DRGE — Guia Visual · MedCaju
Gastroenterologia — Guia Visual Completo

Doença do Refluxo
Gastroesofágico

Fisiopatologia · Bolsa ácida · Los Angeles · Exames · Barrett · Tratamento · Quiz

Por Igor Sabino para o MedCaju · Prof. Alberto Burlamaqui · Lyon 2.0 (2023) · Diretrizes BR (2024)
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Fisiopatologia — o Desbalanço

MUCOSA ESOFAGICA CLAREAMENTO EEI Peristaltismo + saliva ANGULO DE HIS Valvula anatomica RESISTENCIA EPITELIAL Juncoes tight + muco RELAXAMENTO TRANSIT. EEI abre na hora errada BOLSA ACIDA pH 1,6 Sobrenadante pos-prandial HERNIA DE HIATO Obesidade - gestacao REFLUXO -> DRGE quando defesa < agressao
DRGE = desequilibrio entre defesa e agressao — nao e apenas excesso de acido
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Mecanismo mais frequente
Relaxamento transitório inapropriado do EEI

O esfíncter esofágico inferior não está hipotônico cronicamente — ele tem tônus adequado, mas relaxa em momentos inadequados. O professor usa a metáfora: "portão eletrônico com curto-circuito que abre na hora errada e fica aberto por mais tempo." Esse mecanismo é o mais frequente na DRGE.

🌊
Fenômeno descoberto há 10–15 anos
Bolsa ácida pós-prandial — pH 1,6

Após a refeição, o pH gástrico aumenta (comida tampona o ácido). Mas as células parietais continuam secretando HCl — que forma um sobrenadante ácido com pH ~1,6 logo abaixo do EEI. Quando reflui, causa pirose intensa mesmo em pacientes com IBP. A solução: associar alginato, que forma gel flutuante quebrando esse sobrenadante.

⚠️
Mais carcinogênico
Refluxo alcalino — mais perigoso que o ácido

Conteúdo biliar e pancreático (alcalino) pode subir por disfunção do piloro. Refluxo alcalino é estatisticamente mais associado a transformação neoplásica do que o ácido. A pHmetria isolada não detecta esse tipo de refluxo.

Fatores agressores — memorizar
  • Relaxamento transitório inapropriado do EEI — mecanismo mais frequente
  • Bolsa ácida pós-prandial — pH 1,6 · não controlada pelo IBP · tratar com alginato
  • Hérnia de hiato — facilita refluxo por múltiplos mecanismos
  • Pressão abdominal aumentada — obesidade, gestação, refeições volumosas
  • Esvaziamento gástrico retardado — gastroparesia em diabéticos
  • Refluxo alcalino — mais carcinogênico · não detectado pela pHmetria isolada
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Sintomas e Sinais de Alarme

🔥
Atualização Lyon 2.0 (2023)
Sintomas típicos da DRGE

Pirose — queimação retroesternal ascendente. Diferente da azia (localizada, não sobe). Regurgitação — retorno alimentar ou ácido até a garganta, sem vômito.

Atualização: pelo Lyon 2.0 e Diretrizes BR 2024, dor torácica não cardíaca é agora sintoma TÍPICO — não mais atípico. É também a principal causa de dor torácica não cardíaca. Em questões antigas: resposta = pirose + regurgitação. Em questões atualizadas: inclui dor torácica não cardíaca.

Sintomas extraesofágicos: tosse crônica, laringite, rouquidão, globo faríngeo, otite, asma, fibrose pulmonar. São multifatoriais — o refluxo pode ser apenas um contribuinte.
🚨
Endoscopia obrigatória
Sinais de alarme
  • Disfagia progressiva — não esperada em DRGE simples
  • Odinofagia — dor ao deglutir
  • Perda de peso não intencional
  • Anemia ferropriva inexplicada
  • Hematêmese ou melena
  • Idoso com início abrupto de sintomas
  • História familiar de câncer esofágico ou gástrico
  • Refratariedade ao tratamento adequado
Jovem sem sinais de alarme, primeira vez: diagnóstico clínico + tratamento empírico com IBP. Endoscopia não é para todo paciente com pirose.
03

Classificação de Los Angeles

A
Leve
Erosões <5 mm
Não coalescentes

Lyon 2.0:
NÃO fecha diagnóstico
B
Moderado
Erosões >5 mm
Não coalescentes

Lyon 2.0:
diagnóstico conclusivo
C
Acentuado
Coalescentes
<75% da circ.

