Doenças Inflamatórias Intestinais — MedCaju
Doenças Inflamatórias Intestinais

Doença de Crohn &
Retocolite Ulcerativa

Resumo organizado por Igor Sabino para o MedCaju, com base na aula oral do Prof. Itapuan Damásio de Sousa, complementado com anotações pessoais e diretrizes sobre o tema. Material estritamente de estudo.

Doença de Crohn
Retocolite Ulcerativa
Tratamento Escalonado
Biológicos & Cirurgia
Capítulo I

Visão Geral das Doenças Inflamatórias Intestinais

O que são as DII e por que importam

As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) compreendem principalmente duas condições: a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa (RCU). Ambas são doenças crônicas, de curso imprevisível, caracterizadas por períodos de exacerbação e remissão, e impactam profundamente a qualidade de vida dos pacientes — interferindo no trabalho, nos estudos, na vida social e no bem-estar psicológico.

O professor ressalta que essas não são doenças raras: são condições relativamente comuns, com incidência crescente no mundo todo, especialmente em países ocidentais e em desenvolvimento. No Brasil, a incidência vem aumentando, possivelmente associada às mudanças no padrão alimentar — o consumo excessivo de ultraprocessados aumenta a incidência das DII, assim como o álcool e dietas de alto índice inflamatório. Por outro lado, populações com consumo maior de fibras, frutas e vegetais tendem a ter menor prevalência.

A fisiopatologia central é uma resposta imunológica exagerada e desregulada da mucosa intestinal. O intestino normalmente mantém tolerância imunológica à microbiota residente — nas DII, essa tolerância é perdida, e o sistema imune passa a atacar cronicamente o próprio tecido intestinal. Nesse processo, a composição do microbioma intestinal tem papel importante: pacientes com disbiose (desequilíbrio da flora) tendem a ter quadros mais exacerbados. A genética do indivíduo também determina sua predisposição — membros de uma mesma família têm risco aumentado.

Porque o tratamento envolve suprimir a resposta imune, esses pacientes ficam com imunossupressão relativa, o que traz implicações diretas para vacinação e risco infeccioso — aspectos que o professor enfatiza ao longo da aula.

Pontos-chave
  • DII = Crohn + RCU — doenças crônicas com surtos e remissões
  • Fisiopatologia: resposta imune desregulada contra a própria mucosa intestinal
  • Microbioma alterado (disbiose) e genética contribuem para o quadro
  • Ultraprocessados, álcool e tabaco aumentam incidência e gravidade
  • Imunossupressão do tratamento → atenção especial com vacinação e infecções

Vacinação no paciente com DII

Um ponto que o professor destaca com ênfase é a questão da vacinação nesses pacientes. Como o tratamento das DII envolve imunossupressores e imunobiológicos, a resposta vacinal pode ser reduzida e o risco de complicações por vírus vacinais aumentado.

A regra fundamental é: vacinas de vírus vivos são contraindicadas em pacientes imunossuprimidos. Isso inclui a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola, caxumba), varicela e febre amarela. Administrar uma vacina de vírus vivo para um paciente imunossuprimido pode fazer com que ele desenvolva exatamente a doença para a qual está sendo vacinado.

Vacinas inativadas são seguras e devem ser mantidas e atualizadas. Os pacientes com DII devem idealmente completar o calendário vacinal antes de iniciar a imunossupressão. Pacientes com mais de 55 anos em uso de imunossupressores têm indicação especial de vacinação antizóster.

Vacinas de vírus vivos (tríplice viral, varicela, febre amarela) são contraindicadas no paciente imunossuprimido. Vacinas inativadas são seguras e devem ser mantidas.

