Fisiopatologia — o Desbalanço
O que é a doença ulcerosa péptica
A doença ulcerosa péptica (DUP) engloba as úlceras do estômago e do duodeno — lesões que vão além da inflamação superficial das gastrites e atingem a mucosa em profundidade, ultrapassando a muscular da mucosa e podendo chegar até a serosa. O ambiente ácido é o denominador comum: seja no estômago ou no duodeno, a úlcera se forma quando há falha dos mecanismos de proteção da mucosa frente à agressão ácida e enzimática.
A gastrite — processo inflamatório da mucosa gástrica — pode ser entendida como a fase antecessora: a fisiopatologia é a mesma, mas sem a formação da lesão tecidual franca. Quando o processo progride e há ruptura dessa barreira, formam-se as erosões e, mais profundamente, as úlceras.
A DUP tem enorme impacto epidemiológico: aproximadamente 4 milhões de novos casos anuais nos Estados Unidos, prevalência de 12% nos homens e 10% nas mulheres. Apesar de ser uma doença de tratamento relativamente acessível, ainda causa morte — estimadas em 10 a 15 mil casos anuais nos EUA — não pela úlcera em si, mas por suas complicações não tratadas: hemorragia digestiva, perfuração e obstrução. É mais prevalente em regiões com baixo saneamento básico, justamente pela maior disseminação do H. pylori por água e alimentos contaminados.
Os mecanismos de defesa da mucosa gástrica
O estômago vive sob agressão constante — ácido clorídrico, pepsina, bile regurgitada — e ainda assim mantém sua integridade. Para isso, dispõe de um sofisticado sistema de defesa:
Muco + bicarbonato: a célula mucosa gástrica secreta continuamente uma camada de muco viscoso que reveste o epitélio. Dentro dessa camada de muco há bicarbonato — uma base que neutraliza o ácido antes que ele atinja o epitélio. Mesmo que o pH luminal seja 1 a 2, o pH na interface epitélio-muco mantém-se próximo a 7, protegendo a célula.
Integridade das junções intercelulares: as junções tight (ocludentes) entre as células epiteliais impedem a retrodifusão de íons H⁺ para dentro da mucosa. Quando essas junções são comprometidas — por H. pylori ou por AINEs — o ácido penetra para o interstício e causa lesão tecidual.
Fluxo sanguíneo mucoso adequado: a perfusão adequada da mucosa é essencial para remover o ácido que "escapa" para o interstício, fornecer oxigênio e nutrientes para a renovação celular e manter o pH local. Quando a perfusão cai — como no choque, na sepse, em grandes queimados — a mucosa fica vulnerável: é o mecanismo central da úlcera de estresse.
Renovação celular rápida: o epitélio gástrico se renova completamente a cada 3 a 5 dias. Essa capacidade regenerativa veloz garante que pequenas lesões sejam reparadas antes de progredir. AINEs e tabagismo comprometem esse processo.
Prostaglandinas endógenas: as prostaglandinas E2 e I2, produzidas localmente pela COX-1, estimulam a secreção de muco e bicarbonato, inibem a secreção ácida e promovem vasodilatação mucosa. São o elo central entre os AINEs e a formação de úlceras — ao inibir a COX, os anti-inflamatórios eliminam esse fator protetor.
A úlcera não é resultado de excesso de ácido isoladamente — é resultado do desbalanço entre agressão e defesa. Com defesa suficiente, mesmo um ambiente ácido não causa úlcera. Com defesa comprometida, qualquer nível de acidez pode ser suficiente para lesar.
H. pylori — o principal agressor
O Helicobacter pylori é o principal fator etiológico das úlceras pépticas: presente em 90% das úlceras duodenais e em 60 a 70% das úlceras gástricas. É uma bactéria Gram-negativa, espiralada, com flagelos, capaz de penetrar a camada de muco do estômago — o que seria normalmente incompatível com a sobrevivência bacteriana.
O H. pylori sobrevive no ambiente ácido por um mecanismo engenhoso: produz a enzima urease, que converte ureia em amônia e CO₂. A amônia produzida neutraliza o ácido ao redor da bactéria, criando uma bolha de microambiente alcalino que a protege. Ao mesmo tempo, essa amônia é tóxica para as células epiteliais ao redor, comprometendo a barreira mucosa.
Além disso, o H. pylori: diminui a espessura da camada de muco ao redor do estômago; reduz a concentração de bicarbonato no muco; produz proteases e fosfolipases que degradam o muco; ativa o sistema imune local com inflamação crônica (gastrite por H. pylori); e estimula hipersecreção de gastrina, levando a maior produção ácida — especialmente relevante na úlcera duodenal.
A transmissão é fecal-oral ou oral-oral, amplificada em condições de baixo saneamento básico. No Piauí e em regiões similares, a prevalência do H. pylori na população geral pode chegar a 70%, o que torna o rastreamento populacional de baixo custo-benefício — o foco deve ser no tratamento de quem tem doença ativa.
