Sensibilidade — SOP IV 2026.1
SOP IV · 2026.1 · Prof. Diego Ramos

Avaliação da
Sensibilidade

Prof. Diego Ramos · Neurologista
Monitor Igor Sabino Barros · T39 · UNIFACID
1
Tipos de Fibras Sensitivas
O ponto de partida do raciocínio em sensibilidade: entender o que cada fibra carrega permite correlacionar a queixa do paciente com a estrutura lesada e com o exame que deve ser feito.
Fibras Finas (A-delta e C)
Fibras Finas
Fibras Grossas (A-alfa e A-beta)
Fibras Grossas
Fibras Finas
A-delta e C
O que carregam Dor e temperatura (exteroceptiva)
Sintoma positivo Queimação espontânea nos pés (fibra C)
Sintoma negativo Hipoestesia dolorosa e térmica
Como examinar Instrumento com ponta (dor) e tubos de ensaio (temperatura)
Via na medula Trato espinotalâmico lateral (cruza)
Fibras Grossas
A-alfa e A-beta
O que carregam Propriocepção (Aa), tato fino e vibração (Ab)
Sintoma positivo Formigamento e parestesias (fibra Ab)
Sintoma negativo Desequilíbrio que piora ao fechar os olhos, "não sei onde meu pé está"
Como examinar Romberg, diapasão, batiestesia, cinestesia
Via na medula Fascículos grácil e cuneiforme (não cruza na medula)
Fibra Fina (A-delta e C) Fibra Grossa (A-alfa e A-beta)
Mielinização Pouco ou nada mielinizada Muito mielinizada
Modalidade Dor, temperatura Propriocepção, vibração, tato fino
Queixa típica Queimação, intolerância ao calor, dor espontânea Desequilíbrio no escuro, formigamento, "pé dormente"
Exame físico Teste de dor (ponta) e temperatura (tubos) Romberg, diapasão, batiestesia
Via na medula Espinotalâmico lateral (cruza na medula) Fascículos grácil/cuneiforme (cruza no bulbo)
Reflexos Normais nas lesões puramente de fibra fina Abolidos (arco reflexo depende de fibra grossa)
💡
A dissociação sensitiva ocorre porque as fibras finas e grossas seguem caminhos diferentes na medula. Isso permite lesões que afetam uma modalidade e preservam outra, o que é fundamental para o raciocínio topográfico.
2
Via Sensitiva: do Nervo ao Córtex
Cada fibra percorre um caminho diferente até o córtex. Entender onde cada via cruza para o lado oposto é o que permite localizar a lesão a partir da distribuição dos sintomas.
Fibra Fina (dor e temperatura)
1
Receptor periférico
Captação do estímulo doloroso ou térmico na pele
2
Corno posterior da medula
Sinapse do 1º neurônio. A fibra cruza logo aqui para o lado oposto.
Cruza na medula
3
Trato espinotalâmico lateral
Sobe contralateral pelo tronco cerebral inteiro
4
Tálamo (VPL)
A dor já é parcialmente interpretada aqui
5
Córtex somatossensorial
Giro pós-central, áreas 3, 1 e 2 de Brodmann
Fibra Grossa (propriocepção e tato fino)
1
Receptor periférico
Captação de posição, vibração e tato discriminativo
2
Fascículos grácil e cuneiforme
Sobe pelo mesmo lado sem fazer sinapse na medula
Não cruza na medula
3
Núcleos grácil e cuneiforme (bulbo)
Sinapse do 2º neurônio. Aqui a fibra cruza, formando o lemnisco medial.
Cruza na transição bulbomedular
4
Tálamo (VPL)
Origem do 3º neurônio sensitivo
5
Córtex somatossensorial
Destino final de todas as modalidades sensitivas
⚠️
O cruzamento em momentos diferentes é o que explica as síndromes de dissociação. Na medula, fibra fina já cruzou e fibra grossa ainda não. No bulbo, ambas já cruzaram. Acima do bulbo, tudo é contralateral.
Homúnculo Sensitivo: representação cortical por região corporal
O córtex dedica mais espaço às regiões com maior densidade de receptores. Regiões com barra maior têm representação cortical proporcionalmente maior.
Genitais
pequena
moderada
Perna / Joelho
moderada
Quadril / Tronco
pequena
Ombro / Braço
moderada
Antebraço / Mão
grande
Dedos
muito grande
Polegar
enorme
Face / Lábios
enorme
Língua / Faringe
muito grande
Membro inferior: face medial do córtex. Membro superior e face: convexidade.
Homúnculo Sensitivo
Homúnculo Sensitivo
Representação cortical proporcional por região corporal
3
Exame Físico da Sensibilidade
Cada modalidade sensitiva tem seu instrumento e sua técnica. O ponto central é sempre comparar a área testada com uma área de referência normal (proximal no mesmo membro ou na extremidade oposta).
🔥

Sensibilidade Térmica

Fibra fina
  • Tubos de ensaio com água morna e gelada
  • Alternativa: diapasão resfriado (metal frio)
  • Comparar sempre com área de referência
  • Em pacientes com extremidades frias: preferir teste de dor
📍

Sensibilidade Dolorosa

Fibra fina
  • Instrumento com ponta (sem lacerar a pele)
  • Em pacientes com hiperalgesia ou alodinia: preferir teste térmico
  • Hiperalgesia: área testada dói mais que referência
  • Alodinia: dor ao estímulo tátil
🪶

Sensibilidade Tátil

Fibra grossa
  • Algodão do cotonete (sem pressão sobre o tecido)
  • Estesiômetro (filamentos de Semmes-Weinstein) para refinar
  • Fios mais finos: lesão de fibra fina
  • Fios mais grossos: lesão de fibra grossa
⚖️