Diagnóstico
conclusivo
D
Grave
Coalescentes
>75% da circ.

Diagnóstico
conclusivo
📌
Lyon 2.0 (2023): Graus B, C e D confirmam DRGE. Grau A isolado não é diagnóstico. Outros achados conclusivos: estenose péptica, Barrett, adenocarcinoma esofágico.
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Exames Diagnósticos

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Sempre primeiro
Endoscopia digestiva alta (EDA)

Não é o padrão ouro do diagnóstico, mas é obrigatória antes de qualquer outro exame. Avalia lesões, classifica pelo Los Angeles, descarta neoplasia e diagnósticos alternativos. 30% têm erosões (DRGE erosiva); 70% têm endoscopia normal (DRGE não erosiva). Endoscopia normal não afasta o diagnóstico.

📊
Padrão ouro para refluxo ácido — sempre com manometria
pHmetria de 24h + Manometria esofágica

pHmetria = padrão ouro para refluxo ácido. Sonda 5 cm acima do EEI (posicionada pela manometria). Exposição ácida >6% = diagnóstico. <4% = fisiológico. 4–6% = zona indeterminada.

A manometria é obrigatória antes da pHmetria para localizar o EEI. Também diagnostica distúrbios motores. Limitação da pHmetria: detecta apenas refluxo ácido — os 20–30% com refluxo alcalino ou fracamente ácido terão resultado falso-negativo.

🔬
Padrão ouro atual — detecta tudo
Impedanciometria-pHmetria (MII-pH)

Combina pH + sensores de impedância que detectam qualquer deslocamento no esôfago — ácido, fracamente ácido, alcalino, gasoso. Correlaciona refluxo com sintomas, diferenciando fenótipos:

  • pHmetria normal + MII-pH positiva com correlação: hipersensibilidade ao refluxo
  • pHmetria normal + MII-pH sem correlação: pirose funcional
Sequência diagnóstica obrigatória
  • 1º EDA — sempre primeiro · Los Angeles · descarta neoplasia
  • 2º pHmetria + manometria — juntas obrigatoriamente · padrão ouro para refluxo ácido
  • 3º MII-pH — se pHmetria negativa · detecta refluxo alcalino e fracamente ácido
  • Exposição >6%: diagnóstico · <4%: fisiológica · 4–6%: zona indeterminada
🔭

Los Angeles, pHmetria e sequência diagnóstica são muito cobrados em provas de clínica.

Questões de DRGE →
05

Esôfago de Barrett

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Complicação pré-neoplásica
Definição e diagnóstico

O Esôfago de Barrett é a substituição do epitélio escamoso por epitélio colunar com metaplasia intestinal — resposta adaptativa à agressão ácida crônica. Mucosa cor salmão na EDA acima da linha Z.

Diagnóstico: biópsia com metaplasia colunar tipo intestinal. No Brasil, mucosa tipo gástrico não é Barrett. Curto (<3 cm) = baixo risco. Longo (≥3 cm) = risco aumentado, monitorização intensiva.

Metaplasia
sem displasia
~0,1–0,3%/ano
adenocarcinoma
EDA de vigilância a cada 3–5 anos. Controle do refluxo. Sem indicação de ablação.
Displasia
Baixo Grau
~0,5–0,77%/ano
Confirmar com 2º patologista (protocolo obrigatório). EDA em 6 meses. Considerar ablação por radiofrequência ou plasma de argônio.
Displasia
Alto Grau
Risco elevado
Confirmar com 2º patologista. Ecoendoscopia para estadiamento. Ablação ou mucosectomia. Invasão >500 µm ou vascular: esofagectomia.
Adenocarci-
noma
Invasão >500 µm
ou vascular
Esofagectomia — retirada do esôfago, reconstrução com tubo gástrico ou cólon. Pacientes selecionados com invasão <500 µm sem invasão vascular: tratamento endoscópico.
⚠️
Fundoplicatura ≠ Esofagectomia. Fundoplicatura: fecha o hiato, refaz a válvula, NÃO remove o esôfago, NÃO reverte Barrett. Esofagectomia: remove o esôfago — reservada para neoplasia estabelecida.
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Barrett, progressão e protocolo de vigilância — alta frequência em provas.

