneumonite de Hipersensibilidade (PH) — também chamada alveolite alérgica extrínseca — é uma reação inflamatória imunomediada do parênquima pulmonar causada pela inalação repetida de antígenos orgânicos em indivíduos geneticamente susceptíveis.

No Brasil, as causas mais identificadas são: exposição a pássaros e penas (44% dos casos) — especialmente canários, pombos e periquitos — e exposição a mofo/fungos (17%). Outras causas incluem criação de ratos de laboratório, exposição a cana-de-açúcar deteriorada, laticínios e umidificadores contaminados. A anamnese detalhada sobre o ambiente doméstico e profissional é essencial — muitas vezes o paciente nem associa os pássaros da sala com os pulmões.

A PH é classificada em três formas:

PH aguda: instalação em horas a dias após exposição intensa. Febre, calafrios, tosse, dispneia aguda. Pode ser confundida com pneumonia infecciosa. Melhora rapidamente com o afastamento do antígeno.

PH crônica não-fibrótica: exposição contínua de baixa intensidade. Sintomas insidiosos, com melhora nos finais de semana ou férias (quando o paciente se afasta do ambiente agressor) e piora ao retornar — esse padrão de "melhora-piora" é muito sugestivo.

PH crônica fibrótica: exposição prolongada sem diagnóstico → fibrose progressiva que pode se tornar indistinguível da FPI. É a forma mais grave e de pior prognóstico.

Na TCAR, a PH apresenta: opacidades em vidro fosco difusas (inflamação ativa); nódulos centrolobulares mal definidos (bronquiolite granulomatosa); padrão de mosaico com aprisionamento aéreo — áreas de baixa atenuação intercaladas com áreas normais, refletindo bronquiolite obstrutiva. Na forma crônica fibrótica, podem aparecer bronquiectasias de tração e, raramente, faveolamento.

Na histopatologia, o achado característico é o padrão bronquiolocêntrico (centrado na via aérea), com fibrose septal, infiltrado de linfócitos e plasmócitos, e bronquiolite granulomatosa — granulomas pouco formados ao redor dos bronquíolos.

O passo mais importante do tratamento é o afastamento definitivo do antígeno. Sem isso, nenhum medicamento é eficaz a longo prazo. Corticosteroides são usados para acelerar a melhora na fase aguda e controlar a inflamação. Nas formas crônicas fibróticas, imunossupressores como azatioprina ou micofenolato podem ser necessários.

"Piora na segunda, melhora no final de semana." Quando o paciente melhora fora do ambiente habitual e piora ao retornar, pensar sempre em Pneumonite de Hipersensibilidade. Perguntar sobre pássaros em casa.

PH — pontos-chave
  • Brasil: pássaros/penas (44%) e mofo (17%) são os principais antígenos
  • TCAR: vidro fosco + nódulos centrolobulares + padrão de mosaico
  • Histopatologia: granulomas bronquiolocêntricos + bronquiolite
  • Tratamento: afastar o antígeno primeiro + corticoide + imunossupressor se necessário
  • Forma crônica fibrótica: pode mimetizar FPI e ter mau prognóstico
Capítulo IV

Sarcoidose, Colagenoses e Doenças Ocupacionais

Sarcoidose — granulomas sem necrose

A sarcoidose é uma doença granulomatosa sistêmica de causa desconhecida que pode acometer praticamente qualquer órgão, mas acomete o pulmão em 80% dos casos. É mais comum em adultos jovens a de meia-idade, com leve predomínio em mulheres e em afrodescendentes.

O achado radiológico clássico — e altamente cobrado em provas — é o "hilo em batata": linfadenopatia hilar e mediastinal bilateral e simétrica, visível já no radiograma simples de tórax. Esse padrão, especialmente quando acompanhado de eritema nodoso e artralgia (síndrome de Löfgren), é quase patognomônico de sarcoidose.

No laboratório, três achados são muito característicos: ECA elevada (enzima conversora de angiotensina, produzida pelos macrófagos do granuloma); hipercalcemia + hipercalciúria (os macrófagos ativados da sarcoidose produzem vitamina D de forma autônoma, elevando a absorção intestinal de cálcio); e anergia ao PPD — o paciente com sarcoidose ativa tem teste tuberculínico negativo mesmo se nunca foi vacinado, porque a doença deprime a imunidade celular.

Na histopatologia, o granuloma da sarcoidose é bem formado, porém SEM necrose caseosa — essa é a diferença fundamental com a tuberculose. O diagnóstico diferencial com TB é crítico: tuberculose tem granuloma com necrose no centro e PPD positivo; sarcoidose tem granuloma sem necrose e PPD negativo. Ambas podem ter adenopatia hilar e consolidações pulmonares.