Propriocepção

Fibra grossa
  • Batiestesia: "dedo para cima ou para baixo?" (olhos fechados)
  • Cinestesia: "o dedo está mexendo ou parado?"
  • Palestesia: diapasão em proeminências ósseas
  • Romberg: desequilíbrio ao fechar os olhos, sem lado preferencial
  • Pesquisar pseudoatetose na elevação dos braços
⚠️
Hanseníase: sempre pesquisar. Em qualquer neuropatia com padrão de nervo periférico, palpar os nervos. Espessamento nervoso associado a manchas de pele é o padrão clássico. Nervos mais afetados: mediano, ulnar e fibular.
4
Raciocínio Topográfico
A distribuição dos sintomas sensitivos é o que localiza a lesão. A pergunta central é: onde o sinal de lesão aparece no corpo? Isso aponta para a estrutura acometida.
Fluxo de raciocínio: da queixa à topografia
1
Queixa
Identificar se é sintoma positivo (queimação, formigamento, choque) ou negativo (perda, redução da sensação)
2
Qual fibra
Queimação, intolerância ao calor = fibra fina. Desequilíbrio no escuro, formigamento = fibra grossa. Se ambas = lesão mais ampla.
3
Distribuição
Território de nervo (assimétrico, focal) = periférico. Dermátomo = raiz. Nível sensitivo (tudo abaixo) = medula. Hemicorpo = encéfalo.
4
Dissociação
Fibra fina afetada de um lado e fibra grossa do outro = hemissecção medular. Extremidades contralaterais com face ipsilateral = tronco cerebral.
5
Como examinar
Confirmar a hipótese com o exame dirigido à fibra suspeita. Se fibra fina: dor e temperatura. Se fibra grossa: propriocepção, vibração, Romberg.
Periférico

Nervo / Raiz

  • Nervo: distribuição em neurótomo (território do nervo)
  • Raiz: distribuição em dermátomo
  • Raiz: geralmente associada a dor radicular
  • Nervo mediano no túnel do carpo: poupa região tenar
Palpação do nervo: espessamento sugere hanseníase
Medular

Medula Espinhal

  • Completa: nível sensitivo abaixo do qual tudo está alterado
  • Incompleta (Brown-Séquard): dissociação ipsi/contralateral
  • Costumam ter sintomas esfincterianos associados
Chave: nível sensitivo + sintomas esfincterianos
Tronco Cerebral

Tronco Cerebral

  • Todas as modalidades das extremidades já cruzaram
  • Fibras trigeminais ainda podem não ter cruzado na porção inferior
  • Wallenberg: extremidades contralaterais + face ipsilateral
Chave: síndrome cruzada face/extremidades
Telencéfalo

Tálamo e Córtex

  • Hemicorpo contralateral completo (face + extremidades)
  • Lesão abaixo do tálamo: todas as modalidades comprometidas
  • Lesão acima do tálamo: preserva dor (interpretada no tálamo)
  • Dor talâmica: quadro de dor crônica após lesão talâmica
Chave: hemicorpo contralateral, face incluída
5
Síndromes Sensitivas
Os nomes aparecem como contexto. O que importa é reconhecer o padrão de fibras afetadas e correlacionar com a topografia.
Fibra Fina Polineuropatia de Fibras Finas
O que esperar
  • Queimação nos pés (sintoma positivo)
  • Padrão distal e simétrico (bota ou luva)
  • Tontura ortostática (disfunção autonômica)
  • Sintomas esfincterianos (retenção)
No exame físico
  • Térmica e dolorosa: alteradas
  • Propriocepção e reflexos: normais
  • Pressão ortostática: alterada
Causas comuns: diabetes, deficiência de B12, hipotireoidismo
Fibra Grossa Polineuropatia de Fibras Grossas
O que esperar
  • Ataxia sensitiva (desequilíbrio que piora no escuro)
  • Romberg positivo
  • Pseudoatetose ao elevar os braços
  • Arreflexia (reflexo depende de fibra grossa)
No exame físico
  • Propriocepção e vibração: alteradas
  • Térmica e dolorosa: normais
  • Reflexos profundos: abolidos
Causa mais comum: ganglionopatia (lesão no gânglio da raiz dorsal)
Medular Síndrome de Brown-Séquard (hemissecção medular)
Lado da lesão (ipsilateral)
  • Perda da propriocepção
  • Perda de força (via motora também ipsilateral)
Lado oposto (contralateral)
  • Perda da sensibilidade dolorosa e térmica
Por que? Fibra fina cruza na medula. Fibra grossa ainda não cruzou. Lesão de um lado afeta vias diferentes em lados diferentes.
Tronco Síndrome de Wallenberg (tronco cerebral inferior)
Extremidades
  • Todas as modalidades comprometidas contralateralmente
  • No tronco, tudo já cruzou para as extremidades
Face
  • Comprometida ipsilateralmente
  • Fibras trigeminais ainda não cruzaram nessa altura
Chave: síndrome cruzada. Face de um lado, extremidades do outro.
Encéfalo Lesões do Telencéfalo e Tálamo
Lesão abaixo do tálamo
  • Todas as modalidades comprometidas
  • Hemicorpo contralateral (face + extremidades)
Lesão acima do tálamo
  • Dor é preservada (já foi interpretada no tálamo)
  • Demais modalidades comprometidas no hemicorpo contralateral
Dor talâmica: quadro de dor crônica que pode surgir após lesão talâmica
7
Raciocínio na Prática: Queixa a Topografia
Cada exemplo parte de uma queixa real e percorre o mesmo framework: fibra afetada, via comprometida, distribuição dos sintomas, exame físico necessário e topografia final.
SOP IV · 2026.1 · Prof. Diego Ramos
Monitor Igor Sabino Barros
T39 · UNIFACID · Neurologia clínica