Questões de Barrett →
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Tratamento

🥗
Antes do remédio
Medidas comportamentais e dietéticas
  • Evitar gordurosos, condimentados, chocolate, menta, álcool, carbonatados
  • Refeições pequenas e frequentes — não encher o estômago
  • Não beber durante as refeições
  • Não deitar por 2–3h após a refeição
  • Cabeceira da cama elevada 15 cm — tijolo sob os pés da cama (não só travesseiro)
  • Emagrecimento em obesos
  • Cessação do tabagismo
IBP — primeira linha
Inibem H+/K+-ATPase. Cicatrizam erosões, controlam pirose. Taxas de falha: 20% em erosivos C-D · 40% em não erosivos · 38% em pirose noturna (duração ~18h). Não controlam a bolsa ácida pós-prandial.
Alginato — para a bolsa ácida
Gel flutuante que quebra o sobrenadante ácido pós-prandial. Associar ao IBP em pacientes com pirose pós-prandial persistente.
Uso prolongado de IBP — atenção
Hiperplasia de células parietais (rebote ao suspender) · deficiências de B12, magnésio, cálcio · risco de C. difficile e aspiração. Usar com indicação precisa pelo menor tempo necessário.
Fundoplicatura — cirurgia antirrefluxo
Fecha o hiato + envolve o fundo gástrico ao redor do EEI (Nissen 360° ou parcial 270°). Indicada em DRGE refratária ao tratamento clínico. Não reverte Barrett, não elimina risco de adenocarcinoma.
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Quiz Interativo

Questão 1 · Fisiopatologia
Qual é o mecanismo fisiopatológico mais frequente na DRGE, segundo a aula do Prof. Burlamaqui?
Questão 2 · Los Angeles / Lyon 2.0
EDA mostra erosões confluentes (coalescentes) acometendo cerca de 60% da circunferência esofágica. Qual o grau de Los Angeles e o que significa pelo Lyon 2.0?
Questão 3 · Esôfago de Barrett
DRGE há 10 anos. EDA: mucosa rosada 2 cm acima da linha Z. Biópsia: metaplasia colunar tipo intestinal. Qual a conduta e frequência de vigilância?
Questão 4 · Diagnóstico diferencial de pirose
EDA normal. pHmetria de 24h normal. MII-pH mostra refluxo dentro dos limites normais, mas 80% dos episódios de pirose coincidem com refluxo. O diagnóstico mais provável é:
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Armadilhas da Banca

Los Angeles
Los Angeles A confirma DRGE
❌ "EDA com erosões <5 mm (grau A) confirma DRGE — iniciar IBP."
Los Angeles A isolado NÃO é diagnóstico conclusivo de DRGE. Pode estar em 5% da população normal. Pelo Lyon 2.0, apenas B, C e D confirmam. Grau A + sintomas → prosseguir com pHmetria.
Lyon 2.0
Dor torácica não cardíaca é sintoma atípico
❌ "Sintomas típicos = pirose e regurgitação; dor torácica não cardíaca = atípica."
Questões atualizadas (Lyon 2.0 e Diretrizes BR 2024): dor torácica não cardíaca é sintoma TÍPICO. Questões antigas: ainda atípica. Atenção ao ano da questão.
pHmetria
Pedir pHmetria diretamente sem EDA antes
❌ "Pirose típica sem alarme. Solicitar pHmetria + manometria para diagnóstico definitivo."
EDA sempre primeiro. Antes de passar sonda, descartar estenose ou neoplasia. Sequência obrigatória: EDA → manometria → pHmetria.
Barrett
Fundoplicatura reverte o Barrett
❌ "Fundoplicatura no Barrett longo elimina o risco de adenocarcinoma."
Fundoplicatura NÃO reverte o Barrett. Reduz exposição ácida, mas não desfaz a metaplasia. Vigilância endoscópica continua obrigatória após a cirurgia.
Barrett · 2º Patologista
Displasia de alto grau: indicar esofagectomia imediatamente
❌ "Biópsia com displasia de alto grau. Indicar esofagectomia."
Confirmar com 2º patologista antes de qualquer decisão. Após confirmação: ecoendoscopia para estadiamento. Invasão <500 µm sem invasão vascular: ablação ou mucosectomia. Invasão >500 µm ou vascular: esofagectomia.
IBP
IBP controla completamente a pirose pós-prandial
❌ "Pirose intensa logo após refeições. Omeprazol deve resolver."
IBP não elimina a bolsa ácida pós-prandial. Associar alginato para esses casos. Taxa de falha do IBP na DRGE não erosiva: 40%.
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DRGE, Los Angeles, Barrett — recorrentes em provas de clínica médica.

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