AINEs — o segundo grande agressor
Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) são a segunda principal causa de úlcera péptica e, ironicamente, os medicamentos mais consumidos de forma inadequada e sem prescrição. O professor destaca: diclofenaco sódico, ibuprofeno, naproxeno, nimesulida — estão disponíveis em qualquer farmácia sem receita, e são os "remédios caseiros" para dor de cabeça, dor articular, mal-estar.
O mecanismo de ação lesiva é duplo:
Mecanismo sistêmico (o principal): os AINEs inibem as enzimas COX-1 e COX-2. A inibição da COX-1 reduz a produção de prostaglandinas protetoras — menos muco, menos bicarbonato, menos vasodilatação mucosa, menos renovação celular. O resultado é mucosa vulnerável mesmo sem ação direta do AINE.
Mecanismo local (direto): o AINE em contato direto com a mucosa altera a permeabilidade das junções intercelulares, permitindo retrodifusão de H⁺ para dentro do epitélio. Por isso, formas entéricas ou parenterais do medicamento reduzem mas não eliminam o risco — o mecanismo sistêmico persiste.
Os fatores de risco que amplificam a lesão por AINEs incluem: idade > 65 anos, história prévia de úlcera, doses altas ou uso prolongado, uso concomitante de corticosteroides ou anticoagulantes, e infecção concomitante por H. pylori. Pacientes de 15% dos usuários crônicos de AINEs desenvolvem úlcera e 1,5% apresentam sangramento gastrointestinal clinicamente significativo.
O professor alerta para um cenário muito comum: paciente ortopédico, submetido a cirurgia, que leva ibuprofeno para casa para controle da dor pós-operatória, gosta do efeito, continua usando por semanas. Retorna ao hospital uma semana depois não pela cirurgia, mas por hematêmese ou insuficiência renal por uso inadvertidamente prolongado. Idosos com AINEs crônicos sem gastroproteção são grupo de altíssimo risco.
"O diclofenaco do vizinho, o ibuprofeno da farmácia, o analgésico do dia a dia — todos são AINEs, todos estão relacionados à úlcera péptica." O professor enfatiza a importância da anamnese farmacológica detalhada em todo paciente com dispepsia.
Úlcera de estresse e outros fatores
O "estresse" da úlcera de estresse não é o estresse psicológico do dia a dia — provas, pressão do trabalho, ansiedade. O professor é enfático: é o estresse fisiológico grave. Pacientes em UTI com sepse, grande queimados (lesão de Curling), politraumatizados, pacientes em choque — esses são os candidatos à úlcera de estresse.
O mecanismo é a hipoperfusão da mucosa gástrica: no estresse grave, há desvio do débito cardíaco para órgãos nobres (cérebro, coração), com vasoconstrição esplâncnica. A mucosa gástrica fica isquêmica — perfusão insuficiente para remover o ácido que "vaza", renovação celular comprometida, produção de muco e bicarbonato reduzida. O resultado é úlcera aguda, frequentemente múltipla e difusa.
Outros fatores etiológicos incluem: tabagismo — diminui produção de prostaglandinas endógenas, reduz fluxo sanguíneo mucoso, diminui a renovação celular e inibe a angiogênese; síndrome de Zollinger-Ellison — tumor produtor de gastrina (gastrinoma) causando hipersecreção ácida maciça e úlceras múltiplas e refratárias; lesão cáustica (ingestão de ácidos ou bases); radioterapia abdominal; e fatores genéticos — a DUP é multifatorial, com componente hereditário.
- H. pylori — 90% das úlceras duodenais · 60–70% das gástricas
- AINEs — inibição da COX → menos prostaglandinas → mucosa vulnerável
- Úlcera de estresse — sepse, queimados, politrauma → hipoperfusão mucosa
- Tabagismo — reduz prostaglandinas, fluxo e renovação celular
- Zollinger-Ellison — hipergastrinemia → hipersecreção ácida
- Corticosteroides + AINEs — combinação de altíssimo risco
Úlcera gástrica vs úlcera duodenal — diferenças fisiopatológicas
As duas localizações têm fisiopatologia ligeiramente diferente:
A úlcera gástrica resulta principalmente de falha na barreira protetora da mucosa — pode ocorrer com secreção ácida normal ou até reduzida. A mucosa gástrica simplesmente não consegue se defender do ácido que já está presente. É mais frequentemente associada ao uso de AINEs e aos H. pylori de colonização gástrica predominante.
A úlcera duodenal resulta principalmente de hipersecreção ácida — a mucosa duodenal é exposta a uma carga ácida maior do que consegue neutralizar. O H. pylori, ao causar gastrite antral, suprime a produção de somatostatina (que normalmente inibe a gastrina), levando a hipergastrinemia e hipersecreção ácida. O piloro mais patente (passagem facilitada para o duodeno) e a hipermotilidade gástrica também contribuem. A localização mais comum é nos primeiros 2 a 3 cm da primeira porção duodenal — justamente onde passa a artéria gastroduodenal, o que explica o potencial de sangramento grave.