Pontos-chave
  • Vírus vivos: contraindicados — risco de desenvolver a doença (sarampo, varicela, febre amarela)
  • Inativadas: seguras — influenza, pneumococo, hepatite B, HPV, COVID-19
  • Vacinar idealmente antes de iniciar imunossupressão
  • >55 anos + imunossupressor: indicação de vacinação antizóster
Capítulo II

Doença de Crohn

Características gerais e localização

A Doença de Crohn (DC) pode acometer qualquer segmento do trato gastrointestinal, da boca ao ânus — essa é sua característica mais marcante em comparação com a RCU. O acometimento é transmural — envolve todas as camadas da parede intestinal, não apenas a mucosa — e de forma segmentar e intercalada: há áreas de inflamação alternadas com áreas de mucosa completamente normal. Esse padrão "salteado" é patognomônico da Crohn.

A localização mais comum é a região ileocecal — íleo terminal e cólon direito. Considerando as diferentes apresentações isoladas e combinadas, quase 70% dos pacientes têm envolvimento do íleo em algum grau. Pode haver ileíte isolada, colite isolada ou ileocolite — sendo a ileocolite a mais frequente. Menos de 5% dos pacientes têm comprometimento do trato digestivo superior (esôfago, estômago, duodeno).

O caráter transmural explica as complicações características da Crohn: como a inflamação atravessa toda a parede, ela pode criar fístulas (comunicações anômalas entre alças, ou entre uma alça e outro órgão — bexiga, vagina, pele), abscessos (coleções purulenta na cavidade abdominal) e estenoses (cicatrização com estreitamento progressivo do lúmen, levando à obstrução intestinal).

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Localização da Crohn: Ileíte ~30% · Colite ~20% · Ileocolite ~50% · TGI superior <5%. Quase 70% têm algum comprometimento ileal. A área ileocecal é a mais frequentemente acometida.
Pontos-chave
  • Boca ao ânus — qualquer segmento do TGI
  • Transmural + segmentar + intercalada — padrão "skip lesions"
  • Local mais comum: íleo terminal + cólon direito (ileocolite)
  • Transmural → fístulas · abscessos · estenoses

Apresentação clínica da Doença de Crohn

Os casos mais simples e leves chegam ao médico com diarreia prolongada — um mês ou mais de diarréia — associada a dor abdominal. A dor é preferencialmente em fossa ilíaca direita, refletindo o comprometimento ileocecal. Em alguns pacientes, especialmente nas formas com massa inflamatória, é possível palpar uma massa abdominal em fossa ilíaca direita — o processo inflamatório local cria um aglomerado de alças aderidas e infiltradas que forma uma massa palpável.

Uma apresentação clínica bastante característica — que o professor destaca com ênfase — é a doença anal e perianal: abscessos perianais e fístulas perianais de repetição. Quando um paciente chega com episódios repetidos de abscesso perianal ou fístula anal sem causa anatômica óbvia, Crohn deve ser fortemente considerado. Essa é uma forma de apresentação que frequentemente leva ao diagnóstico tardio porque o paciente passa por cirurgias de abscesso sem que a etiologia subjacente seja investigada.

Quando a doença está mais avançada ou em fase de complicação, o paciente pode se apresentar com síndrome de obstrução intestinal (distensão, parada de eliminação de fezes e flatos, vômitos) por estenose, com abdome agudo por perfuração ou peritonite, ou com síndrome de má absorção intestinal — anemia, hipoalbuminemia, deficiência de B12 e outras vitaminas — decorrente da inflamação crônica do íleo que compromete a absorção.

A diarreia da Crohn caracteristicamente não tem sangue ou tem sangue escasso — diferente da RCU, onde o sangramento retal é o sintoma cardinal. Isso ocorre porque na Crohn o comprometimento predomina no íleo e cólon direito, onde o sangramento é menos frequente e pode estar digerido.

"Paciente jovem com abscessos e fístulas perianais de repetição — investigar Doença de Crohn. A doença perianal é uma das formas de apresentação mais características."

