Complicações cardíacas e vasculares
Lesão miocárdica e infarto perioperatório
A lesão miocárdica perioperatória decorre de um desbalanço entre oferta e demanda de oxigênio ao miocárdio durante o ato cirúrgico ou nas horas que o seguem. O estresse metabólico da cirurgia, a variação de pressão arterial, a anemia relativa e a ativação do sistema nervoso simpático pela dor colocam o coração sob carga adicional — e em pacientes com reserva coronariana reduzida, esse desequilíbrio é suficiente para produzir necrose miocárdica.
O que torna esse evento particularmente perigoso é sua frequente apresentação silenciosa. Até 85% dos infartos perioperatórios são assintomáticos — o paciente não refere dor torácica, não tem dispneia, não sinaliza qualquer desconforto. O diagnóstico é feito pela monitorização contínua: alteração de ritmo, mudança no eletrocardiograma ou, decisivamente, pela elevação da troponina.
O professor descreve uma paciente idosa submetida a correção de fratura de úmero que evoluiu com queda progressiva da frequência cardíaca — de 70–80 bpm caindo para 50–45 — sem qualquer queixa. Nenhuma intervenção havia sido feita. O eletrocardiograma mostrou alterações sugestivas de hipoperfusão e a troponina voltou elevada. O infarto tinha acontecido em silêncio.
Por isso, pacientes com risco cardíaco identificado no pré-operatório vão para a UTI não para serem tratados ativamente, mas para serem monitorados. A lógica parece contraintuitiva para quem olha de fora — o paciente não tem procedimento, não tem antibiótico, não tem intervenção programada. O objetivo é flagrar o evento antes que evolua para parada.
"É o pós-operatório mais tranquilo e ao mesmo tempo a maior armadilha. Você bota no monitor, vê como tá e deixa quieto. Mas essa monitorização é traiçoeira — o paciente não tem sintomas."
- Mecanismo: desbalanço entre oferta e demanda de O₂ ao miocárdio — hipotensão, anemia, taquicardia, dor cirúrgica
- Até 85% dos infartos perioperatórios são assintomáticos — diagnóstico pela troponina e ECG
- Conduta: UTI para monitorização — não para intervenção imediata obrigatória
- Paciente de risco cardíaco vai para UTI por protocolo, mesmo sem sintomas
AVC isquêmico e parada cardiorrespiratória
O AVC isquêmico perioperatório compartilha o mesmo substrato fisiopatológico do infarto: hipoperfusão de um território arterial, desta vez cerebral. A fibrilação atrial é o principal mecanismo — o átrio fibrilante forma trombos que embolizam para a árvore cerebrovascular. Pacientes com FA, histórico de arritmias ou disfunção de bomba têm risco aumentado.
A parada cardiorrespiratória intraoperatória é evento raro mas com mortalidade muito elevada. O cirurgião opera com o campo coberto — o paciente está oculto, às vezes só a cabeça aparece. A detecção depende inteiramente da monitorização eletrônica. Quando a parada ocorre, o ato cirúrgico deve ser interrompido imediatamente para que a reanimação seja iniciada.
- AVC perioperatório: FA → trombo atrial → embolia cerebral — maior risco em idosos com fibrilação atrial
- PCR intraoperatória: mortalidade muito elevada — detecção pelo monitor, não pelo cirurgião
- PCR intraop: interromper o ato cirúrgico e iniciar RCP imediatamente