O tratamento é baseado em corticosteroides. Muitos casos de sarcoidose se resolvem espontaneamente — especialmente o estágio I (adenopatia hilar sem comprometimento parenquimatoso). Casos com comprometimento de órgão nobre (pulmão, coração, sistema nervoso central) exigem tratamento.

🧠
TB vs Sarcoidose: TB = granuloma COM necrose caseosa + PPD positivo. Sarcoidose = granuloma SEM necrose + PPD negativo (anergia) + ECA elevada + hipercalcemia. "Sarcoidose é organizada mas sem necrose."

DIPs associadas a colagenoses

As doenças do tecido conjuntivo (colagenoses) são causas importantes e frequentemente subdiagnosticadas de DIP. As principais são: artrite reumatoide (AR), esclerose sistêmica (esclerodermia), dermatomiosite/polimiosite, síndrome de Sjögren e lúpus eritematoso sistêmico (LES).

O padrão histológico mais comum nas DIPs associadas a colagenoses é a PINE. A manifestação pulmonar pode preceder os sintomas articulares e reumatológicos — por isso a sorologia é mandatória em todo paciente com DIP sem causa aparente. Pedir sistematicamente: FR, anti-CCP, FAN, anti-Jo-1, anti-Scl-70, SS-A, SS-B.

Na artrite reumatoide, além da PINE pode ocorrer o padrão PIU (com pior prognóstico), bronquiolite, derrame pleural e, raramente, nódulos reumatoides pulmonares.

Na esclerose sistêmica (esclerodermia), a DIP é a principal causa de morte — acomete até 40% dos pacientes, com padrão PINE predominante. O Scleroderma Lung Study II demonstrou a superioridade do micofenolato sobre a ciclofosmedida com melhor tolerabilidade.

Na dermatomiosite/polimiosite, o anticorpo anti-Jo-1 está associado a DIP mais grave e de início mais abrupto. É parte da síndrome antisintetase: miosite + DIP + artrite + "mãos de mecânico" + fenômeno de Raynaud.

Doenças ocupacionais — pergunte a profissão

As pneumoconioses são DIPs causadas pela inalação de poeiras minerais ou orgânicas no ambiente de trabalho. A anamnese ocupacional detalhada é insubstituível.

Silicose: causada pela inalação de dióxido de silício livre (sílica). Clássica em mineradores, pedreiros, jateadores de areia e, como enfatiza o professor, em escavadores de poços no Piauí — profissão regional de alto risco. Radiologicamente, nodulação bilateral de predomínio em lobos superiores e adenopatia hilar calcificada em "casca de ovo" são achados característicos. Silicose acelera o risco de tuberculose — todo paciente com silicose deve fazer PPD anualmente.

Asbestose: causada pela inalação de fibras de amianto (asbesto). Classicamente associada à construção civil antiga, indústria naval e isolamento térmico. Produz fibrose reticular com predomínio em lobos inferiores e, tipicamente, placas pleurais bilaterais calcificadas — achado quase patognomônico de exposição ao amianto. O amianto também aumenta o risco de mesotelioma pleural e câncer de pulmão.

Berílio, cobalto, alumínio: menos comuns, mas com padrões específicos ligados a indústrias de alta tecnologia, aeronáutica e metalurgia.

Ocupacionais — memorizar
  • Silicose: sílica livre → mineradores, pedreiros, escavadores de poços · nodulação lobo superior · risco de TB
  • Asbestose: amianto → construção naval, civil · fibrose basal + placas pleurais calcificadas · risco de mesotelioma
  • Sempre perguntar profissão, hobbies, criação de animais e condições de moradia

Pneumonia em Organização (PO) e DIPs do tabagista

A Pneumonia em Organização (PO) — antigamente chamada BOOP — é uma DIP caracterizada pela presença de pólipos de tecido de granulação dentro dos ductos alveolares e alvéolos. A arquitetura pulmonar ao redor é preservada. Pode ser criptogênica (POC, sem causa identificada) ou secundária a drogas, infecções ou colagenoses.

Na TCAR, o padrão típico é de consolidações peribrônquicas e peribronquiolares bilaterais, de distribuição perilobular característica, frequentemente migratórias (somem de um lugar e aparecem em outro). Responde muito bem a corticosteroides.

As DIPs relacionadas ao tabagismo constituem um espectro particular:

Bronquiolite Respiratória (BR): acúmulo de macrófagos pigmentados nos bronquíolos. Geralmente assintomática ou com sintomas leves. A cessação do tabagismo costuma ser suficiente para melhora.

Pneumonia Intersticial Descamativa (PID): acúmulo difuso de macrófagos em todo o parênquima. Vidro fosco difuso na TCAR. Mais sintomática que BR. Responde ao tabagismo e, se necessário, corticoide.

Histiocitose Pulmonar de Células de Langerhans: ocorre em adultos jovens tabagistas. A TCAR mostra padrão misto de cistos e nódulos — o padrão "cistos + nódulos em jovem tabagista" é muito característico. A cessação do tabagismo pode levar à regressão.