Apresentação clínica da Crohn
  • Diarreia prolongada (>1 mês) + dor em FID — apresentação mais comum
  • Massa palpável em FID — aglomerado de alças inflamadas
  • Abscessos e fístulas perianais de repetição — pensar em Crohn
  • Formas complicadas: obstrução por estenose · abdome agudo · síndrome de má absorção
  • Diarreia sem sangue (diferença da RCU)
  • Anemia por deficiência (B12, ferro) — comprometimento ileal
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Doença de Crohn é alta frequência em provas. Diagnóstico, localização, complicações e diferencial com RCU.

Questões de Doença de Crohn →

Diagnóstico da Doença de Crohn

O padrão-ouro diagnóstico é o exame endoscópico com biópsia — especificamente a colonoscopia com ileoscopia. O professor faz questão de esclarecer uma confusão frequente: quando se diz "exame endoscópico", não se trata da endoscopia digestiva alta (EDA), mas da colonoscopia — a endoscopia digestiva baixa. Com ela é possível visualizar diretamente a mucosa, identificar o padrão de comprometimento, avaliar a extensão das lesões e coletar biópsias.

Os achados endoscópicos típicos da Crohn são úlceras aftosas intercaladas com mucosa normal — o padrão "skip" que reflete o caráter segmentar da doença. Na biópsia, a presença de granulomas não caseosos é altamente sugestiva de Crohn, embora não esteja presente em todos os casos (encontrados em cerca de 30–40% das biópsias).

Quando a colonoscopia não está disponível ou é inviável (como no caso clínico da Isabela que o professor discute — paciente de 16 anos, sem anestesista disponível no serviço), lança-se mão da tomografia computadorizada. Embora não seja o padrão-ouro, a TC pode mostrar espessamento de parede intestinal e inflamação transmural de forma intercalada. O ideal seria a enterotomografia ou enteroressonância — com contraste oral e reconstrução do trato intestinal, que permite identificar comprometimento transmural com maior detalhamento. O caso clínico ilustrou como a TC simples, mesmo sem contraste ideal, já demonstrou espessamento da parede e padrão intercalado compatível com Crohn, levando o próprio radiologista a sugerir o diagnóstico.

Nos exames laboratoriais, pede-se hemograma (anemia, leucocitose), albumina (desnutrição), B12, PCR e especialmente a calprotectina fecal — um marcador de atividade inflamatória intestinal ativa, específico para inflamação da mucosa, muito útil para monitorar resposta ao tratamento e distinguir atividade orgânica de sintomas funcionais.

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Calprotectina fecal: marcador de inflamação intestinal ativa — eleva-se nas crises de DII. Útil para distinguir atividade de DII de síndrome do intestino irritável (SII), que não causa elevação. Também usada para monitorar resposta terapêutica.
Diagnóstico
  • Padrão-ouro: colonoscopia com biópsia — não é EDA, é endoscopia baixa
  • Achados: úlceras aftosas intercaladas com mucosa normal (padrão skip)
  • Biópsia: granulomas não caseosos — altamente sugestivos de Crohn
  • Alternativa: TC (espessamento intercalado) · Enterotomografia com contraste (ideal)
  • Laboratorial: hemograma · albumina · B12 · PCR · calprotectina fecal
Capítulo III

Retocolite Ulcerativa

Características gerais e localização

A Retocolite Ulcerativa (RCU) difere da Crohn em vários aspectos fundamentais. Primeiro, a localização: ela acomete exclusivamente o cólon e o reto, sempre de forma contínua e ascendente a partir do reto. Não há padrão salteado — começa no reto, sobe pelo sigmoide, cólon esquerdo, transverso e pode chegar ao ceco numa pancolite. Por isso, o comprometimento retal está quase sempre presente na RCU.

Segundo, a profundidade: o processo inflamatório na RCU é superficial, restrito à mucosa — não é transmural. Isso tem implicações importantes: como a inflamação é mais superficial, as complicações de fístulas e abscessos são raras. Por outro lado, a inflamação mucosa causa um sangramento intenso, que é a marca clínica da RCU.

Terceiro, o padrão: contínuo e ascendente. Não há áreas de mucosa normal intercaladas com áreas inflamadas — a inflamação é uniforme na extensão acometida. Isso diferencia claramente da Crohn no exame endoscópico.

Características da RCU
  • Acomete exclusivamente cólon e reto — nunca intestino delgado
  • Padrão contínuo e ascendente — começa no reto, sobe
  • Inflamação superficial — mucosa — não transmural
  • Sem fístulas e abscessos — mas com sangramento retal intenso

Apresentação clínica da RCU

O sintoma cardinal da RCU é a diarreia com sangue. A diarreia sanguinolenta, muitas vezes acompanhada de muco, é o achado clínico que mais frequentemente leva o paciente ao médico. Diferente da Crohn, onde a diarreia tipicamente não tem sangue, na RCU o sangramento retal é quase universal e reflete a inflamação mucosa com erosão vascular difusa.

O paciente também apresenta urgência evacuatória intensa — a necessidade imperiosa de evacuar, frequentemente com incapacidade de segurar — decorrente da inflamação retal que compromete a distensibilidade e a capacidade de reservatório do reto. Nos casos graves, pode haver mais de 10 evacuações sanguinolentas por dia.

A dor abdominal na RCU é preferencialmente em fossa ilíaca esquerda — diferente da Crohn, que dói mais à direita —, refletindo o comprometimento predominante do cólon esquerdo e sigmoide. Casos de proctite isolada (inflamação restrita ao reto) podem se apresentar com apenas tenesmo e sangramento, sem diarreia volumosa.

A anemia na RCU é predominantemente ferropriva por perda sanguínea crônica — diferente da Crohn, onde a anemia pode ser por deficiência de B12 e má absorção. Essa é uma das diferenças clínicas importantes para o diagnóstico diferencial.

Uma complicação grave e específica da RCU é o megacólon tóxico: dilatação maciça do cólon (diâmetro > 6 cm na TC) com sepse sistêmica, instabilidade hemodinâmica e risco iminente de perfuração. É uma emergência cirúrgica.

Diarreia com sangue + urgência evacuatória + dor em FIE = RCU até prova em contrário. Megacólon tóxico (cólon >6 cm + sepse) é emergência cirúrgica.

Apresentação clínica da RCU
  • Diarreia COM sangue — sangramento retal é cardinal
  • Urgência evacuatória intensa — tenesmo, incontinência
  • Dor em fossa ilíaca esquerda (≠ Crohn que é FID)
  • Anemia ferropriva por perda sanguínea (≠ Crohn que é por má absorção)
  • Megacólon tóxico: cólon >6 cm + sepse → emergência cirúrgica
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RCU vs Crohn é um dos diferenciais mais cobrados em provas. Testa no MedCaju.

Questões de RCU →

Classificação de gravidade da RCU — Escore de Mayo

O professor apresenta o escore de Mayo como instrumento de avaliação da gravidade da RCU. Os parâmetros avaliados são: número de evacuações por dia (nos casos graves pode ultrapassar 10 por dia, o que é extremamente desconfortável e debilitante); presença e intensidade do sangramento retal; nível de hematócrito como medida indireta do sangramento — quanto mais baixo, mais sangue o paciente perdeu, maior a extensão e a intensidade do processo inflamatório; PCR; e o grau de extensão endoscópica.

O escore permite classificar a doença como leve, moderada ou grave, e direciona as decisões terapêuticas. Quanto mais jovem for o início da doença e quanto maior o grau de comprometimento, pior o prognóstico a longo prazo.

Escore de Mayo — parâmetros
  • Número de evacuações/dia — >10 = grave
  • Sangramento retal — presença e intensidade
  • Hematócrito — reflete perda sanguínea acumulada
  • PCR — atividade inflamatória sistêmica
  • Extensão endoscópica — quanto do cólon está comprometido
Capítulo IV

Tratamento das DII

A pirâmide terapêutica

O professor descreve o tratamento das DII como uma pirâmide escalonada — começa pelas medicações mais simples e menos potentes, e sobe conforme a gravidade e resposta ao tratamento. O objetivo é sempre tirar o paciente da crise (indução de remissão) e depois manter a remissão a longo prazo (manutenção).