Capítulo V

Tratamento e Discussão Multidisciplinar

Tratamento da FPI — antifibróticos

O tratamento da FPI mudou radicalmente com a aprovação de dois antifibróticos que demonstraram reduzir a progressão da doença:

Nintedanibe — inibidor de tirosinoquinases (PDGFR, VEGFR, FGFR). Reduz a velocidade de declínio da CVF em aproximadamente 50% em comparação ao placebo. Efeito adverso principal: diarreia (60 a 70% dos pacientes, geralmente manejável com antidiarreicos e ajuste de dose).

Pirfenidona — mecanismo pleitrópico: efeitos antifibróticos, anti-inflamatórios e antioxidantes. Também reduz o declínio da CVF. Efeito adverso principal: fotossensibilidade cutânea (uso de protetor solar obrigatório) e sintomas gastrointestinais.

Ambos os medicamentos não curam a FPI, não revertem fibrose já estabelecida e não melhoram a CVF — eles apenas desaceleram o declínio funcional. O objetivo é ganhar tempo e qualidade de vida. O transplante pulmonar bilateral continua sendo a única opção curativa para pacientes selecionados.

Além dos antifibróticos, o manejo da FPI inclui: oxigenoterapia suplementar (quando SpO₂ ≤88% ou PaO₂ ≤55 mmHg em repouso ou exercício), reabilitação pulmonar, cessação do tabagismo, vacinação (influenza e pneumococo), tratamento do refluxo gastroesofágico (frequentemente associado e possivelmente contribuindo para microaspiração) e avaliação precoce para transplante.

Corticosteroides e imunossupressores são PREJUDICIAIS na FPI — o estudo PANTHER demonstrou aumento de mortalidade com prednisona + azatioprina + N-acetilcisteína. Nunca usar imunosupressão na FPI sem comorbidade específica.

A Discussão Multidisciplinar (DMD)

Um dos princípios fundamentais no manejo das DIPs é que o diagnóstico definitivo deve ser estabelecido em Discussão Multidisciplinar (DMD), reunindo pneumologista, radiologista especializado em tórax e patologista — e, quando disponível, reumatologista.

A razão é simples: os padrões tomográficos e histopatológicos das DIPs frequentemente se sobrepõem. Um padrão PIU na TCAR pode representar FPI, mas também DIP por colagenose ou PH crônica fibrótica — e o tratamento é completamente diferente em cada um. A leitura integrada clínica + imagem + histologia produz diagnósticos mais acurados e evita erros com consequências graves.

O fluxograma diagnóstico funciona assim: Contexto clínico claro + TCAR com PIU típico → diagnóstico de FPI sem biópsia. Se a TCAR mostra padrão provável de PIU, a DMD avalia a necessidade de biópsia. Se mostra padrão indeterminado ou alternativo, a biópsia é quase sempre necessária — e a DMD decide a melhor modalidade (criobiópsia transbrônquica vs videotoracoscopia).

A DMD também é o fórum onde se discute a indicação de transplante pulmonar: CVF <80% do previsto ou declínio >10% em 6 meses, DLCO <40%, SpO₂ <88% ao esforço, faveolamento extenso na TCAR.

👥
DMD — a regra de ouro: Pneumologista + Radiologista de tórax + Patologista. Nenhum especialista isolado tem acesso a todos os elementos para fechar o diagnóstico de uma DIP complexa. A discussão conjunta é padrão internacional de qualidade.
Tratamento por diagnóstico
  • FPI: antifibróticos (nintedanibe ou pirfenidona) · O₂ se indicado · transplante se elegível · SEM imunossupressor
  • PINE / colagenoses: micofenolato mofetil ± corticoide · tratar a doença de base
  • PH: afastar o antígeno + corticoide ± azatioprina/micofenolato
  • Sarcoidose: corticoide se indicação (órgão nobre) · muitos casos resolvem espontaneamente
  • Silicose / asbestose: afastar exposição · suporte · rastrear TB na silicose
  • DIPs do tabagismo: cessação do tabagismo é o tratamento principal
💊

Antifibróticos, DMD e diagnóstico diferencial das DIPs são temas frequentes em provas. Pratica no MedCaju.

Resolver questões de DIP →

Autoria: Resumo organizado por Igor Sabino para o MedCaju, com base no conteúdo do Prof. Dr. Antônio de Deus Filho, complementado com anotações pessoais e diretrizes sobre o tema.
Referências: ATS/ERS/JRS/ALAT Guidelines for IPF · RAGBI (Registro Brasileiro de DIP) · Scleroderma Lung Study II
⚠️ Material estritamente de estudo. Não substitui fontes primárias, literatura médica oficial nem orientação profissional.

🍅 Pomodoro

Sessões hoje: 0
25:00
foco