Na base da pirâmide estão as medicações de primeira linha: os 5-aminossalicilatos (5-ASA) — sulfassalazina e mesalazina. São usados principalmente na RCU (especialmente nas formas leves a moderadas) e têm ação anti-inflamatória local na mucosa intestinal. Na RCU com comprometimento distal, há formulações tópicas — supositórios e enemas de mesalazina — que permitem tratamento local com menor efeito sistêmico.

Para tirar o paciente de uma crise aguda, o arsenal inclui os corticosteroides. São eficazes para induzir remissão rapidamente, mas não devem ser usados a longo prazo — seus efeitos adversos com uso prolongado (osteoporose, diabetes, hipertensão, infecção) são inaceitáveis como manutenção. O corticoide é uma ferramenta de curto prazo: usa-se para "apagar o incêndio" e logo se transiciona para outra medicação.

Para manutenção, sobem-se os imunomoduladores: azatioprina, mercaptopurina e metotrexato. São medicações que modulam a resposta imune de forma mais duradoura e permitem manutenção da remissão. Contudo, têm início de ação lento (semanas a meses) e exigem monitoramento regular de função hepática e hemograma.

No topo da pirâmide estão os imunobiológicos — os agentes mais potentes e mais caros. O professor menciona que atualmente há uma preferência crescente por iniciar os biológicos mais precocemente, em vez de aguardar a escada completa, especialmente em pacientes com marcadores de mau prognóstico. Os anti-TNF (infliximabe, adalimumabe) são os mais utilizados no Brasil. Há também anticorpos anti-integrina (vedolizumabe) e anti-interleucinas (ustekinumabe). O professor diz com humor que nem ele lembra o nome de todos — e que isso é função da farmacologia: o que importa para os estudantes é entender o conceito de cada classe.

A pirâmide: 5-ASA (base) → corticoide (crise) → imunomoduladores (manutenção) → imunobiológicos (topo). O corticoide não é manutenção — é resgate de crise.

Pirâmide terapêutica
  • 5-ASA (mesalazina, sulfassalazina): 1ª linha especialmente na RCU leve a moderada
  • Corticosteroides: indução de remissão em crises — não usar a longo prazo
  • Imunomoduladores (azatioprina, MTX): manutenção — início de ação lento
  • Imunobiológicos (anti-TNF, anti-integrina, anti-IL): topo da pirâmide — tendência a uso mais precoce em doença grave
  • Biológicos permitem cicatrização da mucosa — não apenas controle de sintomas

Tratamento de suporte e medidas gerais

Além da farmacoterapia, o manejo das DII exige atenção a múltiplos aspectos não farmacológicos. O professor enfatiza o suporte nutricional: nos casos graves, pode ser necessária a nutrição parenteral total (NPT), com o paciente em jejum absoluto (dieta zero) nas primeiras 24–48 horas. Mesmo depois de retomar alimentação, ela não atingirá o alvo nutricional adequado, sendo necessário suporte adicional.

A analgesia deve evitar opioides — eles reduzem o peristaltismo, aumentam a distensão intestinal e elevam o risco de megacólon tóxico. O controle eletrolítico é fundamental, especialmente potássio e magnésio.

O acompanhamento psicológico é recomendado: esses pacientes têm alta prevalência de depressão, ansiedade e isolamento social decorrentes da cronicidade e dos sintomas limitantes. A atividade física moderada, quando o paciente está em remissão, tem papel imunomodulador e melhora o bem-estar. Durante as crises agudas, repouso é indicado.

As orientações dietéticas incluem evitar ultraprocessados, álcool e alimentos gordurosos que exacerbam a inflamação. Não há uma dieta universal para DII, mas uma alimentação de base anti-inflamatória é recomendada. Fibras solúveis são geralmente bem toleradas; fibras insolúveis podem agravar sintomas em fases ativas.

Medidas gerais
  • Crises graves: NPT + dieta zero 24–48h
  • Evitar opioides — risco de megacólon tóxico
  • Acompanhamento psicológico — depressão, ansiedade, isolamento
  • Atividade física moderada na remissão — imunomodulação
  • Dieta: evitar ultraprocessados, álcool; base anti-inflamatória

Vigilância endoscópica e risco de neoplasia

Um aspecto importante que o professor enfatiza é o risco aumentado de neoplasia colorretal em pacientes com DII de longa data. A inflamação crônica, com ciclos repetidos de agressão e regeneração celular, é um substrato para transformação neoplásica. Pacientes com mais de 8 anos de doença necessitam de colonoscopia de vigilância a cada 1–2 anos, dependendo da extensão e gravidade da doença. Na RCU com pancolite, o intervalo pode ser ainda menor.

Fatores de mau prognóstico incluem: início precoce da doença (especialmente em adolescentes e adultos jovens), doença extensa, uso precoce e prolongado de corticosteroides, processo inflamatório persistentemente ativo, e desnutrição. Quanto mais jovem o início e mais intensa a doença, pior o prognóstico a longo prazo.

Vigilância
  • Doença >8 anos → colonoscopia de vigilância a cada 1–2 anos
  • Risco de neoplasia colorretal aumentado — inflamação crônica = substrato carcinogênico
  • Mau prognóstico: início jovem · doença extensa · uso precoce de corticoide · desnutrição

Indicações cirúrgicas

A cirurgia nas DII é reservada para situações específicas. Na Doença de Crohn, as principais indicações são: fístulas refratárias ao tratamento clínico, obstrução intestinal por estenose, abscesso não drenável, perfuração intestinal livre, e falha terapêutica completa após escalonamento adequado. O professor alerta que operar uma Crohn é tecnicamente desafiador: o padrão segmentar faz com que a ressecção de uma área não garanta que outra não seja afetada futuramente. Além disso, pacientes com múltiplas cirurgias prévias têm abdome com aderências densas — "abdome congelado" — que tornam cada nova intervenção progressivamente mais arriscada e complexa.

Na RCU, a colectomia total é a única forma de cura — já que a doença é restrita ao cólon. As indicações incluem: megacólon tóxico refratário ao tratamento clínico (cólon >6 cm com comprometimento sistêmico), falha terapêutica, displasia de alto grau ou neoplasia identificada na colonoscopia de vigilância. Mais de 50% dos pacientes com Crohn e uma parcela significativa dos com RCU terminam necessitando de cirurgia ao longo da vida.

Cirurgia na Crohn trata a complicação, não cura a doença. Na RCU, a colectomia total é curativa — mas é uma decisão de grande impacto na qualidade de vida.

Indicações cirúrgicas
  • Crohn: fístula refratária · obstrução por estenose · abscesso · perfuração · falha terapêutica
  • RCU: megacólon tóxico · falha terapêutica · displasia/neoplasia · colectomia = cura
  • >50% dos pacientes com Crohn terminam cirurgicamente
  • Crohn com múltiplas cirurgias: abdome congelado — cada nova operação é mais arriscada
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Tratamento escalonado, biológicos e indicações cirúrgicas são muito cobrados nas provas de clínica médica e gastroenterologia.

Resolver questões de DII →

Autoria: Resumo organizado por Igor Sabino para o MedCaju, com base na aula oral do Prof. Itapuan Damásio de Sousa, complementado com anotações pessoais e diretrizes sobre o tema.
Referências: ECCO Guidelines · Consenso Brasileiro de DII · AGA Clinical Guidelines
⚠️ Material estritamente de estudo. Não substitui fontes primárias, literatura médica oficial nem orientação profissional.

🍅 Pomodoro

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